Cultura angolana ou internacionalização cultural

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Aiwé! A suku yange1 !
Aiwé! A suku yange!

“Esta cínica farsa de agora
Faz-nos rir
Ah! Faz-nos rir2 ”!

Cultura angolana ou internacionalização cultural
Os Kiezos Fotografia: Arquivo

Começo este texto com os dois significativos refrãos, contidos em duas músicas diferentes, em sabores e harmonias, até mesmo, por serem também de nacionalidades diferentes que fui ouvindo ao longo da madrugada de um dia qualquer de terça-feira, num programa, suponho de grande audiência virado para os nostálgicos, mas dirigido para os noctívagos cidadãos angolanos e estrangeiros, dos inúmeros de radiouvintes das diferentes rádios angolanas.
De facto, é um programa maravilhoso e bonito demais para se deixar passar sem que tenha sido objecto de um comentário benfazejo, só que do ponto de vista conceptual, peca (meu julgamento) pelos conteúdos musicais expressos, o que me parece, que outro título se lhe assentasse melhor. Assim, sugestivamente, “Recordar é Viver”, como afirma o Afonso Quintas, em um dos seus belíssimos programas de música internacional antiga, nas programações aos sábados a tarde, recordando o que se fazia no tempo colonial com um programa semelhante “O quê que você vai fazer, Domingo a tarde3 ”?
Foram mais ou menos 30 trinta de musicas estrangeiras, tocadas em cada espaço de 12 músicas “universais” e, interpretadas por um leque de conceituados de artistas brasileiros, de acordo com a ordem da sua precedência, franceses, argentinos, cubanos e de outras nacionalidades, que me conduziram para a lembrança de um velho bom gosto cultural que era muito usado no tempo colonial em que um grupo de artistas angolanos daquele tempo, em busca de espaço para as suas representações artísticas, procurava na altura confundir o mercado luandense da música internacional, baseando-se na alegada ideia de que com elas se serviam para a promoção da denominada aculturação e para a valorização dos artistas angolanos dos musekes. Por essa razão, o seu domínio interpretativo para mostrar aos brancos que nós também sabíamos cantar daquele modo e se calhar com mais perfeição.
Lembremo-nos do João Arsénio, Tino Catela, o Espírito Santo, Vum Vum, Sabú Guimarães, Milita, Mizé Costa e eu próprio, dentre outros. Com a imitação interpretativa das músicas desses correligionários desse nosso antigo tempo, em que a rádio colonial e outras que existiam no território de Angola só promoviam as músicas de seu interesse e para consumo da sua estabilidade emocional, os artistas angolanos, também, se dividiam entre os artistas da cidade do asfalto e os artistas dos musekes ou dos subúrbios. Estes exploravam esses mesmos gostos, só que, com uma grande diferença. Quando passamos a gravar as músicas angolanas com os sabores das corruptelas4 assentes nas linhas melódicas dos artistas estrangeiros deixávamos intrinsecamente presentes as marcas das suas identidades de origem. Vejamos as contribuições deixadas pelo Urbano de Castro, David Zé, António dos Santos, Calabeto, de entre alguns outros, cujas marcas identitárias estão bem reconhecidas nos trabalhos dos seus autores originais.
De facto, faz-me perceber, para não me esquecer que, naquela altura, muitos dos artistas angolanos que cantavam as músicas que reflicto nesta exposição, procuravam afirmar-se naquele difícil mercado colonial da música e do canto em português, para conquistar o seu espaço, discutido também, no âmbito e no quadro da sua luta como contribuição pela nossa emancipação nacional e, não apenas como cantor individual em caça de estímulos, como hoje se confundem tentativas de inovações musicais com corruptelas abertamente enganosas em matéria de criação, porquanto, cada conquista de mercado alcançada por cada um de nós era vitoriada por todos os angolanos, de um modo geral, até mesmo nos mais recônditos cantos do país, ainda colónia. Era sentida como uma vitória de todos os angolanos.
Pelo menos era assim, naquele tempo, se ninguém ainda hoje percebeu! Era sim, uma conquista individual, onde alguns artistas de origem angolana, referenciáveis, se firmaram, mas nunca como defensores da música angolana autentica, onde, nas quais se poderiam identificar como tais. Era um dado tempo da nossa história, nos anos de 1956 aos anos de 1960, em que nos areópagos internacionais da musica internacional, apenas o Duo ou Trio Ouro Negro se propuseram como tal e, também respondendo aos interesses da propaganda do regime colonial que sabia muito bem o que bem queria e como se impor no mundo dos sistemas de dominação das potencias coloniais sobre os povos subjugados.
Voltando ao assunto que me propus abordar, num conjunto de 30 músicas “universais”, separadas apenas por 2 músicas angolanas, de entre um espaço de 10 estrangeiras de cada vez, competem 24 músicas estrangeiras contra 6 angolanas, proporcionalmente tocadas nessa madrugada. Me parece um combate artístico lisonjeiro e conceptualmente desinteligente, desleal e grotesco, num espaço que se pretende de reconquista da nossa cultura identitária, independentemente da importância que a língua portuguesa usufrui no nosso espaço geográfico.
Estarei enganado, se eu disser que naquele tempo nem todos os angolanos gostavam dessas 24 músicas que tocaram nessa madrugada. Agora, até mesmo, porque os actuais radiouvintes, segundo o censo populacional oficial, são jovens e naquela altura muitos desses jovens não estavam nascidos. Se é só mesmo para tomarem conhecimento, não se devem confundir objectivos nacionais com os estrangeirismos individuais.
Estarei, por outro lado enganando, se eu disser, que também não fui um dos promotores, enquanto interprete dessas 24 musicas que tocaram nessa madrugada que analiso, a quando da minha passagem durante frutuosos anos de participação pelos diferentes conjuntos musicais angolanos, que eram no seu conceito, conjuntos de musica angolana de raiz africana e as tocávamos, apenas, como separadores, precisamente, utilizando-as nos espaços entre as muitas músicas angolanas que preenchiam os reportórios dos referenciados conjuntos desse tempo com a satisfação das suas promoções para a sua divulgação nos bailes em que os nossos conjuntos tocavam e bem para variar o som e o gosto dos pares que dançavam em alternativa, e muitas vezes, como obrigação para responder as solicitações de algum cavalheiro mais exigente.
Não eram esses Conjuntos de Ritmos Modernos, a semelhança dos The Rollings Stones, nem dos Beatles, mas, eram Conjuntos de Música Angolana, Os Kiesus, Os Águias Reais, o África Show, o Ngoma Jazz, o Muzangola, o Super Koba e o Cabinda Ritmos, dentre outros, os que a memória colectiva não esquecerá nunca, como eram a semelhança do Bantu de La Capitalle da República do Congo Brazzaville, do TP OK. JAZZ da República Democrática do Congo, então Zaire, da Voz Di Cabo Verde, dos lembrados músicos Luís de Morais, Bana e Djosinha e de outras referências que o mundo africano da música nos ofereceu, proporcionou e deles a África não se esquecerá nunca. Isto, para não nos lembrarmos evidentemente da contribuição multifacetada dos artistas que trouxeram Angola para a independência nacional, alcançada a 11 de Novembro de 1975 e cujas obras musicais ilustram muito bem a conservação e a preservação da nossa identidade cultural para alimento do Património Cultural de Angola como um país.
A nostalgia circunspecta com as músicas expostas nessa madrugada a que me aludo, nesse lúdico programa de todas as Terças-feiras, cuja “cínica farsa faz-nos rir”, pois, expressa o conteúdo cínico de um vasto programa para o mercado da música angolana do momento e que se empregava bastante para o preenchimento dos programas que também já se usava no tempo colonial e que influenciaram a mentalidade de alguns sectores da vasta comunidade de angolanos que nunca gostaram da musica angolana de raiz africana, por conceberem-na como uma música gentílica e exótica, apenas agradável e oportuna para inglês ver e, que servia apenas para chamar a atenção dos utopistas portugueses na hora da sua necessidade, quando se colocava o interesse de a representar como unidade de identidade gentílica do território, perante os falsários nos areópagos discursivos das Nações Unidas ou em outros da Eurásia, sempre em defesa dos seus interesses coloniais.
Então, e para não me tornar fastidioso nesta minha primeira alocução sobre o assunto, resta perguntar-me:
-Será que com esse conteúdo musical se está expondo para contribuir também para o espectro falacioso e tão propalado “resgate de valores” que o momento vem exigindo nos programas das rádios em Angola, e noutros diferentes meios de comunicação?
- Será, também, com esse conteúdo musical que Angola verá os seus aborígenes se alimentarem das culturas dos seus ancestrais?
- Será, também, com essa pseudo-nostalgia que os músicos angolanos de raiz, cuja identidade nunca lhes poderá ser negada, porque em si reflecte o usufruto das suas conquistas duramente alcançadas ao longo das duras lutas de Libertação Nacional e das guerras contras as tentativas de ocupação imperialistas nos últimos anos do século XX, se enraizarão como produtores, como promotores artístico e culturais para a sua contribuição ao mercado mundial da musica, no âmbito da inquestionável globalização que nos assola? Ou se firmarão, como vem acontecendo, nos inimagináveis corrupteladores das criações de outras nacionalidades, que os angolanos de um modo geral, ouvem tardiamente, mas, pelas instalações representativas dos shows se lhes atribuem ouro, jasmim, incenso e mirra.
- Quem afinal tem que fazer o resgate de valores?
- Será mesmo o Povo Angolano, em toda a sua dimensão? A fazer o resgate de valores? Ou para o uso dos princípios da sua cidadania? Ou, será uma minoria de cidadãos, que fruto da sua ausência temporária, ou extemporânea, regressa e pretende hoje impor seu legado colonial aos demais correligionários, uns até ocasionalmente nascidos em diferentes lugares deste portentoso país.
Eu penso que muitos como eu e outros mais influentes não perderam as suas raízes, pois possuímos as características que se reflectem em outros cidadãos, mesmo comparadas com a natureza da diversidade cultural de cada um dos cidadãos angolanos de origem.
Todos os angolanos têm os mesmos hábitos e costumes, valores que têm sido exaltados pelos diferentes, mas aturados discursos em que se fazem referencias aos aspectos da nossa identidade.
Todos se expressam nas diferentes línguas nacionais, independentemente da variedade linguística existente em cada um dos recantos étnicos do nosso belo país.
Todos vestem-se de igual modo, variando de acordo com as particularidades das suas regiões! Mas, também aprendemos todos a vestirmo-nos a moda da Europa, uma imposição que grassa pelo mundo como a maior conquista civilizacional da história da ocidentalização da indumentária.
Claro que, atendendo aos níveis de desenvolvimento sócio culturais atingidos por diversos extractos das sociedades que compõem as nossas comunidades, em Angola, nem todos mais, se sentam no chão, salvo para a concretização dos rituais sincréticos, realidade de cada grupo étnico nacional; nem todos mais comem com as mãos directamente ligadas aos géneros alimentícios, porque uma boa maioria faz uso dos utensílios convencionais disponíveis para esse efeito. Mas, devemos respeitar o modo comunitário de convivência dos nossos mais velhos, reflectores das nossas identidades, até porque na África de que somos povos de origem temos vários representantes das culturas endógenas que comem com as mãos, sentam-se nas esteiras ou no chão para satisfação dos seus modos de estar e de ser, representando o modo cultural do seu bem estar social e cultural.
Agora, os que não sabem ser cultura, esses sim. Nem todos mais, têm o hábito multissecular de cumprimentar o seu semelhante, como uma maneira de considerar o seu próximo com respeito e como valorização que merece do seu concidadão, porque ele faz uso do variável poder de uso dos bens disponíveis para humilhar o seu semelhante, de entre outras atoardas que as sociedades de consumo arbitrário criam e muito mal distribuem.
Até faltam para com o respeito aos mais velhos. Dizem mesmo que aos mais velhos, só já lhes falta o caixão. Outros dizem até, que aos velhos de sessenta anos não se lhes deve dar empréstimo bancário porque ele já não tem idade nem condições para cumprir esse desiderato. Que aberração!
Mas, nunca dizem, que deviam ser eles a ofertarem o préstito fúnebre para honrarem a memoria dos mais velhos, seus pais ou mães, pelo acumulo legado que eles não construíram e que o recebem de mãos beijadas como herança distribuída por injustiças na distribuição que o poder, nem sempre familiar, instituí e definiu como que para destruição do seu próprio e pacato concidadão.
Será com esse conteúdo temático, melodioso, estético que a sociedade em Angola, de um modo geral, contribuirá para a afirmação da idiossincrasia cultural angolana, para a formação artística, estético e musical dos artistas angolanos que integrarão as futuras gerações?

Ai! A suku yange!
Cantava no momento, numa fusão linguística, em valores da sua língua materna o Umbundu misturado com o português, língua da sua assimilação, o cantor angolano Carlos Albano, meu conterrâneo, natural de Benguela, apelando de facto a “Deus para que retorne a terra” e faça juízo dessa ironizante ideia “de termos mesmo que esperar para que a vida possa melhorar”, porque, senão é melhor que “nos encontremos já lá mesmo só no céu, “porque a vida na terra faz-nos rir”, com essa hipocrisia permanente de se quer dizer que “o angolano não sabe o que quer”.
Devemos então concluir que é preciso acabar com esta cínica farsa de agora, do uso constante da necessidade dos “resgates dos valores” quando são os próprios programas dos meios de comunicação que iludindo a imagem do bom gosto alheio, mantém o discurso lamurioso das nostalgias, mesmo depois “de 40 anos de independência”, com conceitos mal aplicados aos nossos ouvidos, de igual modo, como se quer fazer passar a ideia dos gostos nostálgicos pelos ideólogos de tão nefasta nostalgia musical. Porquê, não aplicar o princípio reitor do preenchimento dos programas musicais com a máxima legada pelo cantor angolano da nova vaga “É angolano, é nosso e eu gosto” André Mingas5 , me perdoem o erro se não soube copiar bem esse seu lema.
Como nos lembrar dos nossos heróis? Ao menos, nas escolas, e do ponto de vista patriótico.
No céu, eu já sei! Vou entrar numa grande equipa de futebol.

1- Musica do Carlos Albano, Cantor angolano e natural de Benguela. Uma referencia do musicall nacional.
2- Musica da Carmélia Alves, Cantora Brasileira do século XX. Uma precursora da música brasileira, o Baião.
3- Música do cantor brasileiro Nelson Ned.
4- Estrangeirismo. Uma gíria do mercado popular que significa mal copiar ou então corruptela mal digirida.
5- Cantor angolano da nova geração.

Luanda ao 29 de Dezembro de 2015

XIKwambi da Costa

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