Afro jazz ou música de fusão em Angola

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Rotura com os rótulos musicais

O cenário musical angolano sempre foi fértil ao surgimento de músicos de fusões. No entanto, encontramos certa dificuldade na identificação correta dos estilos musicais, vive-se muito dos rótulos e muitos deles de acordo com o que os americanos determinam, pois para os americanos apenas conta o que eles pensam. Existe ainda outro fator alguns jornalistas e fazedores de opinião no nosso cenário musical, não ouvem e muito menos estão interessados em conhecer a história e o desenvolvimento desta arte.

Faço esta pequena introdução para uma melhor compreensão na minha abordagem sobre a música que eu acho ser de Música de Fusão e é tida aqui muitas vezes como “Afro-jazz.”

Segundo o Wikipedia “Afro-jazz” refere-se a música jazz que foi muito influenciada pela música africana, precisamente a sul africana. Géneros como o marabi e outros ritmos sul-africanos, contribuiriam fortemente para o que seria chamado por muitos de “Afro-Jazz”.

O mesmo sítio de fine Jazz como uma manifestação artístico-musical originária dos Estados Unidos. Tal manifestação teria surgido por volta do início do século XX na região de New Orleans e suas proximidades, tendo na cultura popular e na criatividade das comunidades negras que ali viviam um dos seus espaços de desenvolvimento mais importantes. O Jazz se desenvolveu com a mistura de várias tradições musicais, em particular a afro-americana (já nasce afro).

Os americanos e seus seguidores pensam que são e estão no centro do mundo e dai a apetência de rotular/definir/classificar tudo que não é executado por americano. Por isto encontramos termos como Afro-Jazz e Latin Jazz. Gostaria de referir que senhores destes “géneros” como Hugh Masekela e Chuchu Valdês não aceitam estes termos. Hugh Masekela confidenciou-me que apenas faz música e Chuchu Valdez que a sua musica é Afro- cubana.

Acho que se ficássemos mais atentos em Angola poderíamos facilmente chegar à conclusão que muitos deles o que fazem é fundir Mpb, Bossa-nova, Soul, R&B, semba e outros ritmos nossos com alguns rasgos de “jazz”.Eu, quando oiço cantoras que são as referências do “Afro-Jazz” aqui, vou para a África do Sul, Lira, Zamajobe, Simphiwe Dane, Siphokazi, o que noto é uma mescla dos ritmos daquele país coma Soul, R&B, Jazz e mesmo bossa-nova e, melhor ainda, são autênticas.

Elas fazem de facto um perfeito casamento entre os ritmos locais, Soul e R&B e a forte formação jazzística de todos os intervenientes, resultando uma grande música de Fusão. Ainda na África Sul, o que falar de Hugh Masekelea, Ray Piri & Stimela, Sipho Gumede, Jonas Gwangwa, o moçambicano Jimmy Dludu, o cabo verdiano BoyGe Mendes e o nosso Carlos Nando ou o camaronês Richard Bona? Fazem Afro-Jazz ou Jazz de África? A minha resposta é que fazem música, e que mais uma vez existe a fusão perfeita entre o improviso do Jazz e os ritmos locais.

Tudo isto vem a propósito do surgimento de artistas que se assumem ou são tratados como expoentes máximos de “Afro-Jazz” em Angola. Acredito que podemos fazer uma música de fusão nossa e boa, uma vez que em muitos dos álbuns lançados e rotulados como Afro- Jazz encontramos grandes temas fusionados, e aí me vergo ao trabalho de alguns instrumentistas tais como os baixistas Freddy, Selson, Wando, o baterista Hélio Cruz, os pianistas Mário Garnacho e Nelo Jazz, o multi instrumentista Simmons Mancini, os guitarrista Belmiro Carlos e Carlitos Vieira Dias.

Gostaria de recordar ainda outros nomes da nossa música de fusão: Economic Jazz Band, que nos anos 80 acompanhou André Mingas., Filipe Mukenga, Carlos Lopes. E, para situar melhor, citaria alguns nomes sonantes do que eu chamo de bons exemplos da música de Fusão, Kizua Gourgel, Sandra Cordeiro, Afrikkanita, Kanda, Jack Nkanga, Hélder Mendes, Yembe, Dodó Miranda, Yami dentre outros nomes. Gostaria de destacar que Afrikkanta e Dodó Miranda são dos poucos que fazem sets jazzísticos, resgatando certos standarts (clássicos) do Jazz.

Infelizmente para os amantes da música de Fusão ou “Afro-Jazz”, alguns grandes intérpretes deste género emigraram para outros “géneros”, trazendo por outro lado a felicidade para a música popular de Angola. Podemos encontrar grandes exemplos de música de Fusão em obras de autores de outros “géneros” musicais.

O que penso ser importante é que os músicos façam música e não fiquem presos aos rótulos, um outro recado é para todos aqueles que se dignam informar, que pesquisem e saiam da superficialidade.

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