"Eu vou ler o livro do Pepetela?!"

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As obras literárias de autores angolanos contribui para o reforço da identidade cultural angolana.

O livro Pepetela Fotografia: Arquivo

Introdução

Este texto surge na sequência do diálogo mantido entre o seu autor e uma jovem que, questionada se lia os livros de Pepetela, não se coibiu em proferir a frase em epígrafe que suscitou a presente reflexão.
Tendo em conta a impressão que o título possa vir a causar, o autor esclarece que não pretende de forma alguma subestimar a obra, ou nenhuma das obras, de Pepetela. Pelo contrário, é sua intenção reflectir apenas sobre o hábito da leitura, o sistema de ensino em Angola, a formação cultural do estudante angolano – temas cuja abordagem, feita frequentemente pelos especialistas na matéria, estende-se a outros assuntos que, por enquanto, não serão aqui analisados.

Afinal de contas, quem é Pepetela? Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, ou simplesmente Pepetela, é uma referência incontornável na literatura angolana, em particular, e na lusófona, em geral.
Em 1997 o escritor angolano foi galardoado com o Prémio Camões, por sinal o mais prestigiado entre os países de língua oficial portuguesa, como reconhecimento do conjunto da sua obra literária formada por, entre outros, romances históricos como Lueji – o nascimento de um império (1990), A geração da utopia (1992), A gloriosa família (1997), etc..
Recentemente um dos seus livros - Mayombe – foi incluído na bibliografia de consulta obrigatória para os estudantes que realizam e realizarão os exames de acesso à Universidade de São Paulo, no Brasil, no período compreendido entre 2016 e 2019.

O cerne da questão
Ora, esperava-se que uma jovem que orgulhosamente ostenta o grau de Licenciada em Gestão de Empresas tivesse lido - para além dos livros da sua área - pelo menos uma das obras de um escritor com os créditos acima referidos, e/ou tivesse o orgulho de ter como compatriota aquele que é tão somente um dos ícones da literatura produzida na lusofonia. Ledo engano!
A soberba por ter “terminado a Faculdade”, como soe dizer-se entre «nós» e, sobretudo, o desprezo manifestado pela jovem em relação à obra de Pepetela chocaram violentamente com as expectativas do seu interlocutor, habituado a tertúlias nas quais a literatura é um dos seus temas de eleição.
Convém recordar que durante a segunda metade da década de 90, por razões que não adianta mencionar, o acesso ao ensino pré-universitário ou médio era vedado a muitos adolescentes. Neste contexto, o cultivo do hábito da leitura passou a ser a maior ocupação de um adolescente de 16 anos que, estando na biblioteca do seu irmão, entrou em contacto pela primeira vez com Lueji – o nascimento de um império.
De facto, foi em 1997 e por intermédio desta obra, por sinal, das mais “consumidas” enquanto produto cultural, que o autor destas linhas adquiriu algum conhecimento sobre o exercício do poder no antigo Estado Lunda, em particular, e em África, em geral, durante o período pré-colonial.

In Novo Jornal (Caderno Mutamba, pp. 4-5), nº427, 15/04/2016.
Doze anos após a ocorrência deste facto registado na sua memória, o agora estudante universitário comentava durante uma aula de História de África o fenónemo da bicefália do poder em África durante no período em referência, baseando-se na referida obra de Pepetela. “São estes livros que vocês [estudantes] devem ler” – dirá o Professor.
O testemunho que acaba de ser apresentado é apenas um dos exemplos dos benefícios (em termos de compreensão, análise, desenvolvimento da memória, etc.) que a leitura proporciona ao estudante que entende que a formação numa determinada área de conhecimento deve ser acompanhada, e suportada, pela busca incessante de informaçoes e conhecimentos sobre a vida e/ou o mundo nos diversos dominios: político, económico, cultural, tecnológico, etc.. Chama-se à isto cultura geral.
As consequências decorrentes da falta deste elemento - indicativo da falta de leitura – são por demais conhecidas, e, para além da falta da análise crítica dos factos socias, culturais (MENDONÇA, 2015), etc., inclue-se no seu conjunto disparates semelhantes ao que foi proferido pela ilustre Gestora de Empresas que, além de ter ignorado o valor cultural e comercial do livro (terá noção disso?), aproveitou a ocasião para dizer o seguinte: “isto [Literatura] é para o estudante de História que deve manter-se informado!”.
Se é verdade que o autor de uma obra (literária, científica...) tenha inicialmente a intenção de alcançar um determinado público, formado pelos seus colegas de formação, ou de profissão, nada impede que o seu trabalho desperte o interesse dos estudantes e especialistas dos mais diversos cursos e especialidades (M’BOKOLO, 2007).
Tratando-se de uma obra literária, vários benefícios podem ser obtidos pelo leitor e, para além do que foi dito anteriormente, acrescenta-se o seguinte: (1) o desenvolvimento mental; (2) a melhoria da comunicação (oral e escrita); (3) exercício da crítica, etc., etc.. Portanto, não faz sentido a afirmação segundo a qual apenas o estudante de História deve interessar-se pela Literatura.
Na verdade, a ideia defendida pela diplomada em Gestão Empresarial reflecte, em parte, a qualidade do ensino ministrado em Angola aos estudantes que, em muitos casos, estão desprovidos do senso crítico devido ao abandano do hábito da leitura (MENDONÇA, 2015).
Esta situação suscita reflexão sobre: 1) o perfil de quadros/técnicos superiores que o Páis precisa e está a formar; 2) o valor que os estudantes dão à formação e; 3) se estarão a ser capacitados para responder aos desafios que o País enfrenta nas mais diversas áreas, incluindo a Gestão de Projectos Culturais.
Sobre este assunto, é bom que se diga que esta constitui actualmente uma das saídas profissionais para quem nela se especializa com o objectivo de trabalhar em Casas de Cultura, Editoras, Livrarias, etc., etc..
Por outras palavras, mais do que um simples negócio – do livro, e não só - estas instituições deverão estabelecer parcerias com as escolas por formas a que os alunos consumam cada vez mais produtos culturais como os livros de escritores angolanos, em geral.
O assunto é tão sério na medida em que envolve questões como a identidade cultural de um povo, particularmente, da elite intelectual em formação que, entre outros, deve assumir a sua identidade não somente de ponto de visto jurídico, mas, e acima de tudo, no plano cultural. Neste sentido, o consumo de obras literárias de autores angolanos contribui para o reforço da identidade cultural angolana.

Conclusão
O sistema de ensino em Angola deve estar à altura de dar resposta aos desafios que enfrenta nos dias que correm. A criação de bibliotecas escolares (no verdadeiro sentido da palavra), associada à responsabilidade que a família desempenha no processo de formação dos seus filhos, são algumas das medidas que se impõem para que o estudante tenha acesso ao livro, ainda na infância, e consequentemente ganhe gosto pela leitura durante a sua vida. Do contrário, o recém-licenciado, ou ainda o técnico médio, dificilmente vai impor-se no mercado de trabalho, cada vez mais concorrido que, para além do diploma exige um conjunto de qualificações (como a redacção/elaboração, análise de documentos, particularmente os serviços admnistrativos) que em muitos casos, só podem ser obtidas por meio da leitura.
Pois, o País precisa tanto de pessoas formadas quanto de gente culta. E como diz o slogan ... Gente culta é culta que lê!

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