Beleza grega vs Beleza muntu-angolana

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O meio onde desenvolveu-se a civilização grega influenciou consideravelmente a noção da beleza: o mar terá servido, num ângulo funcional, de protótipo.

Beleza Homérica e platónica

O destino não conhecido do mar (seu movimento), de modo igual é tido com o objetivo da arte (a ponto de `indefinir' a arte). Contudo, um provérbio lembra-nos isso: "todos os homens são atraídos pelo mar".

Tendo em conta que, assim reza a mitologia grega, do mar saíram todas deusas (bonitas), filhas de Zeus (Musas), a noção da beleza foi, em Homero, assimilada a mulher. Um país é belo para Homero porque encontram - se muitas mulheres: a mulher tem cabelo ondulado, como as ondas do mar.

As partes externas onduladas (beleza extrínseca) da mulher (seios) passaram a ser os principais "pontos" de atração, uma vez que a beleza "atrai".

Mais tarde, os Homens poderiam ser belos: Aquiles tinha beleza porque foi valente, vigoroso, inúmeras vezes vitorioso e cheio de bondade. As vitórias das corridas e outras provas das olimpíadas tornam a vitória uma Beleza. Platão, que é pioneiro dessa versão, fala da beleza como artista (Bayer, 1995:27-28).

Já em Platão, a Beleza se "define" por três em princípio (Bayer, 1995:41):

a) "A Beleza dos corpos... A Beleza do corpo pertence a beleza inferior. Platão coloca-a entre as qualidades inferiores: a saúde, a força, a riqueza. Aqui Platão mantém-se no domínio sensível (Platon, 1947:345356; Aristóteles:1967). Há apenas alusão rápida a beleza dos costumes e das leis, mas somente aflorada;
b) "A Beleza das almas, que encontramos sobretudo no Fedro. E a virtude, e a beleza verdadeira só aqui se manifesta;
c) "Para os sábios, há beleza em si". Beleza muntu-angolana

Beleza muntu-angolana

O espaço ocupado pelos muntu-angolanos não responde alguma unicidade geográfica: há os que vivem ladeados pelo mar, outros nas savanas densas; há também aqueles que são "engolidos" nas florestas densas ou avizinham florestas virgens, para além dos habitantes de desertos e semi-desertos.

Teremos como suporte da beleza a "mitologia muntu-angolana" sobre a "criação do mundo", salientando que existe diversas versões a volta disso que variam de acordo com a geografia física das populações.

Nzâmbi chamado Ndala Karitanga (Deus se criou a si próprio), entre os Côkwe, vomitou durante alguns dias, o que deu a criação do mundo: estrelas, sol, terra e a sua plantação, mar, animais, etc.

Ele viu que o mundo que criou ainda faltava alguma coisa, e começou por fabricar a sua mulher: essa chamou-se Na Kalûnga por causa da primogénita (Kalûnga) e Deus passou a ser Sâ Kalûnga.

Numa viagem Pai-filha (viagem contestada pela mãe), a filha volta grávida, e Na Kalûnga suicida-se. Kalûnga deu luz a um filho que chegou a casar-se com ela.

Desta união saíram um "filho" e "uma filha" que se multiplicaram até formar uma grande sociedade. De modo igual, antes de se "separar" com a "sociedade primitiva humana" Ndala Karitanga ensinou usos e costumes sobre o casamento (entre os primos), arte de caçar, de esculpir, etc. As análises estruturalistas deram impressionantes resultados, que não interessam voltar debruçar. Apenas recorreremos em alguns extratos para subsidiar a noção de beleza.

Nzâmbi deriva de zâmba, samba, yâmba que em línguas muntu-angolanas significa: dizer, esculpir com argila, executar, fazer, modelar argila... Isto é Nzâmbi/Nyâmbi/Nsâmbi terá criado o mundo pela "palavra" (vomitar/dizer) e o homem pela "execução" (modelar argila/esculpir com argila).

Na versão Kôngo, os primeiros vómitos de Nzâmbi deram luz aos espíritos, e os últimos na composição da terra (fauna, flora, águas, etc.). Somente depois dos vómitos e sobretudo, depois de completar a sua semântica na altura que Ele "modela argila" que é o Homem. Depois de estimar bastante o mundo, refugiou-se kuna Zûlu (no céu).

A partir desse momento começou a existir Deus Celestial (Nzâmbi'a Mpûngu) e Deus Terrestre (Kalûnga). Em princípio, a viagem cósmica Terra-Ceú (Kalûnga) explicita a imensidão, infinidade e grandeza de Kalûnga, isto é Deus-mar, Deus-infinito, Deus-morte, Deus-subterrâneo.

Com esse mito ou lenda da criação, e dada a forma que os Muntu-angolanos gerem a sua convivência, podemos estabelecer uma permissível estratificação da Beleza:
a) Beleza kalungueria que procria o resto. As reações normais ou patológicas de Nzâmbi (vómitos, por exemplo) estão na base da criação dos espíritos chamados simbi.
b) Beleza simbial como condição essencial da harmonia social. Os homens são coagidos a respeitar as normas estabelecidas (usos e costumes que estabeleceu Karitânga antes de "separar-se" com os homens) e sancionadas pelos simbi (espíritos). Chamamos essa beleza simbial porque os simbi sendo espíritos, estão intimamente ligados aos homens (bântu) e, a noção da beleza aqui é expressão em motivos "religiosos", "magico-religiosos", etc. Os Simbi aqui significa as "instituições" que sustentam a harmonia social e faz, embora etimologicamente signifique espíritos, parte da beleza infra-objetiva. A Beleza simbial interpreta-se as vezes como uma Beleza social (harmonia social) que inclui a harmonia entre o mundo humano, o mundo dos antepassados, o mundo vegetal, o mundo animal e o mundo feérico sensível.
c) Beleza muntual como base existencial e infra-subjectiva para harmonia individual: têm a ver com tudo que o homem faz, diz, interpreta e, acima de tudo, acredita. Chamamos isso muntual porque parte do condicionalismo existencial do ser humano enquanto "material".

Partindo do pressuposto que Deus seja o primeiro artista, e os seus atributos que fazem com que haja hagiónimos relacionados a Deus (Batsîkama, 2010:97-100), aqui enumeramos oito particularidades da arte na conceção muntu-angolana:
1) Mvile: grandeza. O adjetivo: mvilético, relacionada com a grandeza muntu-angolana.
2) Suku: Sublime. Utilizaremos sukuário para tido que estiver relacionado com sublime muntu-angolano.
3) Kûmbi: Sol, Calor. Kûmbiano será adjetivo. Relaciona-se com Apolo, tal como a tradição ocidental nos apresenta.
4) Mpângale: Origem ligado com o sol. Mpângaleiro será o adjetivo ligado com a força da invenção/criação contínua e especifica a productividade densa.
5) Tuku: origem, causa. Tukuário será relacionado com algo original, em termo material e, relativamente, em termo de conteúdo.
6) Ngômbe: segredo, fonte. Ngômbiano relacionar-se-á com conhecimentos de ofício de um artista e a sua mestria.

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