A mão aberta de espanto. A mão não mente

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Porque todos dos dias, com frio ou calor, a mão dava-lhe essa alegria, todos os dias o amigo do meu querido amigo nadava, nadava no seu mar. Neste dia, ao amanhecer ele «escrevileu» para elogiar a mão:

Tá encerrado/ porque ­ cada um de nós ao amanhecer/ é sempre / O RESTO DO NADA /que fez / da mão se merecer/AO AMANHECER/ ESTÁ ENCERRADO/ é a mão/ será sempre a mão / a determinar o amanhecer/ Está encerrado.

Referindo-se à mão, Henri Focillon justamente questionou, e aqui o meu querido amigo, nas suas elucubradoras «escrevilências», oportunamente cita-o: "...que qualidade é esta que um órgão mudo e cego possa comunicar connosco com tanta força persuasiva? É porque se trata de um dos mais originais e diferenciados, como são as formas superiores da vida.

E continuou citando: "...o punho tem como estrutura inúmeros ossículos. Cinco ramos ósseos, com o seu sistema de nervos e ligamentos estendem-se sob a pele... e com as suas capacidades específicas e o seu espírito próprio. ­ A face humana é sobretudo um composto de órgãos recetores, enquanto que a mão é ação, agarra, cria e, por vezes mesmo, diz-se que pensa!...”

Porque o nosso Suku, favorito dos deuses, nas suas metamorfoses ou no seu estado físico estável, tinha as mesmas armas que todos nós para «experimentar» o Universo ­ essa expressão não é minha, dizia o amigo do meu querido amigo ­ era incontestavelmente de Henri Focillon. Continuando a citar o mesmo: "para sentirem, até nessas correntes translúcidas, que não têm peso e que a visão não capta. Na verdade, eram coisas dos Sukus e das Mãos, são as palpitações quentes da vida".

O tempo corria, eram naquele preciso momento duas horas da manhã, grandiosamente concentrado nas suas leituras meditava, sentado na sua mesa de trabalho, olhando para a sua mão direita, balbuciava o meu amigo, ainda com (H.F.): "... fruto de uma experiência que nem a visão nem o espírito podem sozinhos levar a cabo... tudo aquilo que tem um peso insensível ou a palpitação quente da vida, tudo o que tem casca, pelagem ou revestimento, até mesmo a pedra, seja ela talhada em lascas, arredondada pelos cursos de água ou com o grão intacto, tudo isso pode ser colhido na mão.

E o querido amigo do meu amigo sabia que a posse do mundo, inquestionavelmente exigia sempre o olfato táctil. A visão no seu nobre papel deslizava nesta altura pela superfície do Universo. Mas a ação da Mão, como o meu querido amigo sabia do seu labor diário, era a que comandava a festa.

"Os grandes artistas prestaram uma atenção extrema ao estudo das mãos . E sentiram nelas a forte virtude, eles, mais do que qualquer outro ser humano, delas (as mãos) dependem.

Senão vejamos, o grande monumento poético e histórico, a obra literária Sagrada Esperança, do poeta Agostinho Neto; o espólio Viteixeano (apelando silenciosamente para a sua urgente recuperação patrimonial, museológica e patriótica), os acordes guitarrísticos de Carlitos Vieira Dias, as belíssimas harmonias de Mário Rui, tendo em conta a mão aberta de espanto; e é só flagrantemente, por agora, para falarmos destes casos do nosso glorioso burgo, porque muito há para dizer e referenciar, etc. e etc.

Porque nisto de narrador ou de redator onde é que está o meu amigo? Quem é o amigo do meu grande amigo?! ­ Às vezes se confundem ! Tu me matastes ou eu te matei?

Nas estórias das crónicas criadas pelo meu amigo as inversões e deslocamentos das personagens como artifício da perceção e da auto perceção são frequentes e às vezes evidentes de camuflagens literárias ­ Porque a confusão de identidade é explicita e enfática. E daí a grande interrogação: quando é que tu me matastes? ou quando é que eu te matei?

Na realidade, na vida do meu amigo e do seu grande amigo, a realidade só eu e somente eu e ele é o reflexo de mim (enquanto narrador) e das minhas falas e manifestações físicas. A «nadificação» é evidente.

O meu amigo é extremamente recatado. Ele não gosta de aparecer nem de se apresentar publicamente. Ele se sente sempre muito mal, quando das apresentações social ou pública .

Para ele, as lacunas na escrita e na fala são inevitáveis; e, segundo Jacques Derrida, "...Aquilo que ouvimos e dizemos só será de facto verdade quando o vermos como algo incompleto e aceitarmos desconstruí-lo ­ Aqui entre nós: no caso do meu amigo ou do seu querido amigo, não há essa ideia de querer no seus prazeres de fazer ser a priori, popular ou erudito nas expressões.

A aparente desconstrução dos seus prazeres de fazer não significa destruição, mas sim desmontagem, decomposição dos elementos da escrita, propostas para novos olhares. ­ Os cliques; as pinceladas dos dedos na tela e no teclado captando o imponderável.

Porque a ação da Mão define sempre o côncavo do espaço e o convexo das coisas que o ocupam. Criando desta forma um mundo que age e reage. No entender do meu amigo, a vida das formas no espírito não é, pois, um aspeto formal da vida do espírito é o resultado dos seus prazeres de fazer. Porque nele, a vida, ou seja, os resultados da vida dele nestas construções são paradigmáticos, colossais e até polémicos.

Na verdade, este não sou eu! Aliás, este também sou eu. As minhas Mãos, que escreveram há vinte anos atrás, assim: A Tinta é desta Lata / ­ /O tempo é tempo quando/ se come e se canta. / O tempo é tempo quando / você me dá a mão / sem ver primeiro/ a tinta da minha pele /o vinco da minha calça /O TEMPO ASSIM É PESSOA / merecidamente/ a tinta é desta Lata/ O tempo é tempo quando você também bebe leite/ quando precisa/ quando podes viajar nos mares/ das outras portas / como os outros /O tempo é tempo/ quando você também pôde ser/ ter como ELE / O tempo é tempo / quando o trabalho é alegria / O TEMPO ASSIM É PESSOA.

Enquanto o meu amigo escrevia e lia, uma planta olhava para as nuvens altas da terra, como um poeta louco ­ soltando grunhidos de salvação. ASSIM mesmo: Atchi PUM!... É a Mão.

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