Donald Trump, profeta de uma civilização em decadência?

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A Europa, a principal representante da civilização ocidental, dita humanístico-cristã, tem, durante a idade moderna ou o iluminismo, lutado, difundido, expandido e implantado, à força das armas, essa civilização em todos os cantos da Terra.

Donald Trump, profeta de uma civilização em decadência?
Donald Trump

Na sua expansão usou como motivo o de civilizar e cristianizar os povos pagãos, usando todos os meios necessários para atingir este fim. Nesse empreendimento, os valores humanístico-cristãos (como a dignidade da pessoa humana), a igualdade de direitos fundamentais, a liberdade e a fraternidade foram os alicerces e pilares tidos como pretextos na tal chamada acção civilizadora do mundo para além das fronteiras da Europa.

Secularização,
a época pós-moderna
e a inversão de valores

Hoje vivemos numa época pós-moderna, pós-industrial e pós-colonial, caracterizada pela descristianização da Europa, época da secularização. A missão do ocidente é agora secularizar o mundo, tornando-o pluralista em termos de religião, ética, estética, etc. À luz do Evangelho do Nosso Senhor Jesus Cristo, o que o Ocidente pretende fazer agora é, na realidade, re-paganizar o mundo através da desumanização e descristianização planetárias. Assim, propaga-se hoje o inverso dos valores cristãos e as virtudes negativas assim como elas estão pormenorizadamente descritas na Bíblia Satânica (The Satnic Bible), escrita por Anton Szandor LaVey, New York: Avon Books, 1969. O propósito da Bíblia Satânica (BS) é combater, a todo preço, os valores e ideais evangélicos. Assim, onde o evangelho recomenda a virtude do amor, a BS recomenda o vício do ódio (uma virtude negativa), onde Cristo recomenda paz e amor a todos e até aos próprios inimigos, a BS recomenda guerra e a vingança segundo a lex Talonis: olho por olho e dente por dente.
Por exemplo, Jesus diz aos seus discípulos “se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra” (Mat. 5,39.b). A Bíblia Satânica, pelo contrário diz: “Satanás representa vingança, em vez de oferecer a outra face”. (ibidem, página 25) [minha tradução]. Quanto à paganização do mundo, a seguinte história fala por si. Há alguns anos, um aluno meu, um pastor luterano, vindo da Tanzânia para escrever uma tese de doutoramento na Noruega, sobre o tema “o que é pecado na Tanzânia versus na Europa”, perguntou- me como é possível os missionários europeus – que ensinaram os africanos o que era o pecado – enquanto estes últimos eram considerados pagãos por aqueles, agora acusarem os cristãos africanos de serem primitivos e ultraconservadores na sua teologia, por exemplo, quando pregam sobre o pecado e as suas expressões concretas. Segundo o tal aluno, os seguintes actos eram há 20/30 anos expressões de pecado tanto na África como na Europa: matar, roubar, levantar falso testemunho, cometer adultério, prostituir, o casamento entre homossexuais e lésbias, o aborto provocado, a eutanásia, etc. Hoje, na Europa em geral, estes actos não estão a ser considerados como pecado, enquanto em África continuam a ser. Será que a Europa, influenciada pelos valores e ideais da Bíblia Satânica, prega hoje a inversão do evangelho de Cristo ou proíbe este último em nome da neutralidade de valores, universalidade dos direitos humanos, principalmente da liberdade religiosa, que para os cristãos na Europa, significa apenas o direito de não ser cristão ou de o ser mas não publicamente? Pelo contrário, todos os adeptos das outras religiões, principalmente os Muçulmanos, usufruem na Europa, o direito de praticar as suas religiões, conforme bem entenderem.

O relativismo ético
como expressão
do niilismo pós-modernismo

A época pós-moderna implementa efectivamente os valores e ideais da Bíblia Satânica (do satanismo), ao fundamentar a ética social contemporânea no tão chamado relativismo ético normativo, segundo o qual não existe valores éticos e normas éticas absolutas e universais. Este tipo de relativismo ensina que, em princípio, cada cultura tem a sua própria ética, isto é, os seus valores e suas normas específicas de conduta. E a nível cultural e social os povos pertencentes a culturas diferentes não devem interferir nas boas ou más acções e maus comportamentos uns dos outros. A nível individual de cada sociedade, afirma o relativismo ético normativo, que cada indivíduo tem o direito e a obrigação moral de viver conforme quiser, enquanto o governo tem o dever jurídico-político de, em primeiro lugar, garantir, a cada indivíduo os seus direitos fundamentais (por exemplo, o direito à paz social e segurança pessoal).
Em segundo lugar, afirma o relativismo ético normativo, segundo o qual, o governo tem o dever jurídico de obrigar a todos os grupos e a cada individuo a serem tolerantes uns para com os outros, no concernente às suas respectivas atitudes e aos seus respectivos actos e omissões e comportamentos. Esta é uma forma autêntica do egoísmo. Porém, apesar de todo o benefício que a Europa dá ao resto do mundo, pelo menos no que se refere à ética e espiritualidade, devemos lembrar sempre que ex oriente lux …!

O egoísmo e as suas
consequências nefastas
para a sociedade e humanidade

O egoísmo como comportamento e modus vivendi, não é algo novo debaixo do céu pós-moderno. Tanto na Grécia antiga (os sofistas,420 -376 a.C.) como na época moderna (Thomas Hobbes, 1588-1679) pregaram o egoísmo como ética relativista social. Convém esclarecer que há duas formas de egoísmos que são relevantes e interligados neste contexto: egoísmo ético e egoísmo psicológico. O egoísmo ético afirma que o interesse próprio é o princípio moral fundamental que cada um deve seguir. O egoísmo psicológico, que faz parte integrante de um conceito psicológico do ser humano, declara que este último é constituído de tal maneira que procura sempre satisfazer as suas próprias necessidades. O egoísta interpreta, por exemplo, a regra de ouro da seguinte maneira; “ajuda os outros para que eles te ajudem a prosseguir o teu próprio interesse”, e nunca por qualquer outra razão1.
Para a motivação e a justificação última do egoísmo ético, Hobbes usa como argumento o egoísmo psicológico. Porém, uma consequência desastrosa de obrigar ou aceitar que todos sejam egoístas, seria um caos social, uma anarquia que podia desencadear uma guerra de todos contra todos, o que tornaria a vida desagradável, brutal e curta (cf. Thomas Hobbes, Leviathan2 ). Quem, a longo prazo, ganharia com este tipo de regime político e status quo? Ninguém, nem os próprios niilistas e relativistas ganhariam com isso, a longo prazo!3 O egoísmo ético é contraproducente, por ser incapaz de ser recomendado como um princípio universal.

Donald Trump - a encarnação
do egoísmo posto em sistema

Bertrand Russell, laureado com prémio Nobel e célebre filósofo inglês do século passado, escreve o seguinte em 1990, o que hoje, à luz de um fenómeno humano como Donald Trump e outros de igual mentalidade, pode ser visto como uma mensagem profética: “Um dos paradoxos dolorosos do nosso tempo reside no facto de serem os estúpidos os que têm uma certeza, enquanto os que possuem imaginação e inteligência se debatem em dúvidas e indecisões”. 4Este citado caracteriza bem a ideologia racista e incoerente de Donald Trump e a de muitos pequenos Trumps que proliferam por este mundo fora, propagando e trombeteando, a tempo e fora de tempo, a sua ideologia egoísta, racista e desumanizante e anticristã. Uma tal ideologia é baseada numa ética anti-humanista, anticristã, niilista e relativista.
O Trump é um oportunista do tipo Hitler que usa, entre outros, a corrente imigratória, o baixo crescimento económico mundial e outras tendências negativas na sociedade, para arraiar a sua bandeira da libertação de todos os males. Isto pode ser perigoso a ponto de desencadear uma guerra mundial. Portanto, todos nós devemos lutar contra uma tal ideologia desumana, anticristã e perniciosa.

António Barbosa da Silva*

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