Diversificação da economia o que significa?

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Com a crise do petróleo que se vive a nível internacional, e com a recessão económica que se vive em Angola.

Diversificação da economia o que significa?
Mapa de Angola Fotografia: Arquivo

INTRODUÇÃO

Com a crise do petróleo que se vive a nível internacional, e com a recessão económica que se vive em Angola, o termo que mais se tem usado, nos últimos tempos, em nosso país é diversificação. Mas o que significa, em termos económicos, diversificação? Quais as implicações de uma diversificação da economia, como um todo? Diversificar implica a realização de substituição de importações?
As interrogações acima são de extrema relevância, para sustentar a digressão teórica que se pretende fazer sobre o tema. A sua relevância advém pelo facto de que quando se fala em diversificação da economia de um país, ou mesmo da substituição de importações de um Estado factores endógenos e/ou exógenos devem ser analisados, uma vez que desta análise ex ante vai depender o sucesso ou o insucesso destas políticas caeteri paribus.

QUE SIGNIFICA DIVERSIFICAR?
Edith Penrose argumenta que uma firma diversifica suas actividades sempre que, sem abandonar completamente suas antigas linhas de produtos, ela parte para a fabricação de outros, inclusive produtos intermediários, suficientemente diversos daqueles que ela já fabrica, e cuja produção implique em diferenças significativas nos programas de produção e distribuição da firma.
Em seu estudo, baseado em dados do Federal Trade Commission (Comissão Federal de Comércio) dos Estados Unidos da América (EUA), relativos à diversificação produtiva nas mil maiores companhias manufatureiras em 1950, Penrose argumenta que existem vários tipos de diversificação. Ela dá um exemplo simples. Por exemplo, um agricultor que produza dois tipos de banana (banana pão e banana maçã) pode ser considerado como um agricultor que diversifica a sua produtividade. Da mesma forma que um produtor que produz laranjas e tomate e, depois faz compotas de tomate ou sumos de laranja também está a diversificar a sua produção, tal qual o primeiro produtor. Ou seja, para se falar em diversificação há que se levar em conta o tipo de abordagem que se pretende fazer para que não incorramos em falácias, muito comuns àqueles que não são especialistas na área económica, principalmente quando o assunto é fazer políticas de Estado.
Diversificar implica em incrementar a criatividade intelectual, que implica a formação de técnicos básicos e médios muito bem preparados e técnicos com nível superior altamente competitivos a nível internacional. Este processo ocorreu nos Estados Unidos da América, principalmente durante o período após a Segunda Grande Guerra, com a importação de quadros estrangeiros altamente qualificados, inclusive, da inimiga Alemanha.
Diversificar implica um processo de incentivos intelectuais e valorização das competências intelectuais. Ou seja, diversificação da economia implica em abertura de escolas (de Base, Técnicas, Institutos e Universidades) que formem competências humanas comprovadamente eficientes, cujo padrão possa ser confrontado com o ensino dos países mais desenvolvidos, como o que tinha ocorrido na década de 1950 com a política de formação de quadros da Coreia do Sul ou mesmo com o Japão e a Alemanha, após a Segunda Grande Guerra. Aliás, a Coreia do Sul é um bom exemplo, quando se fala em diversificação da economia. A Coreia do Sul diversificou primeiro o ensino de qualidade, investindo o seu dinheiro, principalmente emprestado dos EUA, na alta competência de nível internacional, o que a fez sair de um país atrasado para um dos países mais sofisticados em termos científicos, técnicos e académicos do mundo. Sabendo disso, nas universidades Sul-coreanas existem espaços cativos para os bustos de seus futuros prémios nobéis em todas as áreas do conhecimento. A Coreia do Sul diversificou a sua economia fazendo um Plano Estratégico de Estado, muito bem concatenado com todas as instituições do Estado, principalmente, de pesquisa e produção, numa política de longo prazo.
A Coreia do Sul sabe que o insucesso da maioria das políticas económicas dos Estados é o seu imediatismo, principalmente para tirar vantagens políticas imediatas, como aconteceu com a Nigéria durante as décadas de 1980 até os dias de hoje, ao contrário do que tinha ocorrido com a Noruega. A Nigéria (para não falarmos do ex-Zaire) e a Noruega são dos casos mais relevantes nos estudos de desenvolvimento económico, quando se quer analisar os efeitos da boa diversificação e da má diversificação da economia dos Estados. Penrose argumenta que a diversificação compreende incrementos na variedade de produtos finais fabricados, incrementos na integração vertical e incrementos no número de áreas básicas de produção nas quais a firma opera. Este último tipo de diversificação é de fundamental importância e não pode ser avaliado pelo número de diferentes tipos de produtos, finais ou intermediários, fabricados.
Fica claro nas argumentações da Penrose – ainda que de forma implícita ou de uma análise superficial – a implicação positiva das abordagens das capacitações humanas. Ou seja, é impossível fazer-se diferenças significativas de produção sem a qualificação de nível internacional dos técnicos nacionais envolvidos. Logo diversificação significa qualidade no ensino e pesquisa, para a posterior produção com alto valor agregado.

CAPACITAÇÃO HUMANA COMO SINÓNIMO DE DIVERSIFICAÇÃO
Voltando ao caso da Nigéria e da Noruega, dois países produtores de petróleo. Um africano e outro europeu. Não há implicações positivas ou negativas por um estar no Norte e outro no Sul. É que, geralmente, os países periféricos seguem o exemplo da Nigéria e não o exemplo da Noruega. Quando a Noruega descobriu que havia em seu solo boas reservas de petróleo usaram-nas para sair da pobreza que assolava o país, fazendo uma política séria de diversificação da economia, começando pela qualidade de longo prazo de seu ensino. Não é atoa que surge na Noruega, pela primeira vez o termo desenvolvimento sustentável dito por sua ex-Primeira Ministra Brundtland. A Nigéria, por outro lado, transformou o petróleo no antidesenvolvimento sustentável.
A Nigéria é um pais pobre e a Noruega um país rico com um dos melhores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo, ao pensar no futuro comum de seus habitantes. Ajara argumenta que o nosso futuro comum tem como ênfase a solidariedade inter-geracional, ou seja, é o desenvolvimento que combina a satisfação das necessidades básicas das pessoas – no presente – com o compromisso de suprir as necessidades básicas das gerações futuras. Isto é, o nosso futuro comum implica que ao satisfazerem-se as necessidades das gerações actuais não pode ser sacrificado o direito das gerações futuras de satisfazerem as suas necessidades.
Na Nigéria, a preocupação com o futuro individual impera, mas na Noruega o futuro comum ou sustentável é o foco central de governação. Há Prémio Nobel em ciências na Noruega; na Nigéria não há. A Noruega investiu em pesquisa de ponta e a Nigéria não. O Governo da Noruega sabe da importância da qualificação de ponta dos seus habitantes e os usam de forma sustentável; a Nigéria como a maioria dos países periféricos também sabe, mas, ao invés de fazerem um ensino com qualidade internacional, se preocupam mais com a abertura de instituições de ensino sem qualidade nenhuma ou, no máximo, com qualidade medíocre, cujo impacto é catastrófico para o crescimento e desenvolvimento destes países.

QUADROS E DIVERSIFICAÇÃO
Uma observação importante é a política de importação de quadros feita por muito dos governos periféricos. Muitos, porém, possuindo qualificação abaixo das exigências de que os países necessitam. Isto aconteceu durante o período da Guerra Fria – e ainda acontece – pelo facto de serem contratados por funcionários seniores governamentais, muitos, porém, sem nível superior de qualidade, o que melhoraria a qualidade nas contratações. Ou seja, existe uma grande contradição na política de muitos governos periféricos quando estes contratam “quadros” estrangeiros para consultoria, muitos, porém, possuindo conhecimento abaixo dos quadros nacionais formados nas mesmas instituições de ensino superior ou, em muitos casos, em instituições melhores que a dos mesmos expatriados.
Existem situações em que os consultores estrangeiros importados por esses governos, apesar dos salários avultados que recebem – geralmente superiores ao dos quadros nacionais – acabam por subcontratar, mesmo que de forma indirecta, quadros nacionais, para satisfazer às “exigências” dos próprios governos periféricos. Vários são os casos em que expatriados chegam a exercer papel importante em instituições chaves de Estado (Ministérios, Secretarias, Banco Central, Indústrias, dentre outras), inclusive na formação de “quadros” dos países periféricos de nível superior. Muitos destes expatriados acabam participando com um peso importante na tomada de muitas decisões estratégicas desses governos, porém, equivocadas. Um exemplo contundente, conforme argumenta Menezes, é o de um quadro estrangeiro que exerceu funções de “consultoria” para um Estado periférico: “Propus a reorganização da área de processamento de dados da Faculdade de Economia da Universidade (posta em prática de imediato), colaborei com a reformulação curricular e fui muitas vezes convidado por ministros de Estado e autoridades governamentais e militares a fazer palestras e consultorias em ministérios, empresas e repartições, onde minha experiência como cidadão importado contava até mais que meus conhecimentos técnicos como economista, advogado ou administrador”.
Realçam-se aqui as decisões equivocadas que alguns sectores-chave dos Estados periféricos, na pessoa de representantes séniores, o que causam impactos desastrosos aos países. Infelizmente, esta é uma prática que tem sido constatada até hoje em muitas instituições públicas e privadas, inclusive, em todos os níveis de ensino nacionais, o que tem gerado muitas tensões com os quadros nacionais, muito deles com formação de excelência, adquiridas nas melhores universidades, mundo afora.
Ou seja, existem problemas exógenos e endógenos para que a diversificação das economias tenham sucesso e, as substituições das importações façam algum impacto nas economias dos Estados. Os problemas endógenos estão ligados as próprias estruturas e a seriedade com que os Estados aplicam nas suas políticas ex ante, em vez de pensarem em desenvolvimento económico sustentável dos seus países. Os problemas exógenos têm a ver com a falta de percepção de muitos governantes dos países periféricos, ao não compreenderem que o mundo contemporâneo é altamente competitivo, a nível das competências humanas, sendo condição sine qua non para o desenvolvimento económico dos Estados. Além, evidentemente, da seriedade que devem ter, em relação às políticas económicas, evitando-se o trade-off entre o pensar e o fazer acontecer, como o que ocorre actualmente na Venezuela.

PENSANDO EM DIVERSIFICAÇÃO: UMA CONCLUSÃO
O que significa, em termos económicos diversificação? Quais as implicações de uma diversificação da economia, como um todo? Diversificar implica na realização de substituição de importações?
A valorização dos quadros de excelência nacionais é uma condição sine qua non, para que o conhecimento e a pesquisa de excelência possam ser enraizados e espraiadas para toda a sociedade de forma racional e intencional. O ponto de partida deve ser a convergência do salário real entre os nacionais e os importados com o mesmo valor agregado. Ou seja, se há nos países espaços para expatriados deveria existir – pelo menos em tese – espaço para quadros nacionais com formação de excelência, sendo esta uma questão de segurança nacional. Marcolino argumenta que não devemos nos esquecer que nas relações internacionais estão em jogo também a segurança nacional dos Estados. Portanto, os governos periféricos não podem ignorar que os seus parceiros internacionais deverão estar a preservar os seus interesses e a sua segurança nacionais, quando enviam seus cidadãos para outros países.
Diversificação e substituições de importações significam questões centrais de segurança nacional. Diversificação significa a valorização incremental dos quadros nacionais com valor agregado, nas esferas chaves dos Estados. Portanto, diversificação significa uma política séria educacional e sustentada de forma sustentável. Como argumenta Sun Tzu: “Se quisermos que a glória e o sucesso acompanhem nossas armas, jamais devemos perder de vista os seguintes factores: a doutrina, o tempo, o espaço, o comando, a disciplina”.

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