Das mãos do Altíssimo: O indizível

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Durante a viagem de autocarro, de Benguela a Luanda e vice-versa, o meu querido amigo ficou maravilhado com o que viu. A natureza é para os olhos de quem viaja, o recetáculo de segredos e de maravilhas indescritíveis das mãos do Altíssimo. O bendito Suku Yetu de todos os dias.

Das mãos do Altíssimo

É ela, a ordenadora de números, de tábuas de cálculos e reguladora de cadências que tocam o universo que se sente e se apodera e se transforma, construindo para si uma física e uma química de ambiências que sempre se consolidam no corpus do divino, imponderável.

Nesta lógica da visão, nas viagens, tudo é possível, sentenciou o meu amigo, silenciosamente observando, ouvindo tudo - De entre os passageiros, ouviu a voz de uma senhora, pelo sotaque, lhe pareceu ser do Lubango e confidenciou a sua companheira de viagem ­ eh! eu agora não como mais banana, porque quando como, o meu coração, bate tuc-tuc e bate muito.

Deve ser da tensão alta. Eu gostava muito, logo de manhã ­ comia sempre uma ou mais bananas. E o meu marido me dava da grossa, sem pintinhas!...

Segundo o comentário do meu amigo, devia-se ao facto de, nestes domínios, as grandezas serem mais delicadas e as vezes mais sensíveis ­ as mulheres na vida dos lares é que comandam tudo, mesmo quando o marido é que trabalha e mensalmente larga a massa, a mulher é quem dita as regras reais da casa.

Stephane Sarkany, na obra 'Teoria da Literatura', dizia: "podemos descrever o discurso social com base num diálogo de Marc Angenot e Regine Robin: são rasgos de uma torrente de palavras pronunciadas, ouvidas, escritas, repetidas, de lugares-comuns efémeros, característicos de uma constelação espaço temporal da sociedade global cujos aspetos exteriores se diversificam e podem, inclusive entrar em conflito." Em conformidade com o seu amigo, o querido amigo do meu amigo: o discurso social é o que se diz.

Compõe-se de sistemas de valores enunciados, hegemónicos de vestígios de outros sistemas de valores herdados do passado e de deformações expressivas autossuficientes.

A eficácia deste discurso imprime - se na escuta e constrói um código ao qual os locutores se referem expressivamente ou por alusão. E ainda Marc Angenot: "Embora o discurso social constitua uma capa muito geral, os seus aspetos exteriores diversificados permitem distinguir subconjuntos onde funcionam também tendências hegemónicas, mas que não são impermeáveis, antes pelo contrário , existe «interação generalizada» e acrescenta que, a descompartimentação através da escolarização e da formação extraescolar (os meios de comunicação social, etc.) acompanha e apoia, simultaneamente, esta interação discursiva, o que não contribui par reunificar o campo de leitura dos vários tipo de leitores.

Nem neutraliza o reservatório de imagens ou de expressividade dos escritores, antes pelo contrário, produz aproximações, acessibilidades, entrecruzamentos cada vez mas numerosos." E o amigo concentrado, na mesa de leitura, asseverou: "como Bakhtine defendeu, o discurso social, as suas origens ou os seus corolários, não têm nada a ver com as próprias línguas e não são inferidos de modelos linguísticos.

O discurso social funciona «exteriormente às consciências individuais» (Durkeim). Ele, não é concomitante com uma classe ou grupo, ou com um estrato social. A sua hegemonia situa-se no plano cultural, é discursiva. O luxo do discurso hegemónico controla o indizível ­ o que não podemos evitar, pois o indizível não se ouve.

E assim, como acima dizia o meu amigo ao seu querido amigo ­ a senhora do Lubango, sua companheira de viagem, desde a cidade municipal do Lobito, que, ansiosa, queria chegar a Luanda pela primeira vez, e assim agora estamos aonde?, a outra senhora respondeu na Barra do Kwanza. Aka!...a ponte é assim!... é grande, e o rio também; estamos quase a chegar!... A essa hora a noite, não sei como vai ser!... Afinal aqui se paga? Os "carro", para passar na ponte, afinal pagam !?... Oko!... Todavia, existe um contradiscurso, um verdadeiro desafio à hegemonia. Tomando por base o discurso social, tanto se lhe opõe após o ter tornado consciente, como o afasta e o substitui. È polémico ou não conforme.

Enquanto a sua cara metade ressonava, às duas horas da matina, no quarto do Hotel Fénix ­ Tuela, o meu amigo terminava, assim, de escreviler feliz e assinar o seu texto do contradiscurso.

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