Diáspora respigo da idiossincrasia angolana

Envie este artigo por email

A definição do ser angolano implica, inexoravelmente, o reconhecimento da contribuição das históricas vicissitudes experienciadas pelos angolanos, para aquilo que nós somos: povo com características peculiares.

Diáspora respigo da idiossincrasia angolana
Escultura de Mangongo Fotografia: Jornal Cultura

Atentemos que a idiossincrasia que hoje evidenciamos começou a ser burilada no espírito guerreiro da ancestralmonarquia (de que NgolaKiluanji, NzingaBandi e Lueji são figuras arquétipas). Posteriormente, a nossa génese foi temperada pela convivência secular com o povo português. Na contemporaneidade, iniciada com a fase pós-independência, apresentamos uma mescla de temperamento, costumes, valores e tendências que é o repositório das metamorfoses pelas quais os angolenses passaram.
Assim, das multifacetadas peripécias vivenciadas por milhões de angolanos, no decurso da sua História, propomo-nos abordar a diáspora, por nos parecer incontornável nesse percurso identitário.
Nesta conformidade, a odisseia, a seguir narrada, relata a quebra de uma vivência harmoniosa pelo êxodo populacional ocorrido na segunda metade da década de setenta.
É um tempo de alegria infantil, angústia adulta e de amargura e choro para muitas famílias aqui residentes.

UMA VIDA COMUM
A vida dos filhos do casal Sousa segue o ritmo de outrora: Jaburu e Zezinha já a trabalhar, e os restantes a estudar; Gininho, Índio e Natalício na Escola Preparatória João Crisóstomo, Tozé e Quelinha numa Escola Primária perto de casa. É uma vida comumà da maioria das famílias luandenses: durante a semana, os filhos estudam e, aos fins-de-semana, frequentam a catequese, assistem à missa, vão à praia, ao cinema ou dar um passeio com os respectivos encarregados de educação.
Para comemorar as respectivas passagens do ano lectivo, Natalício e os irmãos combinam uma ida às Piscinas de Alvalade. Depois de realizadas as obrigatórias tarefas domésticas, preparam o lanche.
Chegados à estância balnear, os irmãos mais velhos acantonam-se na zona destinada aos adultos, ordenando ao mais novo que se banhe no espaço dedicado aos infantis.
- Porquê que eu tenho que ficar afastado de vocês? - Pergunta, revelando não contar com esta confrangedora determinação.
Direccionando a sua atenção para as pranchas, os manos não lhe respondem, e aquele caminha para o destino ordenado, contrariado.
De longe, Natalício observa os mergulhos dos manos crescidos, enquanto chapinha com outros meninos ainda mais novos.
- Também quero tomar banho aqui! – Diz Natalício, em voz alta, aos irmãos, enquanto observa, de perto, as suas acrobacias.
- Não podes ficar connosco porque tu ainda não sabes nadar, e este lado é fundo! – Dispara o Índio, ao preparar mais um salto.
- Mas daquele lado só tem bebés!
- Vai prò sítio que te indicamos e não nos arranjes problemas! – Sentencia, profeticamente, o Jaburu, saído das profundezas da apetecível água.
- Não quero! Vou sentar-me aqui, nas escadas, e só molho os pés!
- Então segura-te bem para não caíres para a água! – Apazigua o Gininho, depois de ter nadado em todo o comprimento da piscina.
Dando o assunto como encerrado, Jaburu, Gininho e Índio vão disputando perícias de mergulhadores.
A dado momento, Jaburu, alertado pela responsabilidade constante e inerente à sua condição de comandante, pergunta:
- Onde está o Natalício?
Repentina e simultaneamente, os irmãos olham para a toalha do desaparecido, deixada desleixadamente na berma da piscina. Instintivamente, mergulham para o fundo da azulada água.
- Não o encontrei! – Diz o Índio, emergindo para respirar.
- Eu também não! – Responde o ­Gininho, depois de ter procurado, a nado, em torno da piscina.
Nisso, ambos os irmãos também deixam de ver o mano mais velho, o que lhes aumenta a angústia.
Uns segundos depois, Gininho e Índio, já sem saberem o que fazer, observam o Jaburu a trepar os degraus da escada com o mano mais novo debaixo do sovaco do braço esquerdo!
Estendem-no, ao comprido, na toalha, e repetem a operação de retirada da água do estômago, efectuada em 1969, no episódio das mabangas, na praia da Corimba!

ÊXODO
Nesse ano de 1975, confrangidas pela convulsão social iminente, milhares de famílias abandonam o país, refugiando-se em destinos díspares, como Portugal. O êxodo é realizado de automóvel para a Namíbia e África do Sul, por exemplo; por barco ou por meio de uma ponte aérea criada para esse propósito.
Os que viajavam de avião, permaneciam acantonados no aeroporto, durante alguns dias, esperando pela vez para o ansiado embarque. Os voluntários da Cruz Vermelha Portuguesa desdobravam-se na distribuição de mantas cinzentas, que iam servindo de colchão sobre as lajes frias dos corredores.
No espaço de jurisdição do aeroporto, reinava um clima de absoluta insegurança!
Assim se encontrava Dona Lurdes, com cinco dos sete filhos. O pai Zé visitava-os, ao fim do dia, para indagar necessidades e refrear temores.
Cada passageiro apenas tinha direito a transportar vinte quilos, pelo que o peso remanescente seguia via marítima, sem a certeza de o receberem numa terra que era totalmente desconhecida para a maioria dos refugiados.
O êxodo de milhões de pessoas constituiu, de facto, uma odisseia prenhe de dor, incerteza e determinação.
Dentro do “barriga-de-jinguba”, da Força Aérea Portuguesa, Natalício vence os irmãos na disputa por um lugar perto de uma das poucas e minúsculas janelas!
Junto à sua, empreende viagem outra família angolana composta pela mãe e dois filhotes. Inicialmente, a jovem mãe senta-se no lugar do meio, certamente, para aplacar as habituais e, por isso, previsíveis traquinices entre os irmãos. A previsão revelou-se acertada quando o filho mais novo, assentado numa das pontas da correnteza de bancos, começou a reivindicar o banco junto à janela! Perante a insistência deste e a recusa do mais velho em ceder o seu apreciado lugar, a paciente progenitora troca de bancos com o benjamim, ficando, desta forma, os dois manos juntos, e perto de Natalício.
Resolvida a contenda dos lugares, começa a bateria de perguntas:
- Mamã, quando é que o avião começa a andar? Porque é que as pessoas todas estão a apertar os cintos?
- Cala-te, Chiquinho! Estás a incomodar os outros passageiros!
Entretanto, o pequeno Natalício, apercebendo-se da similaridade entre as duas famílias, aguarda por uma oportunidade para encetar conversa com o potencial amigo.
Em pleno trajecto de descolagem, ouve-se o brado do Chiquinho:
- Lá em baixo os carros parecem formiguinhas!
- E as motas quase que não se vêem! – Acrescenta Natalício, recebendo do companheiro de lugar um aceno de aprovação.
A manhã está linda. O avião segue a sua rota pacificamente, ensanduichado entre duas camadas de flocos de nuvens brancas.
Após uma breve pausa, provavelmente para municionar mentalmente as infinitas questões, Chiquinho volta à carga:
- Qual é maior: Angola ou Portugal?
- É Angola! – Responde garbosa e apressadamente Natalício, deixando antever conversas havidas no lar antes da viagem.
Os restantes passageiros vão-se levantando, uns para conversarem com familiares ou amigos afastados dos seus lugares, outros para engrossarem a fila para a rudimentar toilette.
- Mãe, o avião vai descer em Portugal ou em Lisboa? – Pergunta Natalício, enquanto observa os seus manos conversando entre si.
- As duas coisas estão certas, filho! Lisboa é a capital de Portugal.
- Capital? O que é isso?! – Questiona, franzindo a testa.
- Qual é a cidade mais importante de Angola? – Interpela a adulta, pedagógica e maternalmente.
- É Luanda! – Responde celeremente Natalício, recordando-se do comprido ponteiro com que a professora ensinava geografia.
- Pois, então, a cidade mais importante de Portugal chama-se Lisboa!
- Eu pensava que Portugal era Lisboa e que Lisboa era Portugal!
- Pensa na nossa casa que acabamos de deixar em Luanda. Só tem uma sala ou também tem quartos?
- A nossa casa ébué da grande – contando pelos dedos - tem uma sala, o quarto dos rapazes, o quarto das meninas, uma varanda e, no quintal, está a cozinha, tem plantas e é onde dorme o nosso cão!
- Então, faz de conta que a nossa casa é um país, e que tem o nome de Portugal. Está bem?
- Sim!
- Vamos fazer de conta que a sala, cada um dos quartos, a cozinha, a varanda e o quintal da casa são as várias cidades que estão dentro de Portugal!
- Quer dizer que o avião vai parar na parte da casa que se chama Lisboa?
- Acertaste! – Explode emotivamente a mãe Lurdes, por ter ajudado o filhote a arrumar geograficamente a mente.
Em Portugal, as manhãs de Outubro costumam acordar frias e nubladas. Foi este cenário com que os passageiros se confrontaram ao pisar o solo lisboeta.
A situação de angústia e desconforto vividos, nos últimos dias, no Aeroporto de Luanda, perpetuaram-se no Aeroporto da Portela.
O espaço estava permanentemente pejado de pessoas, deambulando de um lado para outro, constantemente à procura de alguém ou de alguma coisa; os recém-chegados espraiavam-se, por nichos familiares, sentados ou deitados no chão dos largos corredores; de vez em quando, os altifalantes procuravam pelo paradeiro dos familiares de alguma criança.
Além disso, três preocupações fustigavam os chefes de família: o achamento das suas malas; a troca de moeda e o local de destino para a sua família.
A bagagem que acompanhara os passageiros fora depositada num enorme hangar, arrumada sem qualquer critério nem organização! Quem se deslocasse ao armazém, para resgatar os seus pertences, deparava-se com uma confusão babilónica!
Após buscas esforçadas, demoradas e dolorosas, Dona Lurdes achou as suas, tendo contado com o auxílio precioso dos filhos Gininho e Índio.
Depois de se vencerem as intermináveis, e ruidosas, filas, a troca de dinheiro era feita, no aeroporto, cujo máximo trocável variava de acordo com o agregado familiar, que era comprovado pela apresentação da Guia de Desembaraço!

RETORNADOS
A terceira etapa implicava suportar filas igualmente compridas e barulhentas, para aceitação do local de acolhimento. Natalício e os irmãos revezavam-se na fileira, sob supervisão da mãe.
Ao fim de três dias de acantonamento, Dona Lurdes escolheu o Complexo Turístico da Torralta, em Tróia, aconselhada pelo retornado Pina, que conhecera quando este fazia parte da polícia montada que empreendia rusgas ao Bairro do Golf.
Economicamente, a chegada de retornados e desalojados a Portugal constituiu uma “injecção de capital” nos sectores de hotelaria e de restauração que se encontravam em agonia financeira.
É nesta conjuntura que se insere o alojamento dos recém-chegados em hotéis e estâncias turísticas como, por exemplo, o Hotel Esperança, em Setúbal e o resort em Tróia.
Esta península estabelece ligação, por terra, entre as diversas praias de Tróia e as localidades limítrofes: Comporta, Melides, Carvalhais e, mais distante, a revolucionária Grândola, todas pertencentes à costa vicentina alentejana.
Tróia goza da agradável peculiaridade de constituir um espaço híbrido de natureza primitiva e de respigos de cidade. Com efeito, a presença massiva de arvoredo, quer em forma de árvores frondosas quer por meio de arbustos, é secundada pela permanente, e finíssima, areia branca, espalhada por toda a extensão da península, espraiando-se até às margens do Oceano Atlântico por um lado, e do Rio Sado, do lado da cidade bocagiana.
A existência circundante de água salgada atenuou o impacto social da vivência nesta terra de exílio, porquanto os filhos da Dona Lurdes chegavam habituados às praias luandinas, fazendo, por isso, romarias diárias ao mar troiano. Porém, esses passeios marítimos deixavam a senhora em permanente aflição, numa fase da vida em que se encontrava só, sem o apoio dos filhos maiores nem do marido, permanecidos em Luanda.
Periodicamente, os chefes de famílias deslocavam-se aos serviços do Instituto de Apoio aos Retornados Nacionais (IARN), em Lisboa, a fim de tratarem de assuntos multifacetados, como a comparticipação em despesas com a saúde e pedido de transferência para locais de acolhimento para onde foram enviados os seus parentes - separados à chegada a Lisboa.
Numa manhã, após ter suportado, ao relento, a dureza da comprida fila, durante três dias seguidos, um senhor diz à Dona Lurdes:
- Por favor, guarde o meu lugar, que eu vou só dar um saltinho a um café para comprar alguma coisa, pois desde ontem que não como nada!
- Mas não se demore, porque o funcionário já deve estar a chegar para actualizar a lista dos nomes daqueles que estão nos primeiros lugares da fila! – Avisa, prudentemente, a desalojada vinda de Tróia, enquanto ajeita o pedaço de papelão onde está sentada.
- Não, não me demoro. Vou trazer o farnel embrulhado para regressar mais depressa! – Esclarece já em andamento.
Todavia, ainda não tinham decorrido três minutos desde que o senhor se ausentara, um funcionário, de aspecto grave e sério, aparece e faz o levantamento das primeiras dezenas de pessoas presentes na frente da fila.
Dona Lurdes já está a ser atendida, quando o faminto senhor chega, mas apercebe-se da indicação do severo funcionário de que o desalojado deve voltar para o fim da fila e aguardar a vez para ser atendido, o que pressupõe permanecer em Lisboa para mais dias de angústia!
Nessa época, a população portuguesa encarava de modo diferente os dois tipos de pessoas vindas das ex-colónias. Os portugueses, nunca saídos de Portugal, eram cáusticos para com os seus conterrâneos – os autênticos retornados - a quem acusavam de terem fugido de África, depois de terem explorado e molestado os pretos durante anos a fio.
Comparativa e paradoxalmente, os lusitanos tendiam a relacionar-se com os desalojados com maior complacência, sensibilizados com a contingência de estes terem sido afugentados por uma guerra fratricida.
Outra diferença gritante entre retornados e refugiados teve que ver com o facto de muitos dos primeiros terem encontrado algum tipo de apoio nos familiares que permaneceram em Portugal, enquanto os desalojados se viram confrontados com a amargura de recomeçar “do zero” num país estranho, que apenas conheciam por metrópole!

BARROTE QUEIMADO!
Paralelamente aos adultos, as crianças, adolescentes e jovens desalojados também se viam confrontados com obstáculos sociais que, com o tempo, foram aprendendo a vencer ou a contornar.
Nos primeiros anos de frequência escolar, com início em Outubro de 1975, a miudagem desalojada era constantemente molestada pelos colegas portugueses, com insultos do género: «Escarumba!»; «Barrote queimado!»; «Preto da Guiné lava a cara com café!»; «Vai pra tua terra!». Essa discriminação infantil chegava ao ponto de muitos estudantes portugueses fazerem deslizar as mãos na derme dos colegas desalojados, e agarrar-lhes os dedos para, inspeccionando as unhas, se certificarem das semelhanças entre os corpos!
Certo dia, Natalício – então com 13 anos – jogava futebol com os demais colegas da turma, no campo pelado da escola. A dado momento, magoou-se, pelo que começou a sair sangue da fresca ferida. O jogo parou imediatamente porque os jogadores portugueses correm para junto de Natalício, não para lhe prestarem auxílio imediato, mas para espreitarem se o sangue do colega magoado era semelhante ao deles!
Atente-se que nem todas as famílias recém-chegadas à metrópole tinham estrutura para apoiar os filhos quando estes chegavam a casa desanimados pelas agruras por que passavam na escola, pelo que muitos adolescentes africanos acabavam por abandonar a formação académica.
Algumas das barreiras sociais com que muitos jovens desalojados se debatiam tinham que ver com a resistência de algumas famílias portuguesas em aceitá-los como namorados, ou namoradas, dos seus filhos; e de alguns patrões em contratá-los num período de vida em que aqueles procuravam o primeiro emprego.
Por outro lado, grande parte do aglomerado residente em Tróia conservou a índole angolana da religiosidade. Por causa disso, os adultos, particularmente as senhoras, sentiam a consternação de a estância turística não dispor de um espaço para o culto tradicional.
Nesse contexto, a comissão de moradores, composta maioritariamente por funcionários adidos à administração portuguesa, solicita o reclamado recinto à administração da Torralta.
Rapidamente é disponibilizada a cave de uma das torres próximas do cais fluvial. Porém, tendo-se conservada permanentemente fechada, desde a sua construção, o espaço apresenta-se negligentemente imundo de pó e pejado de pulgas e outros repugnantes parasitas!
Decidida e concertadamente, Dona Lurdes, algumas senhoras, e o pequeno Natalício, lavaram e alindaram o recinto, transformando-o num acolhedor e propício local para oração!
Então, o cinquentão, calvo e carismático pároco passou a vir da freguesia da Comporta para celebrar a missa dominical e, periodicamente, projectar filmes infantis, como o Bambi, que faziam a alegria da criançada desalojada. Durante o mês mariano de Maio, as senhoras aí recitavam o terço.
Actualmente, a capela subsiste, com a diferença de que, desde há uns anos a esta parte, o local de culto ganhou uma tabuleta em que a palavra CAPELA está escrita, igualmente, em língua estrangeira!

MARCA DA ANGOLANIDADE
Saídos, em 1977, desta península para destinos díspares, permanece em nós o orgulho de termos perpetuado naquele pedaço do mundo a marca da nossa angolanidade.
A odisseia vivida por incontáveis famílias angolanas na diáspora constitui um dos imprescindíveis ingredientes para a confecção deste manjar que é a identidade angolana hodierna.
Nesta medida, qualquer tentativa de definição do ser angolano tem de ter em conta não só o vivenciado pelos angolanos intramuros, mas também o vivido pelos conterrâneos no estrangeiro.
Reparemos que os residentes fora do território nacional, por razões incomensuráveis, nomeadamente, os compromissos profissionais, a formação académica e a aculturação ao país de acolhimento, quando regressados, trazem aprendizagens de diversa ordem que, colocados ao serviço da nação angolana, influenciam a sua idiossincrasia.
Foi imbuído deste espírito messiânico que Natalício aterrou no Aeroporto 4 de Fevereiro, como atesta o apontamento final:
O viajante saudou, pela janela do AIRBUS 340-300, denominado Mariana Pineda, o dia que acordara taciturno com o céu pejado de nuvens cinzentas, formando um manto espessamente nublado.
À medida que o avião vai sobrevoando o território angolano, o seu coração vai sendo invadido por uma ansiedade nervosa. Como um pássaro que tenta, repetidamente, evadir-se da gaiola, Natalício anseia por vislumbrar os primeiros vestígios de terra luandina!
- Senhores passageiros, acabamos de iniciar a descida para a cidade de Luanda. Queiram fazer o favor de apertar os cintos de segurança, endireitar as costas da cadeira e recolher a mesa de apoio. - Avisa o speaker, do cockpit.
Num ápice, outras cabeças espreitam, por entre as respectivas janelas, sinais dessa proximidade a Luanda.
A alma do regressado exulta de alegria ao descobrir os primeiros batéis ancorados defronte à imensa, longínqua e adelgaçada língua de terra, para a qual o seu companheiro de lugar aponta o dedo e chama de Barra do Kwanza.
Na mala que arrasta pela gare traz o pecúlio formativo amealhado em terras lusas; no coração, a enorme crença em Deus e, na mente, a vontade férrea de vencer!
Assim que transpõe a gate das CHEGADAS, um impulso arrebatador dobra-lhe os joelhos, impelindo-o a beijar o solo pátrio e a confidenciar: «Terra Mãe, o destino traiçoeiro arrancou-me do teu regaço. Perdoa-me a ausência involuntária. Mas aqui estou, de volta para os teus seculares braços. Aceita-me, pois quero entregar aos meus alunos o carinho que a minha vida te sonegou, durante o período de diáspora.»

Mário Araújo

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos