Corrupção e prosperidade na grande colmeia

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O autor da fábula das Abelhas, Bernard de Mandeville (1670-1733), advoga que, se a harmonia de uma partitura é uma combinação de resultados de sons diferentes e, às vezes, opostos entre si, do mesmo modo, uma sociedade, que ele compara ao enxame de abelhas – justamente por seguir caminhos diversificados – termina por se complementar.

Corrupção e prosperidade  na grande colmeia
Obra de Ana Vidigal ( Portugal)

Essa fábula dá amparo ao provérbio: não há mal que para o bem não venha. Para Mandeville, os benefícios públicos só provêm do mal, ou seja, dos vícios privados. Quanto mais cheios de vícios estejam os componentes de um grupo, maior será a prosperidade desse mesmo grupo. Os vícios particulares dão enorme contribuição para a felicidade pública e os mais corruptos ajudam ao bem comum. O egoísmo, a avareza, a hipocrisia contribuíram mais para o progresso do que a generosidade, a piedade ou o altruísmo. O vício é positivo, a virtude, negativa.
Obviamente, Mandeville recebeu críticas – destaque para Hume (iluminismo escocês 1711-1776) – mas, de certa forma, a obra contribuiu para fortalecimento de uma moral laica, livre da moral cristã.
Alguns autores, que se inclinavam a defender condutas contrárias à ortodoxia (Rousseau,
Montesquieu, Sade, etc.) também foram influenciados.
Voltemos às abelhas e partamos para a nossa realidade, amparada aqui em um quadro puramente ficcional. Somos muitos milhões de homens abelhas e, claro, formamos uma grande colmeia, com uma organização, a princípio, bem distinta dos insectos abelhas. No entanto, podemos dizer que, tal como numa colmeia, existem os homens abelhas-sociais, a grande maioria, e os homens-abelhas solitários, uma minoria que foge ao padrão. Ambos formam o contingente de homens-abelhas operários. Aqui, o homem abelha-rainha não necessariamente é uma mulher. Os operários trabalham duro, pagam impostos e geram o que chamamos na colmeia de a coisa. Além dos homens abelhas operários, há outras classes e subclasses, devidamente distribuídas nas esferas federais, estaduais e municipais da colmeia.
O homem abelha-rainha e essas classes e subclasses, que são eleitas pelos homens abelhas
operários, dedicam todo o seu tempo ao gerenciamento da coisa, que, de tão farta, consegue manter e dar prosperidade à colmeia e ainda enriquece ilicitamente a quase todos os que a gerenciam. Os homens abelhas operários sociais sabem de toda a traquinagem, mas também têm lá a sua porção vil. Cometem ilícitos menores, que, aos seus olhos, são pequenos demais para serem considerados como tal: subornam a abelha guarda da esquina, tentam fraudar concursos, prevaricam, fazem peculato, envolvem-se em concussão, transformam-se em vespas furiosas e assassinas diante de um simples jogo desportivo, etc. E, assim, em um mar de indulgências recíprocas, levam a vida.
Haveria alguma possibilidade de alteração dessa realidade? a pergunta que fariam a si mesmo os homens abelhas solitários, aqueles que não compartilham da safadeza vigorante. Sabem que a questão tem um complexo equacionamento e que depende de duas circunstâncias: a difícil regeneração dos homens abelhas-sociais, com a necessidade de várias gerações para que os hábitos culturais profundamente enraizados se alterassem, e as impossíveis mudanças de atitude do homem abelha-rainha e das classes e subclasses cada vez mais ávidas pela coisa.
Talvez o mais desanimador e desesperador esteja na possível degradação dos homens abelhas solitários, já que os princípios éticos que os regem podem sofrer a influência do comportamento social majoritariamente vigente. Para observador externo, a situação da colmeia é difícil e parece que a cada dia que passa seus habitantes descem mais um degrau para o inferno.
Mas, não se desespere agora, porque ainda pode ficar pior!

MARCO GUIMARÃES,

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