A introdução das línguas maternas angolanas no sistema de ensino e a democratização da cultura

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(À memória do meu colega de banca de redação, Emílio Té)

Há mais de uma década que a UNESCO instituiu o Dia da Língua Materna, acautelando assim os interesses das crianças e adultos que não têm acesso ao sistema de educação formal, por via da língua familiar do seu meio social de origem - a família.

É um dado adquirido para quem tem preocupações sócios culturais: a língua materna é a língua primeira dos falantes de uma determinada comunidade étnica, sendo que a língua eventualmente apreendida a posterior pelo falante seja a língua segunda, embora casos há em que o mesmo desaprende a primeira e passe a ter maior competência linguística numa outra.

Nesta última língua o falante faz apelo para se fazer entender e ser reconhecido como indivíduo pertencente a determinado agrupamento humano, sendo um importante fator de identidade social e cultural. É, involuntariamente, regra geral, nesta língua que ele pensa e racionaliza o mundo, embora, nalguns casos, com resquícios da anterior.

O drama sociocultural e psicológico é saliente: os empréstimos linguísticos das línguas africanas impregnadas na variante da língua portuguesa em Angola, em virtude do esquema de mobilidade social dos membros dos distintos grupos étnico-linguísticos, sociais e rácico-culturais.

E mesmo os "ruídos" que se ouvem, por exemplo, em muitos dos falantes do português em Luanda, o exemplo é sintomático, conferindo à variante angolana do português (angolano) outros ingredientes e sabores, em determinados contextos, longe do "meio socialmente elaborado" (no dizer de W. Labor), ou seja, com "status" social privilegiado, que mais se aproxima da língua original, ou seja do português vernáculo cultivado pelo poeta dos Lusíadas.

Mais dramático ainda é o caso das crianças que abandonaram compulsivamente ou não as suas aldeias e chegadas às cidades, sobretudo no litoral, e mais particularmente em Luanda, foram forçadas a mudar de língua no seu processo de socialização, onde a língua mais falada é o português, tendo sido "assimiladas" à língua europeia e esquecido a sua primeira língua materna. Nesta circunstância, a língua materna passa a ser o português, em virtude da aculturação a que foram sujeitos, como "os olhos linda da filha do soba/ que se perderam em Luanda", como cantou o poeta.

Nestes termos, é um lugar comum dizer-se que o indivíduo só pensa numa língua. Isso é tão interessante que a língua materna é a utensilagem através da qual nós exprimimos a nossa cosmovisão; como concebemos o mundo, rimos e brincamos às escondidas o jogo da cabra cega da vida "que estamos com ela", em que muito vigarista se faz passar por gente grande "batendo nganga"; e é tão dramático ainda, porquanto é na língua maternal em que nós amamos, sofremos e até choramos a morte dos nossos ente queridos.    


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