AA Cultura Africana nos meandros da modernidade: Que futuros?

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A cultura modernista é um desafio ao homem africano.

A Cultura Africana nos meandros da modernidade: Que futuros?
Grupo de dança Fotografia: Jornal Cultura

Introdução

Com a modernidade, o mundo tradicional africano está muito abalado, apesar de algumas resistências. Contudo, a África já é um mundo moderno. Os africanos ganharam uma nova forma de vida fruto das mutações culturais que se registam no âmbito da modernização, que é também um elemento da globalização.
Desconsiderar o fenómeno da modernidade no actual contexto africano leva à realização de um trabalho descontextualizado, que não permitirá captar a realidade total do mundo africano. O nosso escopo volta-se, na presente reflexão, para a cultura africana, procurando compreender como pode ela, nos meandros da modernidade, gizar o seu destino, portanto o seu próprio futuro.
Para uma exaustiva desenvoltura do tema iremos recorrer aos subsídios quer da História, antropologia, sociologia, antropologia filosófica e outras ciências afins, dada a interdependência epistemológica que há entre essas disciplinas.
Sob o ângulo de uma acurada análise que se possa fazer dos termos que o título desta breve reflexão ostenta, saltar-se-á à vista um binómio que forma um todo coadunável: cultura e modernidade, associando-se àquele primeiro elemento o adjectivo biforme que com ele concorda em género e número. Não iremos proceder, porém, a uma incursão histórica dos conceitos já citados, prevenindo-nos da vã prolixidade.
Por cultura entende-se o conjunto de tudo aquilo que a humanidade recebeu da natureza como aptidões, mas também produziu pela sua própria actividade criadora bem como todas as organizações sociais e costumes, todas as formas de conduta e de desenvolvimento da vida, desde as práticas técnicas até à linguagem, estilo de arte e formas de pensar .
Pode-se, à partida, distinguir três acepções do conceito cultura:
Acepção axiológica: A cultura opõe-se ao bárbaro. O que, de um ponto de vista superior, pode parecer bárbaro, visto de um ponto de vista inferior, pode já ser cultura. Estes conceitos, portanto, são apenas relativos.
Acepção antropológica: diferentemente do animal, o modo como o homem se alimenta, vive em comunidade, reza, ama, se articula ao mundo, baseia-se na sua própria descoberta e actividade e, portanto, como criação humana, é cultura.
Acepção histórico-etnológica: explica que o homem é dotado de poder criador de cultura e que a cultura não é uma prescrição da natureza embora esta tenha uma influência sobre aquela.
Como se pode compreender, a acepção antropológica de cultura constitui, indubitavelmente, o fundamento da acepção histórico-etnológica, embora permaneça a ideia de que o que se capta é apenas uma cultura variada e historicamente específica .
De acordo com A. Giddens, modernidade pode ser entendida como aproximadamente equivalente ao mundo “industrializado” desde que se reconheça que o industrialismo não é sua única dimensão institucional. Esse autor emprega ainda o termo modernidade para referir-se às instituições e modos de comportamento estabelecidos pela primeira vez na Europa depois do feudalismo, mas que só no século XX se tornaram mundiais no seu impacto . Modernidade implica o controlo regular das relações sociais dentro de distâncias espaciais e temporais indeterminadas.
O mundo da “alta modernidade” estende-se além dos domínios das actividades individuais e dos compromissos pessoais. Ele está repleto de riscos e perigos, para os quais o termo “crise” – não como mera interrupção, mas como um estado de coisas mais ou menos permanentes – é particularmente adequado . As instituições modernas diferem de todas as anteriores de ordem social quanto ao seu dinamismo, ao grau em que interferem com hábitos e costumes tradicionais, e a seu impacto global .
Pode-se apontar aqui, em tom alto, algumas, entre as principais características da modernidade sem, no entanto, fazer uma incursão mais genérica das mesmas: O relativismo, a globalização, o consumismo, a comunicação e a indústria da cultura, desencanto social em relação à religião, à política, o culto à ciência, à ideia de progresso. As ideias tradicionais deixaram de ser referências válidas e tendem a desmistificação de um todo. O que importa é o imediato, o aqui e o agora presentes. O individualismo substituiu os projectos colectivos, onde se aprecia o culto ao hedonismo . Enfim, todos esses factores são essenciais se quisermos entender a actual civilização na qual estamos imbuídos.
Embora antropólogos, etnólogos e historiadores divirjam muito na determinação das áreas culturais da África, o certo é que existem no continente áreas culturais, isto é, espaço abrangido por culturas semelhantes. Essa ideia é veementemente defendida pelo historiador Cheik Anta Diop, o qual sustenta que a cultura africana baseia-se numa unidade cultural da realidade negro-egípcia que se espalhou por toda a África negra . Para esse historiador senegalês, as diversas regiões ou ciclos culturais de África não passam de aspectos diferentes de uma só e única cultura. Por esse motivo mesmo, sustenta o historiador, os africanos têm de assumir o seu passado e a sua cultura como unidade conjunta, resultante de todas as manifestações culturais regionais .
A partir do enfoque histórico dado por Cheik Anta Diop, já se pode forjar o conceito de cultura africana, o qual não se reduz apenas às experiências particulares das regiões africanas, mas sim abarca a manifestação original e global destas culturas regionais. Pelo que, a cultura africana deve ser entendida como manifestação espiritual e global da Comunidade Negra em todos os aspectos: estatais, artísticos, linguísticos, económicos, filosóficos, etc., acumulados pelos Negros Africanos através de todos os tempos, desde as primeiras balbuciações no Egipto proto-histórico .

Sociedade Tradicional
Africana e Modernidade
Há já muito que se deu a abolição da sociedade tradicional africana. A história no-lo atesta vivamente fazendo menção à época dos descobrimentos e expansionismo europeu datada do século XV. Embora os contactos entre África e Europa datem desde o século XV, é sobretudo, a partir dos séculos XVII e XVIII que se vai operar uma transformação mais radical da sociedade africana devido às inovações trazidas pela Revolução Industrial iniciada na Grã-Bretanha, marcando assim, a passagem das sociedades tradicionais africanas às sociedades modernas. Essas inovações facilitaram a colonização europeia da época, pois, a viragem brusca nos usos e costumes, deixou os africanos desorientados.
A modernidade, expansão da cultura ocidental nas sociedades não ocidentais, tocando os aspectos como a tecnologia, a economia, a política, os mass media, a religião, a urbanização, a industrialização e a cultura, é já um fenómeno irrefutável . A irrefutabilidade desse fenómeno, em África, é também uma clara verdade. A questão, porém, que levantamos é: Como a África, em sede de vertiginosas mudanças impostas pela modernidade, pode desenhar o seu próprio futuro?
Em nosso entender, o posicionamento do homem africano não deve consistir mais em refutar a mudança, mas sim definir o que deve ser mudado, já que nem todas as formas de mudanças geram benefícios. Entrementes, a definição desse ideal requer dos africanos uma “redescoberta de si próprios e da África” para uma clara tomada de consciência da sua situação existencial do presente e projectar um futuro melhor para todos os africanos.
A falta de um conhecimento profundo e verdadeiro de si e da África leva a que os africanos enfrentem retumbantes aporias e não saibam tomar decisões certas para solucionar os diversos problemas do quotidiano e projectar o continente no caminho do desenvolvimento futuro.
O conhecimento profundo e verdadeiro da África e do homem africano de que falamos consiste em ir ao encontro da identidade africana propriamente dita. Essa identidade, genuína, embora já não exista, e, talvez, jamais seja alcançada, nunca foi conhecida essencialmente. Se é conhecida, o é superficialmente. Esse argumento, encontra respaldo no pensamento de Samuel Huntington, na sua fabulosa obra “O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, quando afirma: A identidade cultural define o lugar, os amigos e os inimigos de um Estado na actual política mundial . A identidade cultural africana deve ser repensada e rebuscada para, a partir dela, traçar-se o rumo para o futuro do continente.
A modernidade e sua mentalidade são pesado desafio ao homem africano e à sua cultura. Ante esse fenómeno mascarado, o homem africano não deve cruzar as mãos e recusar as mudanças que ocorrem na sua sociedade, sobretudo as que afectam os seus valores mais profundos como a língua, a própria pessoa, as tradições, a religião, etc. A África deve procurar adaptar-se aos novos ventos da modernidade mesmo que soprem contra ela, no sentido de criar condições favoráveis ao seu próprio desenvolvimento quer no presente quer no futuro.
A modernidade, se bem encarada e usufruída, é um caminho aberto para o desenvolvimento tanto presente como futuro do continente africano. Ela traz em si as potencialidades desse desenvolvimento e as condições para que ele se torne uma realidade incontornável no seio dos povos e países. Nessa perspectiva, a modernidade é conditio sine qua non para o progresso da humanidade, sem, no entanto, excluir todos os desaires que é capaz de gerar à semelhança da Revolução Industrial, parafraseando Basil Davidson . Tudo depende da opção de cada um, a opção depende dos africanos. A escolha dos africanos definirá o presente e o futuro da África. Aliás, a modernidade, enquanto cultura de pensamento, é uma época de exaltação da liberdade humana.
A ciência e a técnica, duas dimensões humanas endeusadas pela modernidade, são-no, na medida em que se constituíram numa espécie de trampolim para o alcance do progresso e desenvolvimento. A África também é chamada, nesta época da alta modernidade, como assevera Giddens, a olhar com particular atenção para esses dois fenómenos e a fazer um investimento cada vez mais acentuado para sua conquista, sem olvidar da essência da sua cultura. É que a ciência e a técnica, para além de serem em si produto de uma cultura, são, em si, uma forma de cultura. E, é dessa forma de cultura que a África também se deve ocupar a produzir para se auto-afirmar nesse mundo cada vez mais moderno.
A valorização e investimento na ciência e na técnica, em África, irão desembocar na revalorização do homem africano bem como levarão a que os efeitos da guerra, do subdesenvolvimento e da permanente dependência externa do continente diminuam, para além de contribuírem eficazmente na resolução de outros problemas não menos importantes como a fome, a emigração, o desemprego, o saneamento básico, a saúde, a educação, etc .
À elite intelectual africana também é confiada a árdua tarefa de realizar estudos, pesquisas sobre a situação actual do continente, isto é, procurar revelar as usas disparidades e insucessos e sugerir novas perspectivas que orientem o continente para tempos melhores. Aos governantes das Nações é igualmente incumbida a missão de zelar pela preservação do acervo cultural do continente garantindo que o eco cultural do continente soe bem alto e se mantenha incólume nos nossos dias, mesmo que sejam os mais afectados pela mentalidade modernista.

Conclusão

A cultura africana mantivera desde muito cedo um contacto mais directo com a cultura europeia. Embora tal contacto sucedesse já no século XV, apenas nos séculos XVII e XVIII é que a África vai ser trespassada pela modernidade. A modernidade é um fenómeno responsável pelas bruscas mudanças verificadas na economia na política, na cultura e na sociedade africana, ferindo, em alguns casos, não raras vezes, o seu mosaico cultural e não só.
A cultura modernista é um desafio ao homem africano e à sua cultura. Apesar das bruscas mudanças, a definição do futuro do continente depende dos próprios africanos. Para tal, um conhecimento mais profundo de si e da realidade africana se impõe como uma necessidade ao homem africano de hoje bem como a adaptabilidade às circunstâncias impostas pela mentalidade modernista. Ela, a modernidade, é já um caminho aberto para o desenvolvimento do continente, pois, já traz em si potencialidades como a ciência e a técnica, as quais podem fornecer um contributo inestimável para o desenvolvimento da África, se bem aproveitadas.
Ademais, a elite intelectual africana e os governantes das Nações africanas são chamadas a prestar um contributo salutar ajudando o continente a conhecer os seus melhores momentos. Hoje, o projecto da libertação e da auto-determinação do homem africano passa, necessariamente, pelo domínio da ciência e da técnica, que, são realidades das quais a África se deve apoderar para aplicá-las à sua situação concreta e, através das quais, o continente saberá desenhar o seu próprio futuro.

Estêvão Conde Mbambi

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