Diploma vs emprego para historiador

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 O diploma universitário não se traduz na aquisição de um conforto social nem sequer num bem-estar, como se supõe geralmente.

O diploma universitário não se traduz na aquisição de um conforto social nem sequer num bem-estar, como se supõe geralmente. O mesmo se diz da tecnicidade adquirida, pois isolada de outros factores, em nada determinara a “garantia” do emprego. Por outro, o “bem-estar” é proporcionado pelo trabalho que é actividade de privilégio justificativa do “saber adquirido”.
Diz o máximo angolano, “trabalho dignifica o homem”. A verdade é que pelo termo “trabalho”, existem duas verdades: (1) etimologicamente, o termo deriva do latim “Trepalium” que era um “instrumento de tortura”; (2) na economia, é uma actividade renumerada. Aceitar um emprego, que obriga revisitar normas jurídicas de produção/renumeração, interpreta-se na aceitação voluntária de um processo de “tortura moderna”, tendo em contrapartida uma renumeração que lhe permite – até certo ponto – saciar as suas demandas básicas. É nessa visão que irei comentar brevemente a questão “diploma vs emprego”.
Alguns dos meus ex-estudantes formados em História contactaram-me para ajudar conseguir emprego. Admito que não tenho tal Poder. Por outro, a cultura de trabalho ainda é um “défaut” social em Angola e pelas experiências anteriores alguns dos estudantes que recomendei prejudicaram a minha imagem e, se calhar, o bocado de prestígio que tenho conquistado.

Daí, resolvi escrever esse artigo.
O diploma universitário não determina a garantia de emprego, menos ainda traduz o bem-estar social do seu detentor. Pode o diploma servir de prova juridicamente requerida pelas normas, contudo é o valor do diploma que garante a qualidade da produção. Outro ponto, é a deontologia que deve traduzir o profissionalismo do emprego. O terceiro ponto é a herança social que empolga os capitais simbólicos adicionais do empregado. Apesar disso tudo, o trabalho nunca deixou de ser um “instrumento da tortura”.  Acordar muito cedo, organizar a sua casa, enfrentar engarrafamento, mergulhar no ambiente laboral aguentando os ânimos diferentes, assegurar os estresses de trabalho, regressar para casa com todas dificuldades de todos tipos, encontrar as crianças adormecidas e retomar a rotina no dia seguinte é na verdade uma tortura. Corremos o risco de não conhecer verdadeiramente os nossos filhos.As vezes pagamos pessoas estranhas para cuidar deles, promovendo crise de valores e ruptura da herança espiritual dos nossos ancestraisàs gerações vindouras. Ora, se terminarmos a universidade aos 25 anos de idade e, com “mpûngu de Nzâmbi”, conseguir logo emprego e lá permanecer durante 32 ou 35 anos – com inevitabilidade de conquistar promoções e outras recompensas – beneficiaremos de aposentadoria aos 60 anos de idade. Nessa altura, teremos filhos com idadesrondando entre 15 e 25 anos, e se possível, netos também. Quer dizer,enfrentaremos uma “guerra de geração” nas nossas próprias casas, e se calhar não conseguiremos pagar propinas para alguns filhos (delegando essa responsabilidade aos terceiros). Geralmente, as pensões têm sido insuficientes, e buscamos consolação em “soft” alcoolismos ou em sedentarismossimbólicos que pouco nos ajudam. O corpo começa a pagar pelos sacrifícios da juventude, pelo que grande parte desta pensão vai às clínicas onde tratamos da nossa saúde. Pior ainda, somos limitados a consumir menos sal, azeite doce, mais frutas, evitar alimentos apetitosos em troca da saúde. Agora imagina quem não tiver pensão!
Essa é o resultado do “trabalho” enquanto instrumento da tortura que aceitamos voluntariamente com renumeração como contrapartida. Sou defensor de que seja incluído disciplinas de empreendedorismo no Curso de História e vou explicar os benefícios no contexto angolano. É preciso reformula-lo em três aspectos: (1) algumas das disciplinas técnicas precisam de ser introduzidas, criar os laboratórios e abrir especialidades; (2) o corpo docente deve ser competente e ser cobrado à produzir junto com os estudantes para melhor treinamento; (3) os dispositivos programacionais da excelência requerem a redefinição da Filosofia pedagógica da própria universidade. No próximo ano, a universidade será uma autarquia, como o foi no passado (eleições) e os estudantes deverão pagar propinas. Bravo!
O empreendedorismo no curso de História é importante em vários aspectos e citarei dois apenas. Formei-me em História, inicialmente num espaço social com tónica da intelectualidade: Kinsâsa. Depois aventurei-me sem bolsa noutros espaços neoliberais e cosmopolitas: Plymouth (Inglaterra) e Porto (Portugal). O mundo torna-se cada vez mais competitivo, descarrila do “saber escolástico” e requer maior criatividade na parte dos formados. Se a universidade é o “lugar onde se ensina a pensar”, o empreendedorismo prepararia as pessoas em produzir e não consumir. Ora, sabe-se que “produzir traz riquezas”, e “consumir inclina as pessoas para pobreza”. Outro benefício do empreendedorismo é a construção de perspectivas. Angola sofreu a guerra, e a cultura de guerra ainda prevalece nas mentes dos angolanos, de modo geral.
A reinvenção de Angola é fundamental. Num passado recente, fomos habituados a construir o “discurso histórico” em volta dos líderes. Hoje, as reformas políticas levam-nos a mudar de “discurso histórico”. Confundimos geralmente a crítica à simples citação de fontes.
Mesmo nas obras de “bons” professores, há falta da epistemologia, deficiência em metodologias históricas, reprodução de símbolos de exclusão, vulgaridade do impensadotextual,débil revisão lógica da fonte, etc. Isto é, contamos história e confundimos fazer História.
For sure, a História é a consciência do povo que produz os factos e valores. O empreendedorismo seria mais valia para as reformas que se requer na nossa Academia, e poderá servir noutros cursos e não apenas em História.

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