A cultura de A a Z e a diversificação da economia

Envie este artigo por email

Já nos ocupamos do papel do turismo (cultural), pelo que trazemos hoje, aqui e agora, à colação a problemática da cultura articulada com a diversificação da economia, por via deste breve e despretensioso glossário, bosquejado por mera ordem alfabética.

A cultura de A a Z e a diversificação da economia
Ilustrações de António ole Fotografia: Arquivo

Agricultura – o termo guarda no seu bojo o sentido etimológico da cultura. Este último lexema, por sua vez, vem do verbo latino , colore( cultivar). A agricultura é vista como a fonte principal para a diversificação da economia, seguida das pescas, da agro-indústria e da indústria. Mas, como se sabe e contrariamente ao que muito boa gente pensa, a cultura não é o parente pobre do desenvolvimento, sendo uma das suas mais importantes dimensões. Assim sendo, a cultura pode ser um importante vector da diversificação económica hoje muito em voga, em razão da crise dos petrodólares, despoletada em 2014.
B-Burilar – significa escrever, no sentido do linguajar comum. A arte da escrita é a literatura. Pode dar emprego a escritores, gravuristas, revisores e gráficos, se para tanto houver o desenvolvimento da indústria cultural que sirva para as encomendas da criação literária, já de certo modo abundante entre nós(não se sabendo se a quantidade corresponderá à qualidade, o que não parece ser o caso) e o estímulo à leitura. Não havendo jardim escola, como na Alemanha de Gunter Grass, por exemplo, para a primeira infância, a saída será a escola, para a criança angolana que frequenta a escola primária. Nestes termos, impõe-se a adopção dos textos e obras dos autores angolanas nas escolas públicas e privadas, sem prejuízo das universidades, sobretudo as que leccionam cursos ligados às ciências humanas e sociais, com destaque para as faculdade de letras; obrigando os estudantes a adquirirem as obras dos autores angolanos, aumentando o pecúlio das editoras e consequentemente dos escritores ( bem como dos impostos devidos à actividade económica e comercial, por sinal subjacente na produção, circulação e distribuição, como, por exemplo, a venda dos livros). Neste particular há que acautelar os direitos autorais para que os criadores(literários) não saiam penalizados, sendo certo que muitos editores ficam com a parte do corpo do leão e os escritores, cujo direito moral sobre obras é inalienável quedam-se frustrados com o rabo do leão; quando aqueles recorrem também a patrocínios de terceiros, ganhando duas vezes pela obra( patrocínio e venda). De resto, um ganho que poderia ser na totalidade do autor, se contratasse (na posse desses apoio) directamente uma gráfica para o efeito da publicação da sua obra.
Cultura – Cultura como já ficou visto vem do verbo do latim cultivar. No sentido global temos a cultura como a relação que o homem estabelece com o meio, os outros homens e consigo próprio. No sentido estrito teremos a cultura como as diversas manifestações artísticas existentes à face da (nossa) terra (a dança, o teatro, a literatura, o cinema e a música); manifestações de que nos ocuparemos adiante, à excepção da literatura de que já vos falamos.
Dança – São raros os grupos de dança moderna entre nós. Um maior investimento nesta manifestação artística pode contribuir para um maior revigoramento da dança contemporânea em Angola, investindo em grupos já existentes, bem como concorrendo para o surgimento de outros tantos. Para tanto há que investir na formação de bailarinos, garantindo emprego para os jovens que têm nesta arte a sua forma de expressão artística ou quem venha a optar por essa manifestação estética como forma do seu ganha pão. Pois o bailarino, como os artistas em geral, é um profissional dedicado a este ramo de actividade humana, pois “nem só de pão vive o homem”.
Escola – A formação informal e formal ( média e superior) dos artistas será uma boa aposta para a saída da crise, em torno do objectivo estratégico em questão, dando empregabilidade e sustento aos artistas e dependentes. Há que investir na cultura não só nas capitais provinciais e das vilas, como nas aldeias e sanzalas, onde as populações já vivem, por excelência, embrenhadas na cultura, dia a dia, sem o risco do desenraizamento cultural mais saliente nos principais centros urbanos, com destaque para a capital, resgatando-se, assim, a originalidade da nossa cultura e a sua matriz africana, oferecendo fonte inspiradora os mais diversos produtos culturais (e mesmo turísticos até).
F – Fomento das artes a favor da diversificação da economia exige que se crie uma infraestrutura mínima para que os artistas trabalhem a contento, em ateliers, palcos, anfiteatros e até minigráficas para impressão de livros, cadernos, desdobrováveis, jornais e revistas. Os bancos devem apoiar financeiramente os artistas e cobrar os respectivos juros bonificados e não a doer, sendo certo que a sua actividade criativa garante o reembolso das dívidas contraídas, a curto ou médio prazo.
G-Grutas – As grutas no Tchindu Ulu, no Namibe, ou a Fenda da Tundavala, ou mesmo as quedas cristalinas das Cachoeiras, no Cuanza sul, ou as Kalandula, em Malange, bem como outros pontos geográficos de relevo agraciados pela mãe-natureza aos angolanos constituem não só motivos turísticos importantes, para potenciar o desenvolvimento do turismo, bem como gerar postos de trabalho e rendimentos aos potenciais empregados e seus agregados familiares, concorrendo , deste modo também, para a diversificação da economia. Para tanto há que investir cada vez mais no turismo, a famosa indústria da paz, em projectos de grande porte, como o Projecto Turístico do Okavango, cuja vertente ecológico-cultural é de reter em atenção, sem prejuízo doutros empreendimentos de pequena e média dimensão, quando mais não seja para garantir cada vez mais ingressos de divisas para a economia nacional, baixando os custos da hospedagem e quejandos. A fama de que os preços da nossa hotelaria saem a doer atravessa fronteiras...
H-Huambo – As últimas notícias que nos chegam do Huambo, via Angop, dizem-nos que recentemente “O Grupo Efetikilo promove festival de teatro para saudar os 13 anos da sua existência. A actividade, que vai na sua sexta edição, juntou nove grupos das províncias do Huambo, Benguela, Cuanza Sul, Bié e Cuando Cubango. Durante o espectáculo, decorrido no Instituto Superior Politécnico do Huambo, os grupos apresentaram várias peças, com realce para a “Viúva”, “Temba Maria” e “Deusa do amor” “. O responsável do grupo Efetikilo, Alexandre Canguenha, sustentou que “o evento visou promover o desenvolvimento das artes cénicas na província do Huambo, no âmbito dos desafios da preservação da cultura na região, frisando que “o momento serviu também para mobilizar, mais uma vez a sociedade, para a necessidade do resgate dos valores morais e cívicos, através do teatro.”
Quanto ao grupo Efetikilo, criado em Fevereiro de 2003, “tem por objectivo promover acções interventivas na sociedade e moralização dos cidadãos através das artes cénicas”, congregando com 27 actores. Que venham mais notícias frescas sobre o desenvolvimento cultural no Planalto Central e arredores.
Imagem em movimento: é assim também que é conhecido o cinema. O cinema angolano mergulha as suas raízes na TPA, cujo suporte técnico serviu de base de trabalho para os cineastas angolanos que nos primórdios da independência se deram ao trabalho de dar corpo à sétima arte localmente: Ruy Duarte de Carvalho, Orlando Fortunato , António Ole, entre outros percursores da imagem em movimento em Angola. Nos últimos anos uma nova fornada de cineastas têm estado a desabrochar. O documentário é o seu principal cavalo de batalha. Entre a nova fornada de cineastas angolanos, o “handicap” que tem sido atribuído ao "modus operandi" dessa geração é a necessidade de uma cada vez maior aposta na formação na arte do audio-visual e não só. Mas, apesar de tudo vão marcando presença na arena internacional, participando com sucesso em alguns festivais internacionais, que se realizam no Ocidente. Os nossos cineastas, velhos e novos precisam de ser mais acarinhados, pois vejam-se e desejam-se para fazer rolar os seus filmes, dados que implicam grandes investimentos.
J-Jogos dramáticos – Têm que sair das comunidades locais para ser trazidos à ribalta da cena cultural, resgatando assim a força da nossa tradição lúdica, pondo igualmente os jogos dramáticos ao serviço da práxis cultural dos jovens e adolescentes na cidades como nas vilas, sem prejuízo das sanzalas onde emergem desde os tempos imorredoiros. Um exemplo do jogo tradicional é o Quela, já foi trazido à ribalta, através da publicação de um livro que o tinha como tema, com jogadas ensaiadas à mistura.
K-Kianda – É um referente simbólico da cultura entre os ilhéus de Luanda e não só. Nesta senda da invocação do mito, foi recentemente lançada uma antologia literária de 17 poetisas ou amantes de poesia, intitulada “Canto da Kianda”. Cada vez mais senhoras e raparigas ocupam-se da literatura. Bem haja!
L-Literatura – a literatura angolana é das mais pujantes das letras em África, sobretudo nos PALOP. Vários autores deram corpo à literatura angolana há mais de um século, contribuindo para o seu lançamento, desenvolvimento e consolidação. As novas gerações que vão surgindo nos últimos anos bebem desse património literário secular, alem dos aportes que lhes vem doutras leituras, desde o Brasil, Estados Unidos, França, Inglaterra e Portugal. A literatura angolana pode constituir um grande incentivo na diversificação da economia, garantindo ocupação e rendimentos, ainda que sazonal, para escritores e não como já ficou visto. Além de que o livro e consequentemente a sua leitura constitui, por exemplo, um factor desenvolvimento intelectual da criança….para não falar dos jovens, sem prejuízo dos mais velhos. Um investimento maior nos escritores com bolsas de criação literária pode ser uma boa base de potenciação do desenvolvimento literário, cultural e, quiçá, económico do país, numa altura em que a palavra diversificação está na moda; diversificar a economia também é produzir mais leitores e, consequentemente, reproduzindo-se cada vez mais escritores.
M-Música - A Música Popular Urbana Angolana foi uma das traves mestras no combate à ocupação colonial. Através do cancioneiro popular o povo e os seus mais fiéis interpretes resistiram à agressão cultural do opressor, vindo arrogante de doutras paragens. Depois da independência teve um papel capital na mobilização em torno da reconstrução. Hoje por hoje em que se fala em reconciliação nacional e tolerância cultural, a música de intervenção com forte tradição cultural não pode deixar de jogar um papel fulcral em ordem ao alcance deste desiderato da concórdia nacional, que tem como fim último a preservação da Paz, duramente conquistada pelos angolanos faz agora 14 anos, depois longos nos de guerra que aparentava não ter fim à vista.
N-Namibe - No extremo Sudoeste encontramos uma das referências da cultura autóctone angolana. Trata-se do grupo sócio-cultural os hereros. Dedicam-se fundamentalmente à pastorícia. Promover e divulgar a cultura dos hereros, como dos demais grupos etno-linguísticos espalhados pelo nosso território nacional, ou seja de Cabinda ao Cunene, também é um desafio na preservação da identidade cultural nacional e na defesa da angolanidade.
O- Oficinas artísticas: oficinas literárias recomenda-se para potenciar os amantes da letras, bem como estâncias residenciais e bolsas de criação literária para os escritores, velhos e jovens, para que tenham, pelo menos, “fins de semana activos” dedicados à escrita criativa, senão mesmo o tempo inteiro. O que seria ideal! O que é válido para arte literária também o é para as outras manifestações artísticas. Os artistas plásticos, dançarinos, músicos, cineastas também precisam cada vez mais de oficinas artísticas para o aprimoramento do seu trabalho criador, acrescidos de cursos de curta duração, colóquios, palestras. No fundo, no fundo, workshop’s, onde cada um e cada qual dá a conhecer as performances as áudio-visuais e as suas linguagens plásticas, gestuais e corporais. Com um tal desempenho teremos todos a ganhar: os apreciadores da arte angolana, preenchendo as horas de ócio com momentos de fruição e dos prazeres do lúdico. Na verdade, a arte também concorre para uma mente sã, o cultivo do gosto estético de produtores e consumidores, a diversificação da economia e o desenvolvimento em geral do país. De resto, oficinas artísticas precisam-se a todo tempo e todo gás, dando largas a que o trabalho artístico não seja meramente sazonal, e pelo menos a sua divulgação e o intercâmbio entre os implicados: criadores entre si, e estes últimos e o grande público.
P- Pirataria: a cantora Gersi Pegado queixava-se há dias numa entrevista que “as pessoas não sabem sequer que a pirataria é crime. “ Na verdade, ainda estão por ser avaliados os graves danos provocados pelos piratas aos nossos músicos, ao venderem aos discos contrafeitos ao desbarato na zunga, nas praças e feiras de 200 a 500 kwanzas. Na verdade, que os danos são extremamente danosos e gravosos – lá isso são! – à esfera patrimonial dos nossos artistas, acrescidos dos usuários que não pagam os devidos direitos autorais. À UNAC-SA e à SADIA deveriam pronunciar-se como o brigar os prevaricadores a cumprirem com o que está legislado. A ver vamos…
Q-“Quero ser ser tambor” – Diria o poeta da Mafalala, bairro e caniço e chapas de zinco de Maputo. Em boa e sã verdade, a (re)valorização dos nossos instrumentos tradicionais têm que estar no topo das prioridades da dignificação do nosso vasto património cultural: material e imaterial, dado que a instrumentalização não dispensa a voz, no contexto das nossas tradições musicais ancentrais. O resgate da marimba, como já se faz em Malange, tem que ser interaliado com outros géneros musicais, em tudo quanto é canto deste rico e vasto rincão geográfico, sendo certo que a diversidade cultural é parte da riqueza de Angola. Este gigante adormecido que tenta ressurgir das cinzas, -dir-se-ia da crise dos petrodólares- qual fénix!
R-Recolecção – Há grupos grupos sócio-culturais minoritários no interior profundo do país que ainda se dedicam à caça e à recolecção, sendo mesmo a agricultura uma prática inexistente, senão mesmo secundária no seu “modus vivendi”, estando nalguns casos votados ao nomadismo. Trazê-los aos “caminhos ascendentes” do desenvolvimento social, económico e político do país, também é promover a democracia cultural. A valorização da sua línguas maternas também seria uma mais valia, nesta sintonia com os ventos do progresso material e espiritual que se pretende, vencendo-se neste domínio também as gravosas assimetrias regionais.
S-Sindika Dokolo – É o nome da Fundação que está a dar cartas no nosso mercado cultural. Promovendo as artes angolanas e a recuperação do nosso património museológico roubado por estrangeiros durante o conflito. Segundo apurámos conta com diversos projectos para apoio aos artistas, incluindo bolsas de criação artística. É uma boa janela de oportunidades que se abre, cabendo ao público –alvo tirar proveito dela, para bem da promoção e difusão das artes angolanas nas suas mais variadas vertentes.
T-Tradição – Nesta empreitada da diversificação a exploração da tradição não fica atrás. Até por que se fale da modernização e, consequentemente, a globalização. O casamento da tradicional com o moderno é salutar, respeitando o positivo de ambos. Motivos como a circuncização, a festa da kianda e outra correlatas, a caça miúda, os demais ritos tradicionais e jogos lúdicos, a musica popular e/ou tradicional, por exemplo, são produtos tradicionais da nossa cultura que podem ser servidos á audiência dos turistas e vendidos localmente e não só por via do aludidos suportes DVD ou CDs ou mesmo ao vivo; acrescidos dos ingressos financeiros para artistas, distribuidores, editoras e demais entidades envolvidas na produção cultural, gráfica, discográfica e fílmica, com os impostos atinentes nos cofres públicos, com devidos “input’s” para a saída da crise, ainda que a passos lentos, mas firmes. Sonhar nunca foi proibido!
Teatro – O teatro vem ganhando cada vez uma nova força nos últimos 20 anos, com o surgimento de cada vez mais grupos teatrais. Alguns grupos teatrais, infelizmente, tendem a desaparecer por falta dos necessários apoios para a sua sobrevivência. Os festivais promovidos pelo Director Provincial da Cultura desde 1998 constituiu um élan essencial para que os jovens e adolescentes se entregassem, de corpo e alma, cada vez mais ao teatro, na capital do país e arredores. O apoio dos empresários culturais – se os há – seri uma mais valia, sobretudo, para os grupos em vias de extinção, sendo certo que o MINCULT é mais uma vez chamado a estender a sua tábua de salvação. felizmente, dados disponíveis indicam que, pelo menos, mil jovens e adolescentes se dedicam aos teatro como o seu ganha pão em Luanda, fugindo das malhas da marginalidade e, quiçá, da delinquência. Por isso mesmo a responsabilidade social de manter essa ocupação artística e profissional entre este grupo vulnerável é premente.

U-Uíge – Província conhecida pela sua forte tradição na produção cafeícola, a província do bago vermelho também tem a sua tradição artística. Potenciar produção do café é o grande desafio das autoridades locais, bem como apoiar, consequentemente, os diversos sectores sociais, sem prejuízo da área cultural, onde se acham os seus criadores: escritores, músicos, pintores e dançarinos. Tal démarche física e espiritual seria uma boa forma de diversificar a economia regional, devolvendo-lhe o peso específico que já tinha outrora na arena nacional, sendo tal juízo de valor válido para as demais restantes províncias do país, sobretudo as encravadas, mais marcadas pelas assimetrias regionais.

V-Venda – A venda dos bens culturais carece de um mercado operacional e funcional à escala de todo o circuito comercial, livros e discos, mas também jornais e revistas. Em época de diversificação da economia importa dar cada vez mais peso e vez à venda dos produtos culturais. “Stritu sensu”, venda cada vez mais intensa de livros e discos, para que os homens de cultura possam viver do seu trabalho criativo, como já acontece com muitos músicos, sobretudo da nova vaga.
X – ... pretensamente, a excepção que confirma a regra da panorâmica sobre da produção, distribuição e consumo artísticos e cultural entre nós. A ver vamos…
Z-Zimbo – Zimbo foi uma das primeiras moedas do país, ainda no tempo do reino do Congo. Informar os mais novos sobre a nossa história antiga e recente, só serve para a formação da sua consciência histórica, bem como dar-lhes aportes para encararem o futuro com optimismo e confiança. O facto de uma TV local recuperar esta marca histórica, como seu cartão de visita, é um contributo na revalorização dessa informação de carácter histórico-cultural.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos