A nova cultura do corpo

Envie este artigo por email

As várias civilizações que habitaram a terra, em todos os lugares e tempos, se distinguiram pelo uso que fizeram do corpo. Desde a polis grega, passando pela idade média até a actualidade que os olhares sobre o corpo se têm transformado, levantando diversos celeumas entre os estudiosos.

O que é o corpo? O que é mais correcto afirmar: "eu tenho um corpo" ou "eu sou um corpo"? Antropólogos, historiadores e sociólogos têm hoje desenvolvido diversos expedientes metodológicos e teóricos para explicar a emergente cultura do corpo. A corporeidade hodierna em nada tem a ver com a idealizada na Grécia antiga. Há uma clara cisão entre os elementos biomotores e os estéticos.

Este facto está patente nas representações artísticas que, no século II a.c, onde notavelmente trabalhavam os contrastes entre o nu e o vestido, o feminino e o masculino ou, ainda, a vida e a morte, o faziam com dramaticidade, conferindo ao corpo um estatuto que se situava além do de produto. Era antes, um produtor de sentidos.

Na Idade Média a representação artística do corpo é destituída de qualquer tipo de nudez e a religião combatia toda a manifestação que indiciasse o culto do corpo.

Hoje assiste-se à desterritorialização do corpo e da sua beleza, por meio de campanhas de objectivação de um novo ideal estético que, no ano passado, só no Japão, teve uma faturação de cerca 56 biliões de dólares, metade do PIB de Angola.

Do corpo produtor (de que Arendt nos fala emhomos labor) para o corpo industrializado que se encontra agora no centro de um marketing, cujo discurso mais se parece ao do vendedor da banha de cobra e os resultados das suas promessas mais dependentes do efeito placebo.

Expressões como fitness, wellness, artbody ou personal trainer enchem os vocabulários dos paladinos da nova cultura do corpo. Qualquer um pode ter os olhos de um asiático, as maçãs de um austríaco ou ancas de uma africana, sem ter, necessariamente, os genes dos povos nascidos nestes lugares.

Bastando o recurso às modernas cirurgias plásticas. O sonho da eterna juventude está agora disponível através das milagrosas "vacinas anti-idade" que podem ser complementadas pela medicina não convencional que apresenta a cristalopatia, acupunctura, curas baseadas em chacras, cremes naturais de alta concentração proteica e formulados a base de antioxidantes, massagens térmicas, entre outras soluções exóticas que fazem um cardápio do capaz de seduzir homens e mulheres, tornando-os reféns de um mercado dinâmico e em crescimento.

Como era de se esperar, toda esta parafernália de eventos mercadológicos acaba por ter suas implicações sociais e culturais, na medida em que interferem com valores estéticos e reorientam comportamentos.

Nas suas representações sociais e artísticas, o corpo surge como um objeto destituído de qualquer pudor. O sexual ofusca a sensualidade e a nudez parece consumir o estético que, regendo-se por outros cânones, cumpre uma agenda pornográfica que o disseca do espírito, reduzindo-o a mera fonte de prazer libidinoso.

Ao contrário do que se propala, acreditamos que os homens continuam a amar os seus corpos. O que terá mudado, no nosso entender, é o sentido desse amor. Cada vez mais indivíduos consideram-se "possuidores" de um corpo ou seja, o corpo é uma propriedade, um objeto de valor transacionável, complemente desligado do seu ser, do seu espírito.

Este entendimento não só contraria gravemente a máxima latina mens sana in corpore sano (uma mente sã num corpo são), como conduz à crescente deterioração do estatuto do homem enquanto sujeito dotado de humanidade e responsável por humanizar.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos