Compreender Heidegger na visão muntu-angolana

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Arte é só verdade (Wahrheit) quando acontece (Geschehen).

Isto é, arte e verdade são "coisas" que arrastam o passado no seu acontecimento. É obra de arte quando é cientificamente "coisa" (Sache): Beleza e Verdade.

Aliás, Martim Heidegger chama essa "coisa" "vivida" de Richtigkeit (correctude) quando atinge seu fim. Somente assim que se pode falar de Kunst (conhecimento, mestria, beleza).

Convém salientar nesse caso que arte/verdade e arte/beleza são complementares por facultar a criação (Geschaffensein) , e serem portadores parciais da idiossincrasia (sentido arménio) da arte.

O tempo histórico (mecânico) na execução da obra de arte transcende/ascende a vivência do executador, da mesma maneira que, as dimensões da verdade focada por uma "obra" ultrapassam a sua época e imortaliza Artista/Obra (elite).

Em princípio, mimesis é "Ser/Verdade". A existência se decompõe em preexistir natural e pós-existir natural. Se a arte é "obra" do artista e que uma existe em virtude de outro, o preexistir artístico e pós-existir artístico na visão muntu-angolana, seriam Existir/Verdade que contrapõe a materialidade.

Uma montanha que precede a existência do homem (preexistir), continuará a existir mesmo, por causa naturais (ou artificiais), venha a desaparecer depois. Será lembrado (pós-existir) nos mitos ou em metalinguagens ou geralmente em cosmónimos. Tal seria o caso das torres gémeas de World Trade Center em Nova Iorque, por exemplo.

A essência da arte, bila/yila/yika (causa, origem em muntu-angolano) é, se baseamos na literatura grega, parcialmente mimesis (-li/kili), sabendo de igual modo, que ociwa (arte) também é ­li/ovoli (Existir/Inverdade). Uma escultura de pegasso (Goodman, 2006:50-56) ou algumas personagens que os irmãos Grim irão defrontar por exemplo, partem de existir/inverdade que é pseudo-existir como suporte causador e consequenciador de cultura.

Neste aspecto, teremos seria li/lûngu (Existir/Verdade-Inverdade, em muntu-angolano) onde parecer realizar-se uma possível concretude, tendo em conta a substância semântica de existir (pré-existir, existir e pós-Oci/osi/nsi (terra, solo) tido como suporte mediático entre "mundo dos vivos" e "mundo dos antepassados" determina a "essência" da obra na sua relação com Existir (pré e pós-existir) consoante, por um lado, o ndûngu/lûngu e, por outro, de acordo com a pré-Destinação ditada pela harmonia do próprio Existir (pré-definida pela justaposição entre mundo dos vivos e mundo dos antepassados).

Technê (habilidade manual) de uma obra de arte é, para Heidegger, o resultado duma experiência anterior; essa experiência dá ênfase na "realidade material da obra" (das Dinghafte) que rivaliza o habitual da Natureza. Por isso, a obra de arte é Ungewöhnlich, quer dizer insólita, monstruosa porque expõe aquilo que não se vê ordinariamente.

Heidegger decretando arte como «Ser-criado», a sua inserção compreensível em muntu-angolano situar-se-á entre «(Ser)-pré-existido» e «(Ser)-pós-existente». Quer o criador quer a sua "Criação" existem materialmente; mas depois da classificação da obra, não será necessário que a sua existência seja condicionada pela matéria, uma vez que a sua "verdade" permanecerá além da existência do executor e da própria matéria executada, ou seja passam a ser «Ser-pós existente» independentemente do «Ser-criado» (obra) e o Artista (Serno-mundo): Mona Lisa pode eventualmente ser destruída materialmente (não esperemos por isso, na verdade), pois continuará a "existir" por causa da literatura copiosa que já tem.

É assim que arte, fundamentada a partir de alethéia, passa a ser, nas análises de Heidegger, uma Dichtung (poesia) com a inserção do terceiro elemento: observador que melhor é posicionado a "falar" dos dois primeiros, principalmente da essência da "obra".

Há poemas sem poesia da mesma forma que há evidência sem verdade; há expressão sem conteúdo do mesmo modo que há Ser sem existência. É dessa axiologia que Beleza e Verdade são exploradas na «obra da arte». Ao introduzir o terceiro elemento, Heidegger, decididamente, condiciona a completude do processo. Embora o seu objetivo fosse a «origem da obra de arte», tendo definido já o Ser o o Tempo, as suas análises esclarecem que arte/verdade coloca a beleza no "ideal vivida" (Hegel, 1993:67-76) e a "obra" é "Realidade vivente": Dichtung (Moosburger, 2007:47-51).

Eis uma das razões pela qual Heidegger não analisou a fundo os movimentos artísticos da sua época (expressionismo, cubismo, surrealismo, minimalismo) embora admirou a obra de Cézanne, namorou com "Abstracto" de Basque, sem esquecer-se da fascinação que o filósofo tinha na obra de P. Klee.

Publicou alguns textos a volta da obra de Chillida. (De Beisteigui, 2005:146). Por um lado, Dichtung se verificava em parte com as produções de Basque, Cézanne, P. Klee e Chillida, mas somente tendo em conta do "lugar" que a historicidade dava a essas obras. Tal foi o caminho para Platão, Aristóteles e muito mais tarde com Kant e Hegel. Dai a sua famosa equação Artista/Obra: Poesia (verdade).

Por outro lado, a essência (Wesen) dos movimentos limitava-se pela technê (habilidade material), de maneira que, ainda se procurava estabelecer o Handwerk, ou seja o pensamento manufaturado e sensato (Vernünftiger). No entanto, escrever a história presente ainda era, nessa época, uma anomalia cognoscitiva.

E acrescentamos que o valor ôntico e ontológico da arte/kunst/ociwa não mudou até hoje: sempre foi o mesmo onde existiu e existe.

Arte tem várias substâncias, mas vamos reter ociwa. Ociwa pode ser um existir natural assim como artificial (artístico). Isto é, essa arte, a priori natural, determina a cosmovivência dos "Seres" (na terminologia de Heidegger) com o "Ser" (na cosmogonia muntu-angolana). Isto é, o Sujeito heideggeriano por si e na sua localização na existência física ou féerica, é uma dependência às boas normas onde encontra a sua felicidade (a verdade tratar-se-ia das normas da socialização).

A leitura das análises de Martim Heidegger consoante um sistema metafísico muntu-angolano permite-nos estabelecer o dialogo diacrónico da arte na sua estrutura ôntica e a sua execução inerente a ontologia do Executor: arte começa-se pela «Ociwa» (pseudo-arte/tecnicista), passa depois por Omundunge (quase/similiarte: pensador) e por Onongo (erudição artística) e finalmente Ompako (arte per si ou criação per si).

Essa trajetória, tal como a tentamos explicar (Batsikama, Beleza muntu-angolana, manuscrito) explicita que, os muntuangolanos antes e depois da colonização, sempre souberam categorizar os fazedores da arte (artista, pseudo-artista e simili-artista). Nada justificaria que hoje chamemos todo praticante da modalidade da arte de artista. Sou apologista que devemos seguir o rigor classificatório, para não banalizar a arte que os angolanos contemporâneos estariam a fazer.


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