A elaboração da História de Angola e a heurística bantu

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A redação da História de Angola, inscrita entre os maiores programas culturais do país, assenta sobre um pilar fundamental que é a sensibilidade heurística nacional, fundamentalmente bantu.

Portanto, uma das bases que deverá ser plenamente explorada no empreendimento deste projeto é a partilha pela maioria das populações angolanas de valores saídos de uma sensibilidade antropológica de característica bantu.

Trazemos aqui à colação alguns conceitos atestados no sistema de concordâncias das línguas de África central, oriental e austral, e por conseguinte, igualmente, na dezena de grupos etnolinguísticos angolanos, princípios expressos através das tradições orais e que podem ser aplicados ao conjunto dos métodos da ciência histórica, tais como a crítica interna e externa das fontes, a evolução periodizada e a análise global.

RADICAIS PROTO ­ BANTU E PRINCÍPIOS DE TRADIÇÕES ORAIS

Neste capítulo, realçamos sucessivamente as palavras-chave relacionadas com os conceitos, as suas ligações com o bantu comum, as suas cristalizações no bloco das línguas bantu de Angola, o kikongo, o kimbundu, o umbundu, o ucokwé, o tchingangela, o olunyaneka, o tchikwanyama, o tchielelo e o tchindonga, suas codificações nas tradições orais e na interpretação do material, assim exposto.

Iniciamos, naturalmente, a nossa análise, tentando certificar, na cultura maioritária angolana, o conceito de passado.

O nosso exame, a este respeito, partiu do adjetivo velho, antigo e tempos antigos que Malcolm Guthrie traduz por old, old age e olden times.

As perpetuações posteriores serão nas referidas línguas: okulu, kikulu, mukulu, sekulu, uakulu, nkuluntu, ankulu.

A noção do passado com a sua pesada carga antropológica e sagrada se cristalizara nas tradições orais angolanas. Assim, os Bakongos acham que "não é tão grave perder um processo no tribunal, mas é nefasto perder o processo da história".

Plenamente conscientes da noção de passado, as populações bantu angolanas encorajaram o exercício da recordação, ação que é atestada no falar prédialetal.

Relembrar o passado é tão necessário que os Kimbundu aconselham a "não confecionar o prato que o velho nunca provou".

O conhecimento do passado é tão importante que as sociedades bantu angolanas de iniram um conjunto de procedimentos a fim de perpetuar os factos passados.

A instrução etno-histórica (o longa ki nkulu ou mambu ma mpa) era feita de modo, cumulativamente quotidiano, familiar, massiva e especializado. Uma das figuras da utilização deste ultimo método é o mulangi ou nlundi yi nkulu, porta-voz, por excelência, da linhagem ou da dinastia (mvila).

É o historiógrafo que reconstitui os grandes momentos do desenvolvimento da região.

Utiliza, para o efeito, métodos heurísticos ngangu , decorrentes da experiência lulongo, de regras práticas, que facilitam a conexão dos factos e a reconstrução histórica.

Nesta reedificação do transato, o memorialista aplica princípios de base da ciência histórica, que analisamos.

A CRÍTICA

Aproximamos esta prática ao sistema de concordâncias das línguas bantu, no campo semântico, que inclui noções de avaliação, de apreciação e de discernimento.
A "Comparative Bantu" aponta, a este respeito, o verbo to separate.

Um dos cantos umbundu reconhece a incontornabilidade da verdade histórica, quando se afirma aí "A verdade é uma; só há varias maneiras de a apresentar ".

E um ditado kimbundu é, a justo título, bem afirmativo: "O jindungo avermelha os olhos , mas não os perca”.

A PERIODIZAÇÃO

Esta noção é atestada no quadro dos radicais dos falares de Africa central, oriental e austral.

Encontra-se, aí, o substantivo time e a expressão olden times.

Sinónimo de vida, as populações bantu angolanas geram um faseamento mais ou menos exato do tempo. Há, pelo menos, uma dezena de categorizações do tempo histórico.

São, entre elas:
- o tempo de que não há memoria - tempo mais ou menos longo
- tempo presente, hoje em dia
- tempos em que cresce
- tempos passados
- temporada
Conscientes da especificidade de cada contexto histórico, os Ovimbundu o comparam "a uma folha de palmeira que os ventos balanceiam ".

A ANÁLISE GLOBAL

É quase uma certeza que os primeiros Bantu faziam uma leitura global do desenvolvimento da História; facto comprovado pela existência de uma quinzena de probabilidades do radical "all", no sentido de integral.

Os Bakongo retiverem, para sempre, a utilidade de ter um olhar completo das situações, quando constataram que "Né Mafuta esqueceu de pôr o sal na comida no dia do seu casamento ".

A EPISTEMOLOGIA RELATIVISTA
Tudo indica que os Proto-Bantu tinham consciência do facto de que a análise do desenvolvimento histórico era sempre relativa.

O indício desta visão pode ser entrevisto através do radical escolher (choose)

Assim, os Cokwé constataram que aqueles "que vão para um país onde se comem moscas, as trazem vivas" .

A EVIDÊNCIA

O sistema de concordâncias reconstruído das línguas da África central, oriental e austral, indica que os primeiros Bantu aplicavam as regras, manifestas, da heurística.

Esta hipótese é comprovada com a existência dos radicais, cujo campo semântico cobre este princípio. São become right ou righthand, justo, exato. Encorajados pela rapidez heurística, os Bakongo constataram que "qualquer que seja a vossa inteligência, é impossível mastigar a água ".

OUTROS PRINCÍPIOS

Analisamos, no nosso estudo, outros processos aplicáveis à ciência histórica, tais como o método comparativo, a releitura corretiva e o desenvolvimento positivo.

CONCLUSÃO

Cinco após o restabelecimento da paz em Angola, era inevitável examinar as possibilidades de redigir, finalmente, uma História Geral de Angola.

Esta fixação do passado do nosso país foi, invariavelmente, uma das principais metas do nacionalismo angolano, todas as tendências confundidas.

Prova disso são algumas sínteses de carácter global e dezenas de contribuições sobre períodos precisos propostas antes e após a independência.

A restituição desta história é, portanto, uma tarefa de cunho eminentemente nacional, quer dizer, consensual, conforme a heurística bantu e na dinâmica do modelo político que está a ser forjado no país.

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