A significação de 12 nascentes de Mbanz’a Kongo

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Vamos procurar responder algumas perguntas iniciais: 1) porque doze? 2) Porque fontes? 3) Porque fontes fluviais?

O número 12 ­ kûmi ye zôle ­ indica dois aspetos:

1) congregação da linhagem na formação do país/nsi/mbuku no sentido de Estado autónomo. Para justificá-lo, podemos partir da organização territorial (Batsîkama, 2011:39) e da lista dos heróis civilizadores (Batsîkama, 2010:344);

2). A expressão kumi ye zôle traduz o imaginário cosmogónico de um conjunto de famílias; kumi (dez) deriva de kûma, chegar ao destino e perseguirse (kûmana). Implica a ideia do limite, margem (kûmu), e zôle deriva de yôla (conceber, engravidar, alcançar).
 O termo suporta a ideia de amor (zôla: amar) de dois géneros.

A própria expressão kûmi ye zôle implicaria o objetivo dessa instalação: institucionalização da amizade/irmandade de famílias/tribos diferentes que anteriormente perseguiam-se. Como podemos observar, a primeira acepção engrena-se na segunda.

O número 12 indica a institucionalização de amizade de diferentes grupos sociais, e não nos parece exclusivo aos habitantes de Mbânz'a Kôngo. Jan Vansina comenta algo muito parecido nos Kuba (Vansina, 1956:901-903).

Para este, a mesma institucionalização é presente nas populações de Mbângala, a capital passava ser a origem de todas as populações por causa de lukôbi lwa Bakûlu ­ onde se encontram as representações minerais, animais e humanas dos ancestrais, parceiros dessa institucionalização da amizade.

Com isso, podemos dizer que Mbânz'a Kôngo seria o aglomerado de doze "ancestrais" que estariam enterrados no Ngundu, cemitério dos ancestrais (actual zona onde esta Kulumbimbi) onde se realizava o culto dos ancestrais.

Contudo, o que significaria nascente de água? É importante que consideremos a região onde se encontravam os Kôngo, por um lado, e, por outro, onde eles terão originado. As regiões tropicais húmidas ocupadas pelos Kôngo abundam de chuvas e estas proporcionam uma quantidade suficiente de águas em relação às demandas e populações agricultoras.

Talvez tenha sido diferente nos tempos idos, embora os relatos de viagem dos séculos XV-XIX não contrariarem. Convém considerar fonte/nascente como símbolo da "terra ocupada" por uma família (ñkêlo/nto. Ñkêlo/nto) que deriva do transitivo kêla (guardar, vigiar, tomar conta de, filtrar), traduz a ideia principal de que as famílias se identificam com as suas nascentes. Ainda nos dias de hoje não é permitido beber águas das fixi/ñkêlo (nascentes) que não nos pertencem nem tomar banho sem prévia autorização.

Como é notório, as fontes/nascentes simbolizam a origem/pertença de várias famílias. Talvez sem o querer dizer diretamente, Jan Vansina especifica o caso entre os Kuba da seguinte forma: "a aldeia não sobrevive sem nascente ..." (Vansina, 1956: 902).

Antigamente, os primeiros ocupantes duma terra implantavam a planta nsânda, tão-somente depois de identificar uma ou mais fontes/nascentes. Logo, quer a árvore, quer fixi/ñkêlo passavam a identificar específicas famílias entre muitas como proprietárias das terras ocupadas. E aqui a região de Mbânz'a Kôngo pertence a 12 "tribos" oriundas de vários pontos imemoriais, tal como o mostramos humildemente nas nossas publicações (Batsikama, 2010; 2011; 2012).

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