Aqui também temos Wall Street

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A jornada sem que sejam perturbados inesperadamente.

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Aspecto da cidade de Maputo Fotografia: Arquivo

Dois cidadãos que julgo serem de nacionalidade Koreana, numa tarde a cair, tem um momento de pausa, estando à dois metros de distância, da mesa onde me encontro a beber café para desanuviar algumas tenções. Pelo que observo bebem refrigerante pausadamente, enquanto trocam algumas palavras sobre um assunto qualquer. Percebe-se que aquele fora um posto de paragem inesperado, pois que andavam pela cidade a sentir o aroma do dia, sentir se de facto aquilo que lhes chegava através da Tv era verdade ou mentira. A mesa está a um canto, no mesmo canto onde um grupo de vendedores ambulantes se atulham para preparar as suas vendas, pôr a reluzir as peças que vendem a qualquer transeunte que por ali passa, ou quem sabe ensaiar alguma forma mais barata e eficiente de convencer a diversa clientela.
Passado um tempo, interpela-se entre eles um dos vendedores, veste um calcão preto as riscas, em mangas de camisa, onde nota-se faltarem duas casas sem botões, os chinelos de cabedal denunciam os pés cansados de varias batalhas pelas ruas da cidade das acácias- “Good afternoon boss, I sell this for you, buy, please”, começa com uma voz suave mas firme, que vai mudando, subindo de tom assim que se apercebe da resistência do casa, que inerte, presta mais atenção à azafama do entra e sai do supermercado que a escassos metros dali funciona, espicaçados pelo aroma do pão que vai sendo confecionado de hora em hora, atraindo também famigerados miúdos de rua e lavadores de viaturas que ali fazem a vida. O casal continua em silêncio, ignora a proposta atrevida do fulano. A senhora usa um par de óculos de vista, com umas lentes ovais, de um creme fugidio, o rabo-de-cavalo curvado pelos seus cabelos na nuca, muito bem puxado e tratado, brilha de encontro ao vidro que separa o interior da pastelaria do exterior onde está implantada a esplanada, de piso em madeira, com as mesas de plastex num tom de verde-alface, com motivos de uma marca de sumos famosa. “Não precisa comprar agora, só apreciar só, não faz mal a ninguém” insiste o fulano, chegando mais próximo onde se encontra o casal, minutos depois pousa a caixa que traz por cima do ombro em cima do tampo da mesa, de onde imensos objectos brilham ante a luz do sol parda, dentre eles, relógios, para variadas ocasiões, carteiras de bolso, óculos de sol e tutti quanti se pode imaginar que pode vender-se ao desbarato, e sabe-se la a sua legítima proveniência!
Ficam instantes a trocar duas ou três palavras, o que se segue não fazia parte do plano dos fulanos, ligar-se a quem quer que fosse nas suas breves andanças pela cidade. Era espreitar a cidade e pronto. Mesmo assim vira-se ao fulano e procura distinguir o que mais lhe pode interessar naquele buraco negro, o vendedor sente a sua avidez e consegue adivinhar-lhe que tem os olhos focados numa nova camara digital de marca Sony, que está embrulhada num papel transparente, que por isso denuncia a sua existência. Ainda assim o mano adiciona-lhe o que vender, “tenho também pilhas dele, está muito nova em folha boss”, mexe e remexe a caixa, que mais parece uma caixa de pandora, de onde se pode extrair tudo quanto for da vontade de quem o tem nas mãos, mais uma outra camara, um relógio que aparentemente é prateado, que ele afirma de pés juntos que é a prova d’agua.
O fulano inspeciona, vira, abre e fecha, pede que o mano ligue e experimente, mas antes recebe um protesto, “não pode abrir e fechar toda hora, vai estragar, deixa vou-te mostrar”. A máquina de filmar não é dos modelos mais recentes, e mesmo assim o rapaz tenta despachar a qualquer custo. Para quem passa percebe logo que há ali um dialogo meio emaranhado mas que tem a sua fluidez, há uma variação de língua, do português moçambicano, aoinglês e socorrendo-se de vez em quando de alguma tradução, através do auxílio de colegas que assistem a negociata.
Manuseia a máquina com cuidado, botões aqui, ali, liga, simula, ensaia uma breve filmagem que não dura mais do que 2 minutos, apenas para certificar aos clientes de que é fiável. Suponho que a máquina vá custar ao bolso deles, o dobro que seria numa loja conveniente, mas não sabem disso. Em vão insiste, a senhora, não se deixa convencer facilmente, decidiu entrar também para discutir, emite poucas palavras num som cavernoso, depois que o fulano recebe uma chamada telefónica e põe-se a falar, falar, como que a ignorar ou tentar espantar o fulano que por ali, em pé, parece desafiar a paciência do casal. Parece que os vendedores ambulantes um pouco pela cidade de Maputo, são treinados para serem muito persistentes e de atrair mesmo contra vontade dos clientes que eles interpelam.
A senhora, de quem igualmente não sei o nome, receia pela qualidade do produto, e aguarda aflita pelo término da chamada para que se desfaçam do fulano. Ao que parece, a língua não chega a ser uma barreira para que o negócio tenha o mínimo de fluidez, espantam-se os que ao lado acompanham, mas o seus amigos apenas sorriem e trocam caretas entre si, estão de certo habituados a abordar cidadãos de incomum proveniência, e sempre num inglês de ocasião, uma e outra palavra, gestos e alguma ajuda. A rua ensinou-lhes a serem pacientes, a trocar lições uns com os outros, a tecer como forma de magia algumas estratégias para ganhar o pão de cada dia, por isso há quem dizia que “A Vida e uma escola…”
O mano (vendedor), também não desiste, embora com muito esforço, pouco consiga explicar detalhadamente os modos de operar e todas as funcionalidades daquele objecto que passa ser mais estranho do que deveria ser para o casal, afinal estamos habituados a que os estrangeiros são sempre os conhecedores de novas invenções, cabendo-nos a ficar em último a saber sobre as novas tendências do mercado para não falar da ciência no geral.
Terminada a chamada, num movimento suave e lento, troca algumas palavras com a senhora que se encontra na sua companhia, de seguida vira-se para o vendedor, que em momento algum arredara o pé dali, parecia que ele estava confiante no fecho do business. “Pode por na caixa”, pronuncia para ele, este sorri sem esconder o ânimo, vai fechar o negócio, rapidamente toma das mãos do senhor, o famoso objecto e põe-se a polir cuidadosamente, não vá mexer em algo desconhecido e colocar em risco o final de semana que se avizinha; do seu bolso traseiro, retira um saco plástico de embrulhar souveniers, e que tem pequenas câmaras infladas de ar, que até as vezes nos colocamos a desfazer, soltando um som agradável.
Por ordens do senhor, as senhora em silêncio, retira da sua pequena carteira de mão, uma nota de cem dólares americanos meio amarfanhada, não sem antes confirmar ao senhor, que é aquele valor acordado, a voz e tom parece agressivo, mas há línguas assim, que operam em outros níveis de expressão facial e não só; no que ele acena bebendo o seu ultimo gole de refrigerante. A verde nota é então estendida pela mesa, para o encher dos olhos ali a volta, e rapidamente tomada pelo mano, num movimento veloz mas sem dar a perceber a avidez que tem. O mano sem demora, inspeciona a nota, mas como nunca ouvira falar de casos de falsificação de dólares, duvida que possa dar por falsa, “ é essa mesma, e verdadeira”, confirmam os seus manos que o rodeiam para tal efeito; para elas o dólar é um tesouro, cair-lhes na mão numa quinta-feira era um fechar com chave de ouro, ao que o proprietário guarda no bolso mais discreto, retomando de seguida a sua bancada junto à entrada do edifício onde entra e saem moradores.
Todos saem a ganhar, ao que parece, sorriem e deixam-se levar pela frescura que chega pelo ranger das árvores, a escassos metros dali. O casal, pede mais alguma coisa, seja para espantar o calor que aquela situação lhes terá causado, ou para algum ganho celebrar, não interessa, o que interessa-lhes é que estão mais uma vez livres e podem dar seguimento a sua jornada sem que sejam perturbados inesperadamente. Enquanto isso o mano faz as contas do dia e arruma em silêncio os outros tantos objectos que tem na sua posse, deverá conseguir despachar nas próximas horas se for ágil e perseverante como até agora tem sido, ensaia novos gestos, abordagens e linguagens para a sua próxima conquista, afinal o dia para ele apenas começou, Maputo tem duas faces…

Mauro Brito

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