As 12 nascentes de Mbânz’a Kôngo: Património Imaterial

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Geralmente quem vai a Mbanz'a Kongo percebe que a cidade está numa montanha.

As populações explicam que os fundadores da cidade (ou do reino inteiro) escolheram essa montanha por causa de 12 nascentes que lá se encontram. O que significa isso?

Tratei do assunto no último volume editado pela Universidade 11 de Novembro e Universidade Federal de Paraiba/João Pessoa ainda por lançar este ano (Batsikama, 2012: 218-230). Versarei no propósito de considerar essas fontes guardadas num outro suporte (palma da mão) e propor essas 12 nascentes como património imaterial.

"As famílias do Kôngo são como os quatro dedos da mão", assim reza a Tradição. Porquê 4 dedos, se o ser humano possui cinco? Porque apenas quatro têm 3 falanges cada. Ora, os Kono dizem "Makukwa matatu... malambil'e Kongo": o país Kongo assenta-se nas três pedras.

Vamos tentar depreender algumas noções basilares. Ekanda significa, de facto, palma da mão ao mesmo tempo significa parentesco (Laman, 1936:211). E os dedos chamam-se miñlêmbu. Curiosamente, miñlêmbu pode significar tios maternos ­ isto é, ngwa nkazi como autoridade dos sobrinhos.

No seu terceiro Tomo, Cadornega mencionava que o "rei de Loango" chamava-se "MULÊMBU" (Cadornega, 1942-III:183). Já adiantamos alguma coisa sobre o assunto no nosso estudo anterior (Batsîkama, 2011:75-76). Muñlêmbu/Mañlêmba (variante de Mpêmba) como tiomaterno tem uma variante muito popular que é "Ne Nkâzi za Kôngo" (Cuvelier, 1934), provavelmente o primeiro-ministro em Mbânz'a Kôngo.

Parece agora claro que esteja atribuído a cada dedo as "instituições administrativas/políticas" de um nkûndi, que é montanha, e os quatro sendo parentes. O que explica explicitamente a união que os mesmos têm. Assim formam, de facto, um kanda: Kongo.

Curiosamente, kanda e mbânza são sinónimos. Mbânza deriva de: (1) yânzalakana: estender-se, espalhar-se; (2) yânzama: estar no cume; e kânda deriva de: (1) kanda: estender-se, espalhar-se; (2) kanda: ser exposto ao cume. Interpretações que se pode encontrar no Dictionaire de Laman. Assim sendo, compreende-se a causa da palma da mão esquerda ser chamada de kand'a minlêmbu. Em princípio, kanda (aldeia) identifica nove famílias (Batsîkama, 2010:281) que conquistam as três outras famílias autóctones.

Ou, na leitura pariemológica, kand'a miñlêmbu seria "aldeia unida dos tios maternos". Importa salientar que o responsável mañlêmba tem sempre como base um Conselho de 12 "mais velhos" que orientam e coordenam.

Kand'a miñlêmbu é composta de doze famílias repartidas em quatro aldeias. Cada dedo simboliza a liderança do tio materno (malêmba) nas três famílias que são as três falanges de cada dedo. Na linguagem actual, falange chama-se ndônga (Cobe, 2011: 288; Maia, 2010: 302). A mesma palavra significa "conjunto de pessoas, grande assembleia; multidão" (Laman, 1936:672).

Curiosamente, ndônga era dirigida pelo luvôngo, outro nome de tio materno. Também há o termo buku ­ falange ­ que significa ao mesmo tempo o conjunto de doze aldeias (kimbûka).

O termo nkûndi que é utilizado pelos informantes ­ repetido por vários outros ­ é sinónimo de ndônga. O dirigente de cada ndônga/nkûndi tinha como insígnia do poder um lenço genericamente chamado luvôngo, termo que deu luz a mbôngo. Jean Cuvelier apresenta-nos luvôngo como dinheiro no antigo reino do Kôngo (Cuvelier, 1946:307-311).

Kand'a miñlêmbu parece-nos algum sentido figurado de Mbânz'a Kôngo , e por múltiplas razões: (1) existiam 12 representantes de 144 comunas de todo o país; (2) existiam, e ainda existem, doze nascentes/famílias atribuídas aos ñkûndi (montanhas), fundadores da sociedade kôngo; (3) a nomenclatura do rei do Kôngo (Mwêne, Ñtôtila, Mani, Ma, Mwili, Ne, etc.) deriva de verbos ligados às suas responsabilidades partilhadas com "outros tios maternos" e representantes sociais, de maneira que o rei passa a ser como Tio-maior do resto; (4) etc. Nesse aspeto, importa lançar a nossa hipótese:
(a) Dado que os quatro dedos da mão (esquerda) são compostos cada um de três ndônga/kimbuka, indicam as doze famílias sociais de todos os Kôngo;
(b) Tendo em conta que semanticamente kând'a miñlêmbu ­ que designa a mão esquerda com os quatro dedos ­ não muda de conteúdo em relação a (possível) expressão mbânz'a miñlêmbu (capital dos "tios maternos");
(c) Visto que a representatividade de nkûndi evoca não só a montanha real, mas também um conjunto de montanhas (serra) onde se exerce autoridade, o que relaciona-se com uma época de antropomorfização do Herói civilizador (Batsîkama, 2010:),

Concluímos que kând’a miñlêmbu designaria ria Mbânz'a Kôngo no sentido figurado de que seria a fonte representante de doze famílias sociais, de 144 comunas e de quatro Estados Federativos do Kôngo. Ao seu mais alto nível, o Estado angolano mostrou-se engajado na candidatura de Mbanz'a Kongo a Património da Humanidade.

Podemos apontar as 12 nascentes de Mbanz'a Kongo como proposta do Património Imaterial, pois elas lembram os fundadores do Kongo e as suas 144 comunas. Os 4 dedos seriam: (1) Kongo dya Mbangala no Sul; (2) Kongo dya Mulaza, a leste; (3) Kongo dya Lwangu, ao norte; (4) e Zita dya Nza, no centro: espaço geralmente atribuído ao reino do Kongo.

Para ter alguma ideia da dimensão desses 144 comunas que ilustram o povoamento proto-kongo (Batsikama, 2011: 27-86), três autores de grande autoridade são referencia imediata: (1) Jan Vansina, que partilha a opinião de que o reino do Kongo começava no Gabão e terminava no Sul de Benguela, em Angola (Vansina, 2010); (2) Denise Paulme avança que o reino do Kongo foi criado pelos mesmos reis que reinavam desde Sette Gama até na província de Namibe, em Angola (Paulme, 1962); (3) António Cavazzi mencionava no século XVII que Angola, Matamba e Kongo constituem o mesmo povo, o mesmo país (Cavazzi, 1965). Hoje, ainda que se possa encontrar alguns traços, tudo tende-se a desaparecer.

Daí, acho que as 12 nascentes das origens podem levar Mbanz'a Kongo a ser Património Imaterial, pois simbolizam não só muitas populações africanas mas também a origem de milhares de afrodescendentes no mundo inteiro.

Fotografia na vida da Luika e do Yukisa.

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