Elogio do erotismo (*)

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Sobre o Erotismo muito se pode dizer e, sobretudo… fazer.

Elogio do erotismo (*)
Elogio do erotismo (*)

E sobre ele se tem escrito de tudo, desde Manuais a Tratados, passando por teses de graduação e de pós-graduação.
Falar sobre erotismo é coisa que me deixa… altamente excitado. Ora, na matéria em debate, convém sempre dedicar algum tempo aos preliminares… Por isso, vamos começar por compreender o conceito.
Erotismo é uma palavra que vem indissociavelmente ligada à ideia de prazer. Sigmund Freud disse mesmo que: “Todo o prazer é erótico”.
Mesmo que se trate, portanto, de prazer sado-masoquista, onde o erotismo é encontrado nas pontas desgrenhadas de um chicote ou na privação de movimentos imposta pelo metal gélido de um par de algemas e o prazer é extraído da dor.
Isto dá, logo à partida, a entender que o erotismo é algo de muito íntimo. E isso faz-me pensar na conveniência de, antes de prosseguirmos, tentarmos operacionalizar o conceito de erotismo, para que possamos estar todos, ainda que cada um à sua maneira, a sentir a mesma coisa.
Segundo a Wikipédia, a palavra Erotismo “provém do latim “eroticus”, e esta do grego “erotikós”, que se referia ao amor sensual e à poesia de amor”. Portanto, já na antiguidade o erotismo e a poesia andavam de mãos dadas.
Erotismo é, segundo a mesma fonte, “o conjunto de expressões culturais e artísticas humanas referentes ao sexo”.
Como toda a definição que se preze, nesta tanto cabe tudo aquilo que cada pessoa lá queira meter, como dela se pode excluir tudo aquilo que toda a gente lá queira impedir de entrar. Só depende da interpretação que dê jeito a cada um. Tentemos, então, ser algo mais concretos.
O erotismo é, acima de tudo, uma interpretação, feita pela imaginação de cada indivíduo, de um conjunto de formas, sons, cores, sensações tácteis, odores e sabores, gestos e situações, reais ou imaginárias, babel dos sentidos por via dos quais o ego de cada um de nós faz disparar hormonas e outras secreções pelo próprio organismo, que resultam geralmente em reacções erécteis em vários locais da geografia corporal, bem como nessa coisa inexplicável e intangível que é a sensação de prazer.
Ainda está muito vago, não é? Vamos lá tentar pôr este conceito um pouco mais a nu – o que também deve fazer com que fique mais erótico…

O erotismo é aquilo que me faz ficar estonteado perante a sugestão dos prazeres que se antevêem num decote mais arrojado, ou que me deixa com vertigens perante as alucinantes possibilidades lúdicas que se insinuam nas linhas traçadas por um par de pernas cruzadas, que uma saia mais justa e curta deixa antever, mas que faz com que, por outro lado, eu permaneça impávido perante um corpo que se revele instantaneamente nu. É deste poder de auto-sugestão que vivem os espectáculos de striptease, por alguns considerados a pérola do erotismo e, por outros, considerados meras expressões de puro mau gosto. Eu acho que uma ou outra conclusão dependem acima de tudo da qualidade das stripers…
O erotismo tem, pois, um cunho marcadamente individual: enquanto alguns de nós se perdem na circunferência rotunda que é esboçada no ar pela curvatura de uma bunda em movimento serpenteante e não enjoam, outros se perdem com o mesmo desnorte na planura tabular da mesma parte do corpo feminino, tão rectilínea que deixa até de merecer tal designação... mas o que é certo é que uma, tanto quanto a outra, nos deixam ambas igualmente de cara à banda e coração aos saltos. E não só o coração… Apesar de incomparáveis, quase antípodas, estas formas estéticas produzem ambas o mesmo efeito em indivíduos distintos.
Há quem encontre erotismo numa língua que espreita por um par de lábios húmidos entreabertos ou num olhar de soslaio; num pé calçado por uma sandália de salto alto ou nas unhas pintadas de uma mão; e numa pulseira num tornozelo bem torneado ou num fio de missangas à volta de uma anca bem talhada - para não falar no toque sensual sobre as cicatrizes macias de uma tatuagem makonde num ventre docemente arqueado ou no toque frio de um piercing em partes invisíveis. Há erotismo numa simples liga rendada que afaga uma coxa farta, como também na transparência de uma meia de vidro.
Mas devo ser equitativo na minha definição. Dizem-me que também há erotismo num bíceps grosseiramente esculpido, ou numa barba mal amanhada. Ao que tudo indica, o erotismo tem, pois, também, género. Ainda que haja aqui, como em todas as esferas da vida, aqueles que transgridem e se travestem e encontram o erotismo nos traços feitos pelo mesmo lápis ou que utilizam a ponta de borracha do lápis para alterarem os traços do desenho original.

ATRACÇÃO ERÓTICA
Bastas vezes nesse renegar de fronteiras o erotismo ignora soberanamente as limitantes socialmente construídas, dando azo a relações inter-parentais e nos deixando gregos perante aquelas figuras psicológicas incestuosas bastante conhecidas que são o Complexo de Édipo e o Complexo de Electra, em que os graus de parentesco e as proibições sociais se vergam à atracção erótica indomável que estas pessoas, mutuamente proibidas, exercem umas sobre as outras. Como em tudo o mais na vida, quanta dessa atracção não será, senão causada, pelo menos profundamente excitada pela proibição?
Mas, o erotismo é também cultural. Se em certas culturas os seios são meras fontes de alimento infantil, usualmente desnudos e espremidos à saciedade, noutras são autênticos objectos de cultura erótica, criteriosamente mal tapados, sempre nutritivos, mas, desta feita alimentando as clínicas dessa nova ilusão óptica erótica que é o silicone, e alimentando o voyeurismo, essa conduta erótica parasitária que se mascara e disfarça no consumo dessoutra actividade de erotismo dúbio para muitos que é a pornografia.
Há até quem pergunte: “Qual é a semelhança entre a Play Station e os seios da mulher?”. É que tendo ambos sido criados para os filhos, no fim, são os pais que com eles se divertem.
Os devaneios eróticos parecem não ter fim. É também para sustentar esse universo infinito que são as fantasias eróticas, que servem esses templos do amor sexual que são as Sex Shop, onde se podem encontrar inimagináveis tipos de lingerie e todo um arsenal de instrumentos e bengalas eróticas.
O que me faz, aliás, deixar uma pergunta no ar: será o coito com uma boneca insuflável um acto de adultério? Se for apanhada, poderá a boneca ser condenada a esvaziamento perpétuo? É a consumação do acto que constitui o “pecado”, ou é a sua imaginação? Se for esta última, receio bem que estejamos todos condenados por pelo menos três vidas consecutivas…
Por essa razão, não me atrevo, aqui e agora, a aplicar o Evangelho de S. João (8:1-11) e dizer para que “Aquele que, de entre vós, esteja sem pecado, que seja o primeiro…” não a atirar uma pedra, mas a abandonar este local, pois não quero que, um a um, vos sintais obrigados a retirarem-se desta sala e… tenhamos de ir continuar este lançamento lá fora.
Mas se este rol parece ser interminável, como disse Rémy de Gourmont, “De todas as aberrações sexuais, a mais singular talvez seja a castidade.”
EROTISMO E “FIDELIDADE”

E aqui cabe outra questão a que se pode chamar “de fundo”: poderá o erotismo conviver, de forma saudável, com essa figura tão cara aos casados, que é a “fidelidade”? Eu quis dizer “que é tão cara” e não “que sai tão cara”… Ou serão as escapadelas, os “saltos de cerca”, o cimento indispensável a uma relação sólida e longeva, como alguns pretendem? Se alguns resolvem essa dúvida existencial com escapadelas intra-domésticas, através de “Ménages à Trois” ou do “Swing”, outros há que se evadem através da esquizofrenia do amantismo. E há aqueles que buscam simplesmente o alicerce nessa fonte inesgotável do erotismo cooperativo que é a compra e venda de sensações.
Mas o rol continua e há até quem encontre erotismo nos músculos suados e felpudos de um equídeo ou nas garras bem limadas de um canídeo.
Todo este arrazoado apela a outra questão de fundo: haverá ou não uma fronteira entre o erotismo e o sexo nu e cru, entre o erotismo e a aberração, a perversão, a absurdidade, o desatino, o delírio? Haverá erotismo na pornografia, na bestialidade, na coprofilia, ou serão estes conceitos antónimos, mutuamente excludentes? Quem tem autoridade para determinar isto? Quem está certo, e quem está errado? Quem detém a verdade?
Aqui se aplicará, julgo eu, como em tudo o mais na vida, a regra de ouro: tudo aquilo que mova pessoas adultas, de comum acordo, no pleno uso das suas faculdades psicológicas, sempre em diferentes estados de desequilíbrio, e não traga quaisquer prejuízos a terceiros, é legítimo e legal. A ninguém cabe autoridade estética ou moral para estabelecer e impor padrões de erotismo. Insisto: o erotismo é, acima de tudo, individual, tanto quanto o são os pontos erógenos escondidos e disfarçados pelos corpos incandescentes e pelas mentes sem correntes dos amantes.
São, todas estas, relações que, desde que não sejam feitas a contra-gosto de um dos parceiros, por muito que haja quem as condene como moralmente degradantes ou repreensíveis, se tornam irreprimíveis e podem ser gozadas sem que aqueles que assim amam tenham de ser lavados de tamanhos pecados com o fogo e o enxofre da bíblica Sodoma.
Porquê tão díspar variedade de opiniões e de opções? Porque é a imaginação o cerne do erotismo. Tanto assim que até se diz que o principal órgão sexual … é o cérebro. É a imaginação que faz toda a diferença. Como disse Óscar Wilde, “A ilusão é o primeiro de todos os prazeres.”
Mas no império do erotismo não reinam só a beleza e o prazer. O erotismo pode degenerar num rol quase interminável de obsessões. É esse o reino onde habita essa outra costela do erotismo que é o fetichismo , que pode facilmente descambar em formas mal direccionadas de erotismo sado-masoquista como o assédio e o estupro e até mesmo em patologia criminosa como é o caso da pedofilia.
Com todas estas diferenças individuais que o caracterizam, o erotismo é a maior das democracias. No seu palco contracenam como actores tanto analfabetos como doutores, tanto operários como proprietários, tanto as prostitutas como os seus frequentadores, bastas vezes violando sem pudor as fronteiras historicamente urdidas pela luta de classes.
A democracia do erotismo está também patente nas múltiplas formas pelas quais o ele se expressa. O erotismo atinge o clímax e torna-se arte nas páginas repetidamente folheadas do Kama Sutra. Mas podemos encontrar erotismo também na forma de escultura, de fotografia, de música, de dança, na forma de romance e na forma de poesia.
Disse Anais Nin que: “O erotismo é uma das bases do conhecimento de nós próprios, tão indispensável como a poesia”.

EROTISMO E POESIA

Vemos que se repete aqui o namoro que é reconhecido desde a antiguidade entre o erotismo e a poesia. A poesia é, sem dúvida, uma forma preferencial de expressão do erotismo. Só que é uma forma que precisa de ser desnudada. Porque a poesia é uma arte que se veste com o uso e o abuso de artimanhas literárias, como os eufemismos e as alegorias, as metáforas e as ironias, e tantas outras… Para a compreender é preciso despi-la. É por isso que me sinto tentado a dizer que a poesia é sempre erótica!
É preciso escalpelizar os poemas, palavra a palavra, imagem por imagem, revelando-lhes as subtilezas e nuances até que a essência do poema se liberte como a essência de um perfume quando se tira do frasco a tampa que nos priva de lhe desfrutar o odor, e ele se liberta, ficando a bailar ao som do ar até que nos embota os sentidos, nos atrofia a razão e nos submerge na paixão.
Mas nem só de sexo vive o erotismo. Por isso, e passo a citar: “Do texto de Cezerilo avulta um Craveirinha, em cuja obra, amor e sensibilidade estão irremediavelmente ligados a um solo mítico, de onde emana o Desejo maior, sedento pela Mãe Terra, que se confunde, na modernidade, com a Nação. Desse modo, o estudo aponta para o erotismo de Craveirinha como símbolo de uma convivência inextinguível com os símbolos da Nação, o que acaba por ampliar os significados do conceito em três direções: erotismo como arma de combate social, tendo em vista que permite violar o outro (leia-se, o dominador, o colonizador); erotismo como nostalgia, que permite a transmissão da memória por meio da tradição oral; e erotismo como estética, que funciona como mecanismo de produção de linguagem poética.” - Profª Drª Maria L. O. Fernandes, da UNESP/Araraquara, no Prefácio à obra “Erotismo como linguagem na poesia de José Craveirinha”, por Luís Cezerilo.
Mas é preciso saber procurar os prazeres do erotismo, para sermos capazes de encontrá-los, para nós próprios, e para os partilharmos com outrem. Partilharmos esses momentos e partilharmo-nos a nós mesmos. Porque o prazer é algo que se quer partilhado. Mesmo quando a sós, para se conseguir prazer temos de rebuscar parceiros no litoral da nossa memória.
Para sermos capazes de o fazer é preciso libertarmos as nossas mentes das grilhetas dos tabus com que a educação familiar, estatal e religiosa nos castram, transformando o erotismo e o acto sexual, que é seu parceiro natural, em acto insípido e insonso, quando não mesmo em fruto proibido do qual nos devemos envergonhar.
Soltemo-nos e deixemos as nossas mentes vogarem livremente por entre os prazeres do erotismo. Disse Einstein: “A mente que se abre a uma nova ideia, jamais volta ao seu tamanho original”. Eu aplico: “A relação que se abra ao erotismo, jamais sucumbirá à rotina fatal”. Desnudem-se de preconceitos. Experimentem. Inventem. Ousem. E aprendam a encontrar o erotismo, depois, em todo o lado onde ele existe. E ele existe em todo o lado.
Façam-no sem terem medo de pecar. Mesmo porque o erotismo é divino. Já em Génesis 2:25 se diz: “E ambos estavam nus, o homem e a mulher, e não se envergonhavam”. Nenhuma cultura ficou alheia a tal divindade, desde os sumérios aos etruscos, passando pelos vedas. E em todos os panteões existem inúmeros deuses ocupados nesta matéria, que vão desde a grega Afrodite, a Vénus romana, deusa do amor, da beleza e da sexualidade, a quem devemos a palavra “Afrodisíaco”, até ao romano Cupido, deus do amor, o Eros na mitologia grega, ao qual devemos a palavra “Erotismo”.
Apetece-me mesmo dizer, como vejo certas seitas fazerem nas televisões: “Irmão, olhe com volúpia para a pessoa ao seu lado e veja o erotismo que dela emana. E diga-lhe: você é erótica”. E, depois de tão libidinoso pensamento, façam como aquela senhora que, antes de se entregar aos pecaminosos prazeres carnais, rogou: “Nossa Senhora, Vós que haveis concebido sem pecar, ajudai-me a pecar sem conceber”.
Deixem-se seduzir e soltem-se das algemas que vos amarram ao espaldar da vossa vergonha.

Maputo, 07.10.2010

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