A Sindérese e a sua relação com a Lei Natural em Tomás de Aquino

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O Padre José Manuel Bragança defendeu no passado dia 30 de Abril a sua tese de doutoramento em filosofia pela Pontifícia Universidade Urbaniana, na cidade do Vaticano, perante um júri constituído por três professores catedráticos.

A Sindérese e a sua relação com a Lei Natural em Tomás de Aquino

O tema da pesquisa escolhido pelo prelado é “A Sindérese e sua relação com a Lei Natural em Tomás de Aquino”, que apresenta a sindérese como o hábito que contém os primeiros preceitos da lei natural ou primeiros princípios do agir, que comandam o impulso de se fazer e perseguir o bem e de se evitar o mal.

O acto foi assistido pelo embaixador de Angola junto da Santa Sé, Armindo do Espírito Santo, bem como por familiares, amigos, colegas e funcionários diplomáticos.

Natural de Luanda, José Manuel Bragança, foi ordenado sacerdote pelo cardeal dom Alexandre do Nascimento, na Sé Catedral de Luanda em Março de 1997. Foi professor no Instituto de Ciências Religiosas de Angola (ICRA) e trabalhou na paróquia de Nossa Senhora da Nazaré em Luanda e no Santuário de São José do Calumbo até Maio de 2003.

José Bragança, que é Mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Urbaniana desde 2006, aguarda a publicação em livro da sua tese, altura em passará a usar o título de doutor em filosofia. Publicamos a seguir o resumo da dissertação.

1. Introdução

O tema da nossa pesquisa é a sindérese e sua relação coma lei natural em Tomás de Aquino. Com efeito, Tomás aborda a questão da sindérese e da lei natural, a partir dos escritos juvenis, concentrando-a na consideração do livre arbítrio, e prosseguindo nas obras da maturidade coma consideração das virtudes, dos atos humanos e dos princípios que os orientam.

Ele apresenta a sindérese como o hábito que contém os primeiros preceitos da lei natural ou primeiros princípios do agir, que comandam de se fazer e perseguir o bem e de se evitar o mal.

Porém, a compreensão de tal hábito e respetivos preceitos, diante da consideração dum agir humano que se coloca para além do bem e do mal e, pelas várias interpretações que têm recebido, torna complexa a sua abordagem e suscita múltiplas interrogações.

Ora, uma primeira preocupação recai sobre as razões pelas quais se deve fazer e perseguir o bem e se evitar o mal. E daqui podem seguir-se outros questionamentos a respeito do hábito e dos preceitos, como aqueles sobre a potência racional na qual se constituem, sobre o ordenamento que exprimem, sobre a validade dos mesmos e o bem que apresentam.

E ainda, pelo facto de Tomás abordar o agir humano tanto no ordenamento da lei como no ordenamento da virtude, essa sua explicitação do agir do sujeito humano, pode ser interpretada de maneira variada.

2. Motivações e objectivos

As motivações para a escolha desse tema, reenviam não só à problemática que se quer afrontar, mas também ao pensamento do autor e à existência de uma diversidade de posições, por parte de alguns estudiosos que interpretam Tomás.

A escolha desse tema liga-se ao desejo de aprofundar o ensino de Tomás, de maneira especial sobre um aspeto particular, aquele da sindérese e sua relação com a lei natural, o qual reveste-se de várias implicações teóricas e práticas.

De facto, o período no qual Tomás viveu, foi marcado pelo desabrochar de várias correntes de pensamento e de fortes disputas intelectuais, que exigiam um esclarecimento de posições.

No enunciado do tema, embora se pressuponha a existência da sindérese e da sua relação com a lei natural, todavia, não se procura colocar a sindérese em relação com a lei natural em todos os seus domínios, mas sim, focalizando aquele ponto onde a sindérese atinge a lei natural, isto é, os seus primeiros preceitos, os quais nos colocam no campo do fundamento agir humano.

Para aprofundar a análise nos concentramos nos textos nos quais Tomás tratada sindérese. E tal procedimento não reduz a abordagem da sindérese nem altera o nosso objetivo, na medida em que, não impede que desde a sindérese se busque a sua ligação com a lei natural.

Assim, nos propusemos clarificar o ensino de Tomás sobre a sindérese e sua relação coma lei natural, identificando, as posições a ele reconduzidas, se são da responsabilidade dos intérpretes ou encontram no vasto conteúdo do seu ensino quaisquer elementos onde se fundamentam.

4. Propósito e método

Posto isso, devemos frisar que o trabalho realizado concentra-se na análise dos textos de Tomás sobre a sindérese.

E com esse estudo pretendemos demonstrar que o tema da sindérese e a abordagem da sua relação com a lei natural, revela que se trata, não só, de um tema de particular interesse da reflexão de Tomás desde as obras da juventude até às da maturidade, mais também, de um ponto fundamental do seu ensino sobre o agir humano.

Para isso, usamos na pesquisa o método histórico crítico com diferentes acentuações dos seus aspetos: para se indicar o percurso histórico do problema em torno da sindérese e do primeiro preceito da lei natural; para a análise dos textos de Tomás colocando-os no conjunto do seu ensino; e para fazer a distinção do pensamento de Tomás das interpretações contrárias.

5. Estrutura do trabalho

Dividimos o trabalho em três capítulos, nos quais ao final faz-se uma breve síntese conclusiva, e a conclusão geral no fim do trabalho.Capítulo I

Assim, no primeiro capítulo, fizemos um breve percurso histórico-literário sobre a sindérese e os primeiros preceitos da lei natural nos predecessores e contemporâneos de Tomás, com destaque às figuras de S. Boaventura e S. Alberto Magno.

E também apontamos, alguns traços principais do desenvolvimento posterior à Tomás até aos nossos dias.

Deste modo, são apresentados alguns elementos ligados à origem do tema da sindérese, à sua natureza, ao seu conteúdo e função, à sua consideração de hábito da razão prática e às tensões nascidas ultima mente na conceção dos preceitos da lei natural.

Quanto a problemática referente ao primeiro preceito da lei natural, nos ocupamos de interrogações que os intérpretes de Tomás suscitam, como as questões ligadas à natureza da formulação do mesmo, a sua colocação no discurso prático, a sua disposição para o universal ou particular, a sua colocação diante do intelecto e da vontade, sem deixar de mencionar o seu carácter e função na consideração moral do agir.

Capítulo II

No segundo capítulo, passamos em revista os textos de Tomás que se referem à sindérese no contexto da obra a que pertencem. Ora, vimos a sindérese e sua relação, não só, coma lei natural, mas também, com as outras instâncias afins, tal como foi abordado por Tomás. Assim, observamos os aspetos de distinção e de semelhança da sindérese com a razão, a consciência, o livre arbítrio e a lei natural.

Focalizamos, os motivos pelos quais, a potência racional, que é o intelecto prático, tem necessidade dum hábito, os da afirmação de que a sindérese nunca erra e da sua não extinção, e os da distinção do ato da sindérese do ato pessoal.

Notamos as razões aduzidas para uma certa prioridade do intelecto em relação à vontade na realização da ação e da diferença das mesmas quanto ao ato próprio de cada: o conhecer e o querer.

E assinalamos a presença da sindérese e da sua relação coma lei natural desde as primeiras obras até à maturidade do seu pensamento.

Capítulo III

Já no terceiro capítulo, para responder as inquietações levantadas nos dois primeiros capítulos, fizemos a distinção do pensamento de Tomás das interpretações contrárias para demonstrar os elementos da sua proposta.

Colocamos em evidência os principais problemas relacionados como tema, começando por afrontar a compreensão da natureza da sindérese, à luz da passagem feita por Tomás de “potência com hábito” à simplesmente “hábito”.

E ainda, observamos algumas afirmações de Tomás relacionadas com a temática e que recebem interpretações divergentes, como por exemplo: que o intelecto divide-se em especulativo e prático; que existe uma certa prioridade própria do intelecto especulativo; que o intelecto especulativo por extensão à obra se torna prático; e que o intelecto especulativo não causa movimento, enquanto que o prático sim.

Outros sim, abordamos uma série de questionamentos ligados ao modo da obrigatoriedade do preceito, à sua imutabilidade, à tensão entre preceito e liberdade.

E na compreensão da racionalidade prática, apresenta-se o questionamento da relação lei e virtude, tendo em conta que Tomás ao tratar da ação boa, relaciona-a tanto à lei quanto à virtude, indicando ambos como elementos determinantes do seu carácter moral.

Todavia, torna-se surpreendente, o facto de no final da tratação, fundamentalmente, apresentar o bem moral como bem virtuoso.

Nas posições dos antecessores e contemporâneos de Tomás, nota-se uma preocupação na determinação do intelecto prático entre o intelecto e a vontade, devido a sua relação ao verdadeiro e ao bem.

É nesse contexto de preocupação que Tomás procura explicar o hábito da sindérese, distinguindo-a do intelecto, da consciência e da lei natural.

Para Tomás a sindérese reside no intelecto e pode ligar-se na sua inerrância ao conhecimento afetivo, que pertence à vontade, impedindo-a de qualquer erro na apreensão do bem quanto aos princípios universais, porém não quanto aos particulares elegíveis. Para a garantia da justiça no agir racional, Tomás aponta para uma certa prioridade do intelecto em relação à vontade, e a presença da sindérese garante que o voluntário não seja afirmado irracionalmente, nem a razão contra a vontade.

A sindérese é considerada enquanto natureza e enquanto princípio de ação. Ora, se a sindérese considerada em si mesma, não pode ser extinta sem que se extinga a própria alma, o mesmo já não se pode dizer do seu ato.

O ato da sindérese que é a afirmação dos primeiros preceitos da lei natural e o ato pessoal no homem, fundam-se na mesma natureza racional, mas não se identificam, porque o ato da sindérese diz respeito à natureza segundo a espécie e o ato pessoal à natureza segundo o indivíduo.

A sindérese é constitutiva da natureza do conhecimento humano, nela dá-se uma apreensão imediata dos primeiros princípios práticos naturalmente conhecidos, e comporta quatro características: ser um conhecimento da verdade sem pesquisa; ser o princípio de todo o conhecimento sucessivo; estar presente naturalmente no homem; e estar de modo habitual.

Já, a razão prática enquanto potência, tem necessidade do hábito da sindérese, por três motivos fundamentais: primeiro, para o seu aperfeiçoamento, pois a presença da virtude melhora a disposição da potência. Em segundo lugar, para a sua operação, pois possibilita a sua passagem à ato, e finalmente para a sua condução ao fim, ao ótimo para a potência, que é a realização do seu ato.

Com isso permite-se afirmar que a ação indeterminada da razão prática não constitui um tipo de ação anterior à aquela moral, já que para Tomás, a indeterminação impossibilita qualquer ação por parte da razão prática, porque sem uma determinação do hábito a razão prática não pode agir.

Notamos que, as ações recebem a sua razão de bondade desde a sua submissão ao ordenamento do preceito da lei natural. Porém, as ações consideradas em si mesmas, não constituem um critério para julgar sobre a eficácia dos princípios práticos.

Contudo, os preceitos da lei natural ou princípios da razão prática orientam as ações humanas não de modo indiferente, mas segundo a verdade, a bondade e a justiça, ou seja, segundo o fim último do homem.

Ora, os primeiros princípios da sindérese e os primeiros preceitos da lei natural, tratam-se dos mesmos para ambas instâncias. Contudo, a origem do carácter do seu dever ou da obrigatoriedade que os acompanha, não se refere de igual modo para a sindérese e para a lei natural.

Com efeito, o dever e o conteúdo que o primeiro preceito da lei natural afirma, encontra-se já radicado na formulação e segue o ordenamento racional dado pela sindérese. De facto, embora a razão prática apreenda naturalmente as inclinações naturais como bens humanos básicos, a formulação dos primeiros princípios evidentes por si, não cabe a ela, mas sim ao hábito da sindérese.

É ainda, a luz da sindérese que se pode compreender a correspondência entre a ordem dos preceitos da lei natural coma ordem das inclinações naturais, na medida em que tais ordenamentos apoiam-se não nos preceitos nem nas inclinações, mas na razão.

E não é contrário ao ordenamento da razão a presença de um triplo ordenamento das inclinações naturais e de preceitos da lei natural.

Com isso, Tomás afirma não só que os objetos das inclinações, ou seja, a vida, a procriação, a vida social e o conhecimento de Deus, são bens fundamentais, mas sobretudo que a presença de uma ordem entre as inclinações torna claro a existência de uma ordem entre os bens fundamentais: «a ordem das inclinações naturais corresponde à ordem dos preceitos da lei natural».

E neste particular, Tomás aponta haver uma ligação ordenada entre, inclinação, princípio e preceito.

Nessa correspondência, sema presença da sindérese, não se pode conceber a moralidade expressa pela lei natural. Embora a moralidade apresenta uma referência ao bem colhido pela vontade na inclinação natural, a sua conceção é obra do intelecto, ou seja, enquanto é elaborado pelo intelecto e dele recebe a sua força.

O referimento moral da sindérese liga-se à estreita relação da sindérese comas potências que caracterizam o ato humano, o intelecto e a vontade, amoralidade é natural à sindérese.

Contudo, não só, a sindérese permite uma melhor compreensão da lei natural, mas também, essa ligação ordenada, que permite a correspondência da inclinação natural e do preceito natural, ajuda a compreender a sindérese enquanto hábito natural.

A apresentação da sindérese em relação coma lei natural, focalizada nos primeiros preceitos, garante a afirmação da inerrância da lei natural em universal, e pede que, se indique a sua relação coma consciência, que é a instância da razão onde se faz a aplicação dos mesmos preceitos no particular.4

Quanto a relação entre a sindérese e a consciência é aquela de hábito e ato, análoga à relação de causa e efeito. A consciência depende e recebe a sua força da sindérese . E quanto ao bem moral, este é conhecido, diretamente em universal e indiretamente em particular, no mesmo ato de conhecer do intelecto.

Em Tomás, a “objetividade” do preceito da lei natural e a “subjetividade” do hábito da sindérese ao revelarem os aspetos do “bem fundamental humano” e da “boa realização de tal bem fundamental” cooperam na compreensão do sujeito moral e da sua ação.7. Contribuições e perspetivas

Da leitura dos textos de Tomás, notamos um desenvolvimento do seu pensamento acerca da sindérese e da lei natural, que indica um interesse em aprofundar e esclarecer essa temática.

De facto, observa-se uma evolução na apresentação da sindérese e, consequentemente da relação da sindérese coma lei natural. Com efeito, nos primeiros escritos fala que existe uma relação da sindérese coma lei natural, ou seja, que os preceitos da lei natural estão inscritos na sindérese, mas a afirmação é, sobretudo, para distinguir as duas instâncias.

Na Suma Teológica, a relação é para fundamentar o agir do sujeito humano desde as faculdades operativas do indivíduo em ordem a sua natureza específica, de modo a poder produzir o ato bom e reto.

Nessa apresentação da sindérese como hábito que contém os preceitos da lei natural e da sua função junto da potência racional com vista a acção, decorrem estes elementos, que reclamam por uma reafirmação, para demostrar a especificidade do agir humano, a unidade entre agente-ação-fim, e que uma consideração da moral não pode prescindir dos elementos afrontados por Tomás, em torno da abordagem da sindérese e da sua relação com a lei natural, como risco de se deturpar a caracterização do agir humano.

E esta constatação encontra uma certa concordância nos resultados parciais da pesquisa a que chegou Abbà, indagando sobre a lei e a virtude em Tomás, ao indicar que a mudança de perspetiva da consideração do agir humano, tenha pedido «por soluções novas acerca do habitus e acerca da lei natural, e consequentemente acerca do modo de conceber o exemplar divino»

De facto, o homem pode não só começar a agir, mas sobretudo, decidir perseguir o seu bem com um certo tipo de acção porque tem uma inclinação, que se exprime num triplo modo de ordenamento correspondente à tripla dimensão da ordem da lei natural, cujos primeiros princípios o homem conhece naturalmente graças ao “hábito natural”, que é a sindérese.

Portanto, sema colocação da sindérese em relação à lei natural, esta última não se concebe corretamente e perde fundamento o dever moral expresso pelos seus preceitos, ou seja, em Tomás para se compreender o carácter moral da lei natural, esta não pode ser vista sema sua relação coma sindérese, que constituída como hábito da razão prática, formula os primeiros preceitos da lei natural, inclina para a acção e orienta o agir humano de acordo com os preceitos por si formulados.

Com efeito, na relação sindérese e lei natural, Tomás indica não só que é um bem que o homem naturalmente seja orientado para o bem através dos primeiros preceitos, mas também que constitui um bem que ele naturalmente seja capacitado pelo hábito da sindérese para agir sempre bem.

Assim, no homem a sua moralidade apoia-se na orientação para o bem e na capacidade para agir bem, que pertencem naturalmente ao homem, graças à sindérese.

O contributo do nosso estudo é a análise dos textos de Tomás sobre a sindérese e as implicações relacionadas com a lei natural, indicando os pontos fundamentais do seu ensino e os elementos principais que cooperaram para o desenvolvimento do seu pensamento sobre essa temática.

A particularidade da nossa pesquisa, encontramos não somente no resultado da mesma, mas sobretudo, no seu desenvolvimento e nos elementos postos em evidência, que nos permitiram chegar a afirmar aquilo que Tomás ensina a respeito da sindérese e da sua relação coma lei natural.

Estamos conscientes de não ter esgotado todas as perspectivas desse relacionamento, seja pela subtileza e abrangência do assunto, seja pela opção de afrontar o assunto desde os textos referidos à sindérese, seja pela relação com outras instâncias afins como a consciência e o livre arbítrio, e daí que pode-se considerar igualmente como um ponto de partida para estudos posteriores.

Contudo, esperamos que o ensinamento de Tomás aqui analisado, possa contribuir para uma melhor compreensão das questões relacionadas coma sindérese e coma lei natural, e especialmente, sobre a moralidade dos seus preceitos.

O conceito de sindérese: termo e problemática

“Sindérese” provém do grego, syntéresis ou syndéresis, embora não se explica com precisão essa variação de uma à outra; ou ainda de syneídesis (consciência). Com efeito, a palavra derivaria do verbo syn-teréo, que significa eu conservo, mantenho, preservo, ou desyn–diairéo que significa, eu distingo, divido.

É dessas duas etimologias que possivelmente surgem os dois modos de escrever a palavra, ainda que se reconheça uma certa obscuridade acerca da origem filológica do termo.

Contudo, não se pode negar alguma afinidade quanto ao conceito de “conservar” do estoicismo na perspetiva teológica medieval e também a presença do conceito de “natura” tanto dos estoicos como de Aristóteles (384-322 a.C.) na problemática da sindérese.

O vocábulo syntéresis ou syndéresis para alguns estudiosos parece ter provido de um modo posterior de escrita, enquanto que para outros foi devido a um erro de transcrição da palavra contida no mesmo texto do comentário de S. Jerónimo (347 - 420) sobre o conteúdo da visão de Ezequiel , no qual cita uma teoria filosófica que compara os quatro animais da visão com a distinção platónica das partes da alma.

S. Jerónimo em seguida aproxima esta sindérese à duas passagens de S. Paulo. A realidade chamada sindérese corresponderia igualmente àquela que S. Paulo entendeu pelo termo “espírito”, aquele espírito que clama no íntimo do homem com gemidos inefáveis (Romanos 8, 26), que conhece tudo aquilo que está em nós (1 Coríntios 2, 11) e que o apóstolo recomenda aos cristãos de salvaguardar (1 Tessalonicenses 5,23). Na sequência do texto, S. Jerónimo prende provavelmente o termo syntéresis como sinónimo do termo syneídesis e o traduz simplesmente por conscientia .

A passagem sugere assim por si mesmo que o termo syntéresis poderia não ser senão uma deformação de syneídesis, que significa conhecimento em comum, informação, estar cônscio, sentido íntimo, ‘consciência’.

Esse erro ou mudança de transcrição não disturba o pensamento de S. Jerónimo, pois para ele syntéresis é sinónimo de syneídesis. Mas o mesmo não acontece no pensamento dos medievais, os quais procuram distinguir os termos .

Contudo, o facto de que em S. Jerónimo os termos syneídesis e syntéresis ou syndéresis, apesar da mudança na sua transcrição, tenha na mesma significação, daí não se pode concluir que os dois últimos derivem necessariamente do primeiro termo.

Os historiadores e linguistas ainda discutem acerca dessa variação do termo, mas os filósofos não estão tão preocupados com o desenvolvimento histórico da palavra, quanto das interpretações escolásticas do sentido do termo.

A passagem desse comentário de S. Jerónimo citado por Pedro Lombardo (1100-1160) nas suas Sentenças , colocado no contexto do estudo do pecado e da graça é incontestavelmente o ponto de partida da aceção do termo nos pensadores da Idade Média .

Contudo, é oportuno salientar que Pedro Lombardo nessa citação não usa o termo syndérese, mas sim superior scintilla rationi .

Residindo na alma humana, a sindérese abre-nos também ao estudo da psicologia humana na sua perspectiva clássica. Para alguns estudiosos ela constitui igualmente o ponto de partida para a compreensão da Psiché humana.

Tendo nascido num contexto de tradição cristã e o termo estar presente em alguns tratados de moral, o seu uso não se restringe à essa tradição, pois que a sindérese diz respeito à pessoa e à natureza humana colocando «o problema do fundamento moral no entrelaçamento entre natureza, desejo, fim, bem».

A “sindérese” foi muito usada na doutrina moral pelos escolásticos, os quais indicavam-na também por scintilla conscientiae, naturale iudicatorium, ratio naturalis, lex intellectus nostri, intellectus primorum principiorum operabilium, scintilla animae, e destes variados apelativos, surgem as tensões na precisão da natureza da sindérese, se se trata de uma “potência”, uma “potência com hábito” ou simplesmente um “hábito”.


1 Cfr.TOMASDEAQUINO,Demalo, q. 16, a. 6 ads. c. 6.
2 Cfr. ID., STh., I-II, q. 55, a. 2,Resp.
3 ID., In Sent., I, d. 47, q. 1, a. 4,Resp.
4 Cfr.M.MURPHY,Natural LawandPractical Rationality, cit.,195
5 TOMASDEAQUINO, STh., I-II, q. 94, a. 2.
6 Cfr. ID., In Sent., II, d. 24, q. 2, a. 4, ad 6 e Resp.
7 G.ABBA, Lex et virtus..., cit., 268.
8 Albertuni indicaque os termos synteresis e synderesis seja mu merro de escrita da palavra syneidesis, ou seja, consciência. Ainda que apresenta a ideia de uma possível origem estoica do termo, resalta os vários sentidos que ligam a sindérese à consciencia, comparando a sindérese a consciência moral, ao sentimento de remorso, a consciência psicologica, a consciencia consequente, a consciência antecedente. Contudo, sublinha que o problema principal do conceito nao assenta na origem da palavra, se nasce de escrita errada ou do uso estoico, mas da sua relacao com a consciência, a lei natural e a razão.
(Cfr. C.A.ALBERTUNI,Oconceito de sinderese..., cit., 13-15).
9 Cfr. I. SCIUTO, ?Sinderesi,desiderionaturale... ?, cit.,128;M.PANGALLO, LeggediDio, Sinderesi e Coscienzanelle “Quaestiones”di S.Alberto Magno, Libreria Editrice Vaticana, Citta del Vaticano 1997, 25.
10 Cfr. J.A.GARCIA-JUNCEDA, ?La sinderesis en el pensamiento…?, cit., 433.
11 Cfr. C.A. ALBERTUNI, O conceito de sinderese..., cit., 219-220.
12 Nega-se que a mudança seja devido a um erro de transcricão, mas por um abandono da forma antiga da palavra, como indica Dalia Stanciene.? O estudioso frances Christian Trottmanna afirma que a ortogracia de synderesis como syneidesis encontrada nos mais antigos manuscritos não e um erro dos escribas mas o testemunho de alguma inicial tradicão de escrever a palavra, que foi abandonada mais tarde como surgimento da escola de empréstimo dos comentários, em 842, Rabao Mauro, um escriba, utiliza synteresis? (Cfr. D.M. STANCIENE, ?Synderesis in Moral Actions?, in PONTIFICIAACADEMIA SANCTI THOMAE AQUINATIS, Atti del Congresso Internazionale su l’umanesimo Cristiano nel III millennio: La prospettiva di Tommaso D’Aquino 21-25 Settembre 2003, vol. II, Ponticicia Academia Sancti Thomae Aquinatis, Citta del Vaticano2005, 856).
13 Afirma-se que houve um erro de transcricão nesse escrito de S. Jeronimo e essa e uma opinão comum. Em vez de syneidesis (consciência) do texto original na transcricão colocou-se synterese ou synderese.

A prova foi tentada por Fr. Nitzchuma primeira vez e retomada depois por R. Leiber (1912).Três manuscritos do comentário de S. Jeronimo portam efetivamente syneidesis ao lugar de synteresis. Na mesma senda coloca-se J. De Blic, que em 1949 no seu artigo ?synderese ou conscience ?? confirma a tese, tendo examinado vinte e dois manuscritos. ?O erro seria portanto dos copistas e como tal chegou a Rabão Mauro no IX século?  (Cfr. M. PANGALLO, Legge di Dio, Sinderesi..., cit., 24-25); o parecer do Padre J. De Blic sobre o assunto é mencionado também por Borgonovo, segundo o qual ?o erro de um qualquer copista que, transformando o primitivo syneidesis (consciência), num não melhor precisado synteresis, viria a fornecer, mau grado seu e sem saber, um precioso termo para um conceito que o aguardava e a volta do qual surgiria um serrado debate.? (Cfr. G. BORGONOVO, Sinderesi e coscienza..., cit., 49).
14 Veja-se em Ezequiel, 1, 5-8.
15 Cfr. S. JERONIMO, Comentário a Ezequiel, L. 1, [10-13], in Obras Completas (Edicion Bilingue promovida por la Orden de San Jeronimo – tradução de Hipolito - B. RIESCO ALVAREZ) vol. V a, Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid 2005, 17-22.
16 ?O termo sinderesis e uma inovação em relação ao pensamento aristotélico e foi introduzido na teologia e filosofia medievais de forma problemática através de um texto, a Glossa de Jeronimo a Ezequiel, em que consta o termo synteresine em seguida uma referencia ao mesmo através da expressão scintilla conscientiae. Dai, o conceito por ele designado, ter sido elaborado numa tensão permanente como conceito de consciência, uma vez que havia duvida sobre a origem do termo sinderese, que talvez fosse uma transcrição errada do vocábulo grego syneidesis, que ja circulava entre os estudiosos com o significado de consciência. A respeito disso, na evolução do debate medieval, o conceito de sinderese ganhou autonomia e importância na teoria da ação moral? (C. A. ALBERTUNI, O conceito de sinderese..., cit., 11).
17 ?A distinção entre sinderese e consciência tornou-se usual nos pensadores medievais a partir do século XII por causa de um texto do Comentário sobre Ezequiel de S. Jeronimo, no qual aparece o termo “synderesis” ou “synteresis”. Em que modo S. Jeronimo tenha usado a palavra “sinderese” foi um tema amplamente debatido na primeira metade do Novecento. Provavelmente o termo ? ς esta por ? η ς por um erro de transcrição […], mas o significado da palavra [synderesis] não se diferenciaria daquele de consciencia, ao menos no pensamento de S. Jeronimo ? (Cfr.M.PANGALLO, Legge di Dio, Sinderesi..., cit., 21).
18 Cfr. I. SCIUTO, ?Sinderesi, desiderionaturale...?, cit., 128.
19 Cfr.D. M. STANCIENE, ?Synderesis in Moral Actions?, cit., 857.
20 Veja-se PEDRO LOMBARDO, Sent. II, d. 39, in ID., Sententiae in IV Libri Distinctae (ed. PP COLLEGII S.BONAVENTURAE, Specilegium Bonaventurianum, IV), Ad Claras Aquas 1971, 556, nn. 5-9.
21 Cfr. C.A.ALBERTUNI,Oconceito de sinderese..., cit., 16.
22 Cfr.PEDROLOMBARDO, Sent. II, d. 39, cit., 556,nn.5-9. ?Diz-se simplesmente que o homem quer o bem, porque está comprometido na vontade boa e recta; certamente a centelha superior da razão que tambem, como afirma S. Jeronimo, não pode extinguir-se; quer sempre o bem e odeia o mal?.
23 Cfr. J. F. SELLESDAUDER, ?La Sinderesis o razón natural...?, cit., 321-322.
24 Cfr. I. SCIUTO, ?Sinderesi, desiderio naturale... ?, cit., 126.

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