Cinema angolano ou cinematização angolana

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Pretendo discutir sobre um tema: "Cinema angolano". O conceito cinema implica geralmente o desenvolvimento tecnológico (embora a ideia esteja inicialmente em Leonardo Da Vinci) ligado principalmente à ideia da vida dinâmica registada em pintura e escultura.

Como registar o teatro? Giambetta Della Porta realiza a ideia de Da Vinci (século XVI) com a invenção da câmara escura com lentes. No século a seguir, Artanasius Kirchner inventará (já no século a seguir/XVII) a lanterna mágica que projeta a imagem sobre uma lâmina de vidro. No século XVIII serão desenvolvidas ideias  filosóficas... de maneira que é tão-somente no século XIX que, depois da invenção da fotografia, os irmãos germano-polacos Skadlanowski registarão as primeiras projeções. Na mesma época, os irmãos Lumière irão lançar a projeção oficial de cerca de nove " filmes" de menos um minuto cada em Paris.

O sucesso foi científico, embora nascesse uma outra modalidade artística.

A exibição foi tão acolhida e impressionante que Georges Miliès (um mágico notório) solicitou a compra da máquina para suas sessões de magia. Ouvi dizer que a sua insistência veio a introduzir a fantasia no cinema, muito mais tarde, e faz sentido.

Postura evolucionista

Quando se define o cinema relacionado a um espaço, no caso de "Cinema angolano", a postura evolucionista é inevitavelmente tida em conta. É o caso do "cinema francês", "cinema italiano", "cinema americano"... e será, por acaso, a realidade em Angola?

Como se viu, o cinema sucedeu a pintura, escultura e teatro... como modalidades artísticas, e, assim também, a evolução da ciência. A pintura e escultura que se refere aqui não só explicam a existência dos ateliês, mas também as companhias de teatro. Importa dizer que a qualidade e diversidade aumentam a concorrência perante um público cultivado e exigente.

A realização obrigava uma equipa dos competentes ­ essencialmente bem formados (e não só academicamente) ­ em apresentar coisas aceitáveis. Será o caso do "cinema angolano"?

É bem provável que assim seja... mas aqui vão as minhas impressões em relação à "nova geração".

O que é o cinema angolano? Quem o faz? Quem representa? Quem prepara? Quais são suportes científicos e artísticas? De onde se originam os suportes financeiros?

Vou começar com três pontos essenciais: (i) pintura/escultura estiveram sempre ligadas. E sempre foram representados e sobrevalorizados os artistas locais... que se internacionalizavam junto com o cinema; (ii) a indumentária teatral será transformada em "Alta Costura" universalmente concorrida através do cinema; (iii) a bela música que se verificava no teatro lançará suportes de aceitabilidade não só dos clássicos (ainda desconhecidos nuns cantos) mas dos novos talentos ganharão outras dimensões quer na música quer no cinema.

Com base nesses pontos, comparemos o caso do "cinema angolano". (i) há pouco aproveitamento e intervenção de pintura e escultura (ou arte em geral) porque, por um lado, não há instituições promocionais para o efeito e, por outro, os circuitos interligados local/global são escassos (o Festival angolano, por exemplo, é recente e ainda muito débil). (ii) há uma grande vontade na costura em Angola, mas a sua promoção através do cinema ainda é questão de deslocamento empresarial e hesitações nesse empreendimento por inexistência de mecenas.

A distância e desconfiança entre os operadores de finanças e fazedores do cinema contribuiu para a desacreditação destes últimos; (iii) a falta de instituições académicas e institucionais da música e do teatro fazem com que o "kuduro" não seja bem aproveitado, nem tão pouco os atores tenham formação adequada quer nas personagens que representam, quer nas outras aplicabilidades que normalmente deveriam ser auxiliadas por especialistas. Curiosamente, os orçamentos imediatistas não calculam as intervenções de psicólogos da arte, por exemplo.

É difícil, por exemplo, para rodar um filme sobre Nzinga Mbandi, encontrar especialistas em instituições apropriadas (académicas, promocionais), etc.

O que falta então?

Muitas coisas, mas vamos tentar agrupá-las em dois pontos: (i) (a) Instituições académicas: o ator, por exemplo, precisa de uma formação prévia e sólida que somente a instituição académica (formal ou informal) possibilita. A Escola Média de Teatro ainda é embrionária... e faltaria muito para uma Escola Superior de Teatro (Dramaturgia)... para não falar da Escola Média do Cinema.

Eu sou de opinião que se poderia introduzir uma especialidade de Cinema na Escola Média do Teatro e, posteriormente, discutir questões ligadas ao cinema; (b) Mas, são necessárias as instituições promocionais: mecenas, lei, que apoiem essa modalidade, existência de circuitos ligando arte e instituições de poder financeiro. (c) Mas acima de tudo, deverão existir instituições de matriz: estúdios.

A abastança destes promove a concorrência, e esta é o suporte fundamental da "indústria cinematográfica", embora necessitar-se de outros suportes para a sua funcionalidade.

(ii) Empresariado cinematográfico. Embora este ponto se verificar inicialmente nas instituições promocionais, importa explicá-lo à parte. Dentro do órgão do Ministério da Cultura existe o IACAM, que deve ser ­ perdão se não acertar ­ o Instituto Angolano de Cinema, Audiovisuais e Multimédia. Desconhecemos as suas pretensões reais, embora nos regozijamos da realização (anual?) de um Festival.

Ele precisaria: (a) criar empresários cinematógrafos: formar pessoas ou aproveitar aqueles que já são formados em gestão cultural ou cinematografia/dramaturgia. Esses empresários semi-independentes poderão ter o apoio institucional a partir do qual buscarão suportes financeiros, obedecendo inicialmente às orientações estatais (e tornar-se-ão independentes ao longo da experiência); (b) traçar suportes institucionais das modalidades da arte que diretamente intervêm no cinema, especialmente no turismo artístico. Se partimos, por exemplo, da Fortaleza de São Miguel, e outros "sítios comuns" dos séculos antigos (a sua requalificação como património) a rodagem de um filme sobre a Rainha Nzinga Mbandi nesses sítios engrandecerá o turismo cultural e será um meio de globalização "local angolano".

Face a esses aspetos ­ embora abordados com muitas imprecisões ­ parece-me normal que se fale da "cinematização angolana". Isto implicaria dizer que se está a corporificar um cinema à moda angolana, que se identifica como um produto diferenciado e referencialmente angolano.

É isso que me parece evidente, e pode servir de estímulo para um trabalho científico, de tese, quem sabe? Convém salientar que expresso estes pontos de vista de forma humilde com o propósito de buscar a contribuição da sociedade para o progresso dessa modalidade artística em Angola.

O voluntarismo e a "boa-vontade" são enormes entre os angolanos, e eu considero isso o combustível que levará o futuro "cinema angolano" aos extremos.

Com base nesses pontos, comparemos o caso do "cinema angolano". (i) há pouco aproveitamento e intervenção de pintura e escultura (ou arte em geral) porque, por um lado, não há instituições promocionais para o efeito e, por outro, os circuitos interligados local/global são escassos (o Festival angolano, por exemplo, é recente e ainda muito débil).

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