Casos da nossa vida social: III. Sagacidade Juvenil

Envie este artigo por email

O povo angolano conquistou a independência há 40 anos, após o conflito armado de libertação nacional, que principiara em 4 de Fevereiro de 1961.
De 1992 a 2012, foi molestada por uma guerra civil que lhe infligiu incomensurável sofrimento.
Após o restabelecimento da paz, a população convive com os resquícios desse passado sangrento, mas mostra-se batalhadora, alegre, caminhando para o desenvolvimento, com coragem e dedicação. 
Hoje, vive-se a fase de reconstrução e de investimento nacionais, sobretudo no capital humano.
Ora, tendo o Recenseamento Geral da População e da Habitação, efectuado em 2014, revelado que a população angolana é maioritariamente jovem, a aposta na sua formação deve perdurar, cativando para os cursos de formação profissional os jovens que se revelarem com perfil para essa certificação.
Essa necessidade de dotar a camada juvenil de formação qualificada assume-se evidente, quando esbarramos em jovens como os que, a seguir, se descrevem.

Casos da nossa vida social: III Sagacidade Juvenil
Crianças do futuro

CANDONGUEIROS
Quem se faz transportar de táxi colectivo, habitualmente, depressa se familiariza com o cenário seguinte:
- Em qualquer local da avenida, o cobrador, com a porta da carroçaria aberta (corrida), empoleira-se nesse sítio e, com uma das mãos agarrada ao tejadilho da viatura e a outra segurando as notas, dobradas ao comprido, entre os dedos, grita aos transeuntes, meneando a cabeça como pássaro engaiolado: «Sã Pálu! Sã Pálu na gilera!»; «Multiprefil no ar condicionado!»; «Eroportu! Eroportu!...»; «Ilha! Ilha!...» ou «Congolensi de cem!», enfim, papagueia o destino da respectiva viagem.
- As paragens, onde os táxis devem tomar ou largar os passageiros, estão regulamentadas. Por exemplo, no troço entre o Mercado dos Congolenses e a Mutamba, estão previstas paragens em frente à loja de electrodomésticos, a seguir ao Estádio da Cidadela e antes do edifício do MINARS; no cruzamento do Zé Pirão, no Cine Luanda e na terminal, Mutamba. No entanto, as mesmas não estão sinalizadas como as dos autocarros da TCUL que exibem uma sinalética afixada ao longo do percurso. Este facto, aliado à pressa dos transeuntes em apanhar o “carro de praça” e à gula da dupla motorista/cobrador pelo lucro rápido, torna anárquico o sistema de tomada e largada de passageiros. Por esse motivo, é comum assistir-se a episódios como os seguintes: «Moço, saio na loja do disco jóquei» ou «No Comilão, fico» ou «Cobrador, saio na Clínica de Santa Marta», o chamador brada, então, ao motorista: «Tira fora» e este encosta à berma; polícias de trânsito a multar os taxistas por estes tomarem ou largarem clientes fora das paragens regulamentares, por vezes, com a viatura ainda em movimento; conduzirem sem cumprimento do limite de velocidade citadino; por se ­entreterem com mbaias, ou por desrespeitarem a lotação de passageiros permitida por lei.

24Jan15

Apanhámos o candongueiro em frente ao posto de combustível Sonangalp, da Av. HojiYaHenda, como habitualmente.
Na descida da Av. de Portugal para a Mutamba, o trânsito está parado no túnel em frente ao antigo Cine Luanda. Para contornar este costumeiro contratempo, o motorista altera a rota, virando na Rua Frederico Welwitsch, em direcção ao Kinaxixe.
Já no início da Rua da Missão, o condutor – reparando que o trânsito se encontra igualmente duro – simula a presença de uma operação stop em frente à sede da TAAG.
- Descem, a polícia está lá frente!
- E a gente tem que descé porquê? – questionam os passageiros, em uníssono.
- Vocês não estão a perceber? O condutor não tem carta ou os documentos da viatura! – adianta um rapazote, com os auriculares pendurados nas orelhas.
- Descem! Vão andando que a gente vos apanha lá frente! – sugere o motorista, incomodado.
- Eu desço, mas quero o meu dinheiro de volta! – responde, com veemência, um senhor de cabelo grisalho.
- Também eu! – aquiesce outro.
- Também nós! – corroboram os restantes.
Em conluio com o condutor, o chamador devolve notas de 100 kwanzas a cada um dos clientes que apanhara o táxi a partir da ex-avenida do Brasil e de 200 akz aos que o fizeram na paragem de origem, o Mercado dos Congolenses.
Livres dos passageiros, o motorista abandona a congestionada Rua da Missão, vira para a rua Reverendo Agostinho Pedro Neto, faz a inversão da marcha na Rua de Portugal, encurtando, propositadamente, o percurso de regresso aos Congolenses que, em circunstâncias normais, teria início na Mutamba.
Com esta artimanha, condutor e cobrador evitaram perder dinheiro, o que aconteceria se tivessem permanecido encurralados no troço até ao Hotel EPIC SANA. Certamente não contaram com a reacção reivindicadora dos passageiros, mas terão preferido pôr em prática o ditado velho e certeiro: “Barco parado não arrenda frete!”

22Fev15

Ao chegar à paragem, para apanhar o candongueiro para a Mutamba, deparámo-nos com dois cobradores a disputarem o enorme saco de carvão de uma cliente.
Apercebemo-nos que a zungueira havia feito o sinal de paragem ao primeiro táxi que aparecera, mas, como este tardava em retomar a marcha, a cliente trocou-o pelo que viera imediatamente a seguir. Todavia, o chamador do primeiro táxi, que fora “mandado parar”, achou-se no direito de reclamar a passageira para si.
Permanecem, durante breves ­minutos, aos puxões, até que o primeiro motorista grita pelo seu cobrador, este larga o saco, entra para o veículo, e o condutor recupera a marcha celeremente.

18Mar15

Enquanto cumprimos a rotina matinal de esperar pelo candongueiro no passeio contrário ao do Colégio ALPEGA, ouvimos uma voz infantil, tímida, vinda do nosso lado direito. Espreitámos e descobrimos, junto a nós, uma menina com a mochila às costas:
- Tio, me ajuda só atravessá a rua!
Enternecidos pelo inusitado pedido, agachámo-nos e encarámos a garota trançada, de olhar meigo e alvo, como a sua branca bata maternalmente engomada.
- O que dizes?
- Tio, me ajuda…
O adulto segura na mão esquerda da criança, no momento em que esta já a estendia ao encontro da sua. Então, ziguezagueando por entre o chorrilho de carros, fizemos a travessia em segurança.
- Fizeste bem em pedir-me ajuda. Nunca atravesses esta avenida sozinha!
- Tá bem, tio. – responde, agradecida, a encantadora criança, ajeitando a pequena garrafa de água na mochila.

17Abr15

Regressando das aulas nocturnas, avistámos um táxi. As pessoas, à espera na paragem da UNAC, agitam-se; outras vão aparecendo, a correr. Contagiado pelo frenesim da entrada dos noctívagos passageiros para a viatura, e pelo apelo estridente do chamador «Congolensi! Congolensi! Congolensi…», decidimos entrar. Em má hora o fizemos, como, a seguir, se deduzirá!
Enquanto esperávamos pela nossa vez de entrar, escutávamos a ordem peremptória do cobrador aos clientes que se vão sentando: «magrece… magrece!» Como fomos o último a entrar, coube-nos a pontinha do primeiro banco, junto à porta, originariamente do chamador, mas que ele cede para facturar mais um lugar. Ficámos com a nádega esquerda assente na borda do desgastado estofo, e a direita por cima do ferro lateral, sobressaído da base do estofo, pelo facto de este ter sido empurrado um pouco para o seu lado esquerdo.
Mal o táxi enceta a marcha, sentimos o ferro a espetar-se-nos no… ânus! Soltámos um “ai!” tímido, somente ouvido por nós! Resistimos à dor para prosseguir viagem, mas a lonjura do destino levou-nos a fincar a ponta dos pés no chão de chapa para afastar as nádegas do malévolo estofo, perfazendo o restante percurso de cócoras!
Chegados à casa, perguntámos, espetando o mataku:
- Mana, as minhas calças estão rasgadas aí em baixo?

18Mai15

Assim que o táxi arranca do semáforo, localizado na Av. HojiYaHenda, em frente à Lavandaria Sessenta, um passageiro exclama: «Este sinal encarnado demora pouco. Não é cumos do Kilamba! Aqueles? Num vale a pena! Demora uma hora pravir o verde!» - apercebendo-se da atenção dos demais passageiros, prossegue a narrativa – «Puseram lá o sistema chinês. Quando tá encarnado pròs carros, toda população passa! Os taxistas ficam bem nervoso! Se você tás atrasado pròsalo, obriga violá o sinal!».

25Mai15

Ao chegar ao Zé Pirão, o condutor do táxi em que vamos encosta-se, em demasia, a um carro aí estacionado. Que trabalheira para o motorista desenvencilhar-se da situação e retomar a marcha! Pela dificuldade da manobra e os malabarismos efectuados com o manípulo das mudanças, dámo-nos conta de que estas têm dificuldade em entrar na caixa de velocidades, que chia como dobradiça ferrugenta!
No viaduto, a seguir ao Cine Luanda, verifica-se o habitual engarrafamento subterrâneo. Dois motoqueiros, um de cada lado, vão ultrapassando, a zunir e à tangente, os carros imobilizados.
A viatura onde nos encontramos – com apenas dois dos três habituais e compridos bancos – revela dificuldades em transpor a parte íngreme da via, à saída do viaduto. Efectivamente, em determinada altura dos sucessivos “pára/arranca”, a 1ª mudança recusa-se a entrar. Por isso, o táxi foi deslizando para trás. Quanto mais o condutor se esforça por encaixar a mudança, mais o carro retrocede, provocando a rápida e assustada reacção dos automobilistas traseiros, que se apressam a buzinar furiosamente! Os passageiros presenciam o caricato episódio, uns boquiabertos, outros empertigados, e os restantes… indiferentes! Finalmente, o carro caminha para frente graças ao engenho do condutor que, depois de “meter” a primeira, sustém o manípulo, com os dedos sobrantes do volante, para que a mudança não salte da caixa de velocidades!
A emoção de se fazer transportar neste tipo de táxi é semelhante à que se experiencia nas viagens em carrinhos de choque, das feiras populares; a diferença é que os táxis reais não chocam tantas vezes!
A ideia generalizada que se tem da dupla motorista / cobrador não lhes é abonatória, devido a uma série de factores, nomeadamente a sua pressa constante, a baixa escolaridade, a pouca formação cívica e o atavio relaxado, a combinar com o aspecto descuidado de grande parte dessas viaturas. Contudo, alguns há – muito poucos – que, pontualmente, têm atitudes de honestidade, sensatez e simpatia, como ilustram os três episódios seguintes:
Como preferimos, viajávamos num dos dois bancos ao lado do condutor. Ultrapassada a Embaixada Portuguesa, o cobrador brada a costumeira solicitação: «Aí à frente, toucobrá!» Distraidamente, erguemos o braço esquerdo, estendendo-lhe uma nota.
- Pai grande, isso é muito dinheiro!- adverte o chamador, ignorando a nota exibida.
- Se é muito dinheiro, então podes ficar com o troco! – respondemos, convencidos de estar a entregar uma nota de 100 kwanzas.
- Não, kota; não dá praficácum tanto kumbu de gorjeta!
Perante a reiterada renitência do cobrador em recolher o dinheiro, olhámos para a nota e, incrédulos, apercebemo-nos do logro: tínhamos na mão uma nota de 1000 kwanzas!
Alguns dias depois, entrámos para um táxi e, como saíamos na última paragem, acomodámo-nos num dos lugares de trás. O chamador apressa-se a atirar-nos um pano de flanela:
- Toma, meu kota, pra limpares o pó do banco.
No dia seguinte, vínhamos sentados ao lado do condutor, quando, em frente à padaria da Av. de Portugal, entra, para junto de nós, um homem com uma lata de cerveja na mão, denunciando embriaguez.
- Dikota, não se pode bebé bebidas alcoólica no táxi. – adverte, lá de trás, o cobrador.
O recém-entrado, com o falar arrastado, balbucia monossílabos imperceptíveis, ignora a admoestação do chamador e faz menção de elevar a lata alcoólica à boca.
- Mais-velho, num vale a pena só insisti! Tás dá mau exemplo pràs criança que estão aqui atrás!
As palavras assertivas do cobrador tiveram o condão de despoletar, no embriagado, uma chispa de lucidez. Então, este prende a lata no interior das coxas, donde jamais a retira.

02Jun15

Na paragem da Mulembeira, frente à Angoship, uma senhora apanha um táxi, com destino ao Miramar.
Ao desfazer a rotunda, o apressado motorista curva repentina e abruptamente para a esquerda, iniciando a subida do eixo viário.
- Ai o meu coração! Moço, anda mais devagá!
- Mamãe, quem sofre de coração num anda neste carro! – Justifica-se prontamente o candongueiro, enquanto alteia o volume do velho rádio, para ouvir melhor a Kizomba que corre na pen drive.

10Jun15

Na zona do Cine Luanda, onde, geralmente, o chamador dá início à cobrança, e os passageiros vão esticando as notas na sua direcção, os que viajam sentados no banco do meio servem de intermediários, recebendo o dinheiro dos que estão no último banco e fazendo-o chegar ao cobrador.
Todavia, há um cliente, de face bexigosa e nariz pontiagudo, que se revela renitente em efectuar já o pagamento:
- Eu só pago na Mutamba!
- Se todo mundo pagou, o mais-velho engravatado – olhando para nós – já pagou, pra quê você táscomplicá? – desabafa o cobrador, atónito com a atitude extemporânea do resoluto passageiro.
- Num sou obrigado a pagá antes!
O motorista, de chinelos havaianas, acode o colega de profissão:
- Se até memo no autocarro da TCUL você pagas na entrada, prá quê tásarmá confusão?
Mas o jovem cliente levou a teimosia avante e só pagou, mesmo, na paragem terminal, Mutamba!
Apesar do aspecto descuidado e da condução insegura, os candogueiros desempenham um papel vital no dia-a-dia das populações, além de se revelarem genuínos confessionários dos populares! Por estas razões, dever-se-ia investir na sua formação cívica e técnica, seleccionar e integrar os mais competentes nas empresas públicas e privadas de transporte colectivo de passageiros, como a TCUL e a MACON Transportes, promovendo, desta forma, a sua ascensão social.

Rebites

, 04ul15, deslocámo-nos ao posto de combustível da Sonangol, junto ao Largo 1º de Maio, para abastecer a viatura de gasolina.
Enquanto esperávamos, na fila, pela nossa vez, uma chusma de rapazes, surgindo repentinamente, como que do nada, interpelam-nos à janela, impingindo-nos os mais diversificados produtos. Vamos dizendo “não, obrigado” a uns e a outros, mas acabámos por comprar um ambientador e uma capa para o volante do veículo.
Surge um outro vendedor que nos exibe uma espécie de aro metálico, de cor preta, aponta para o retrovisor e diz:
- Kota, teu carro é novo, os gatuno vão-te roubá os espelho!
- Como é que é? – perguntámos, atónitos.
- É como tou-tafalá, pai grande. Eles vão meté uma chave aqui e vão levá os dois espelho! – nem queríamos acreditar no alerta! – Num tás a vé cus pelhos só tão preso por uma mola? – explica o expedito rapaz, colocando o dedo indicador na fenda entre o espelho e a sua protecção.
- E é essa coisa ferrugenta que tu queres aplicar no meu carro? – apontámos, com o olhar, para a peça exibida.
- Não, esta é só amostra! O pai grande encosta só ali o ruca que eu vou chamá o meu avilopra vi montá!
- Eh pá, mas com isso o retrovisor vai ficar feio! – exclamámos, avançando um pouco mais na fila.
- Não, kota! O protectó num vai-se vê! O meu kamba vai parafusá dentro da protecção do espelho!
- Ai é? E por quanto é que fica o serviço?
- 15000 kwanzas.
- Nem pensar! – chegando a viatura para a frente.
- Mas ó dikota, já viu o quê andácum receio de lhiroubá os espelho? Assim, tu pões os protectó e andas cum teu rucacum mais alegria!
- Mas 15000 está muito caro. Se quiseres, dou-te 10000. – ripostámos, ao entregar a chave do carro ao abastecedor.
A seguir à bomba, o vendedor da protecção aguarda-nos, acompanhado do rapaz que vendera o ambientador. Fazem sinal e o companheiro diz:
- Pai grande, pensa só: quanto é que vais pagá se comprá uns espelho novo?
Alarmados, começámos a ceder.
- Inda por cima tua machine é nova. Os caveras procuram bué esses espelho!
- Está bem, mas eu já disse que só dou 10000!
- Depois vais ficácum remorso! – acode o primeiro.
- Paciência! – fizemos menção de retomar a marcha.
- Tá bom, intão. Fica o preço cu pai falou. Encosta só ali que eu vou ligáprò meu brader.
Aquiescemos, estacionando a viatura no sítio indicado, saindo da mesma.
O posto de combustível vai registando o seu movimento normal, com viaturas a chegar, abastecer e partir. Os frenéticos vendedores vão “atacando” cada um dos novos clientes, impondo os seus artigos, papagueando a qualidade e o bom preço dos mesmos.
Como a espera já se estava a tornar morosa, questionámos a dupla de vendedores:
- Então, ainda falta muito? Estão à minha espera para o almoço!
- Kota, a pessoa que vinha fazé o serviço, a mota dele avariou! – esclarece o que, primeiramente, propôs a tarefa.
- Então, vou-me embora! – caminhando para o Renault Duster.
- Não, pai grande, nós vamo lá! – dizem, simultaneamente, os proponentes, acompanhados, agora, de um terceiro. – O pai távé onde fica o Veneza?
Com a porta do carro aberta, respondemos afirmativamente, mas revelando, já, alguma saturação.
Os três jovens agarram nas imbambas e entram para o carro, com a ligeireza de quem o faz amiúde.
Chegados à Rua Comandante Kwenha, dois dos rapazes foram chamar o “artífice.” Entretanto, o que havia vendido o ambientador, volta a solicitar-nos:
- O pai pramanté esse tablié assim bonito cumotá, tem de passá este spray! – pulverizando um pouco, sem esperar a nossa resposta!
- E isso resulta? – indagámos, desconfiados.
- Sim, kota. Num deixa o tabliéficá branco! Depois, é só passá aquelas fralda branca que se vende memo aí na rua!
- E por quanto é que vendes isso?
- Touvendé 4000, mas cumo pai já me comprou o ambientador, posso deixá por 3000.
- Não, nas lojas compro por 2000!
- Dá lá 2500!
Acabámos por adquirir o spray por 2000!
Entretanto, chegam os outros rapazes e o “técnico”, trazendo os dois protectores, um berbequim e uma pequena bolsa contendo rebites.
Rápida e ligeiramente, o “mestre” dá início à colocação dos protectores, coadjuvado por um dos angariadores.
- Os gatunos num sacam só os retrovisó. Tamém arrancam os faróis! – adverte o mais expedito dos negociantes.
- Não me digas! – respondemos, estupefactos com o alarme.
- Sim! E costumam levátamém esses ferro do tijadilho! – acrescenta o vendedor que, até então, se mantivera em silêncio, apontando para os suportes que prendem a carga.
- Vocês querem é ficar com todo o meu dinheiro!
- Mais-velho, memo que depois vais comprá esses ferro, já num vais encontrá originais cumo esse aí! – observa o vendedor do ambientador e do spray, encostado a uma árvore.
- É melhó o paizinho aproveitá que tamos aqui, prarebitá já tudo: os faróis e esses ferro!
Vamo-nos sentindo como se, de repente, tivéssemos sido colocados no meio de um filme de terror! Amedrontados, perguntámos pelo preço do serviço completo.
- 15000? Vocês pensam que eu estou a nadar em dinheiro ou quê?
- Cumo pai já nos trouxe memo até aqui, fica intão já por 12500. - sentencia o vendedor que, no posto de combustível, mostrara os protectores do retrovisor.
- Se a minha mulher me vê chegar a casa sem dinheiro, zanga-se! – desabafámos, resignados. – Está bem. Façam lá o serviço completo!
Entusiasticamente, os rapazes pedem-nos para abrir o capô e a porta do porta-bagagem, e, de seguida, explicam a pertinência da empreitada, apontando para os faróis da frente:
- O pai távé esta porca que táprendé o farol? Os gatuno desapertam ela cuma chave!
Escutámos, embasbacados!
- Os rebites, vamolhisparafusá aqui, por cima destas pega. Memo que eles abrem o capô, prasacá o farol, vão rebentá a pega e assim num vão consegui vendé porque já num vai dá praprendé o farol noutro ruca!
- Memo tamém ninguém ia aceitácomprá os faróis porque vão vé que é roubado! – acrescenta o mais franzino do grupo.
Achando plausível a explanação, vamos pensando na pertinência de termos sido abordados pelos jovens!
Nisto, aproxima-se outro moço:
- Pai grande, tenho aqui cola de ferro pra antena do rádio.
Enquanto observávamos o jeito desengonçado do recém-chegado, este empoleira-se no veículo, desenrosca a antena, aplica-lhe a cola, e desce, dizendo:
- Mi dá só 500 kwanzas!
- Mas esse não é o preço da bisnaga?
- Nada, mais velho. Esta cola é especial!
Desarmados, estendemos-lhe a nota!
- Meu kota, as tuas jantes inda tão novas mas vão infurrujá! - interpela o jovem menos interventivo do grupo, abrindo a velha e suja mochila.
Virámo-nos para ele, já agachado, a polvilhar o spray numa das rodas traseiras, acabando por concluir que o acinzentado do gás até nem ficara mal no rodado.
- E quanto é que me vais cobrar pelo spray nas quatro rodas?
- Costumo pedi 4000 kwanzas, pai.
- Nem pensar! Mas vocês estão combinados ou quê? Por esse preço, compro a lata e eu próprio aplico!
- Tá bem, mais-velho, dá intão só 3000. – Condescende o “pintor”, enquanto se aproxima doutra jante para pintá-la, sem esperar autorização.
O docente deixa-o aspergir o spray nas quatro jantes e diz-lhe:
- Toma lá 2000 e não se fala mais nisso.
O borrifador recolhe a nota verde, com ar resignado.
No fim do serviço, um dos rapazes exclama:
- Kota, o selo do ruca? - apontando para o vidro dianteiro.
- Não estou a conseguir comprar para colá-lo! – justificámo-nos.
- Na bomba onde o mais-velho meteu gasolina, vendem!
- Então vamos até lá, que eu vos dou boleia.
Durante o trajecto, um dos vendedores entrega um pedaço amarrotado de papel com o seu contacto telefónico:
- Pai grande, nós fazemos tudo nos carro. Se precisá de novo, é só da um conection.
No regresso a casa, demos connosco a fazer contas ao dinheiro desembolsado e, assustadoramente, concluímos que tínhamos parado no posto para gastar 2000 kwanzas em combustível, mas acabáramos por despender 20000, mesmo regateando os valores inicialmente pedidos pelos jovens!
Num semáforo, olhámos para os lados e constatámos que, afinal, outros automóveis tinham os retrovisores e os faróis presos com rebites, perguntando-nos como é que não havíamos reparado nisso antes! Mais à frente, observámos uma placa rudimentar pregada numa árvore com a seguinte inscrição: «COLOCAÇÃO DE PROTECCÃO DE RETROVISORES», seguido de um número de telefone.
Esta dupla e oportuna visão fez-nos sentir um pouco mais aliviados pelo inesperado investimento: «Se calhar, os rapazes até têm razão…»

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos