Grão de esperança com cheiro a café

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O ano velho correu as cortinas, não sem antes nos oferecer mais uma doce surpresa, desta feita por via da aclamada escritora santomense Olinda Beja (prémio Francisco José Tenreiro 2013), consagrada dentro e fora do seu país.

O primeiro livro infantil publicado por um autor de S. Tomé e Príncipe surge-nos assim com o sugestivo título de Grão de Café (uma antologia de contos) e foi apresentado a 27 de Dezembro último no Centro Intercultura Cidade, em Lisboa.

A autora, também professora de Língua e Cultura Portuguesa na Suíça, tem mantido ao longo dos anos uma forte ligação à pátria, e promove-a por este mundo fora através de acções e eventos marcadamente culturais.

Enche-nos assim de alegria o recém-nascido Grão de Café e acolhemos com entusiasmo esta obra pioneira, esperando que ajude a colorir e a conferir cheiro aos sonhos férteis e à insaciável curiosidade de todos os pequenos leitores da lusofonia, essa «ave migratória», na visão poética de Olinda.

São Tomé e Príncipe já desvendou um pouco de si ao mundo por intermédio de obras maiores de cariz diversificado, através da pena dos seus mais emblemáticos autores no género poesia, ensaio, novela; muitos contribuíram para expandir e consolidar a sua literatura, antes e após a proclamação do estado soberano ­ estou a pensar, naturalmente, no poeta Caetano da Costa Alegre, José Tenreiro, geógrafo de profissão e também poeta, Tomás Medeiros, médico e escritor, e Alda do Espírito Santo, sobejamente reconhecida no campo das Letras como escritora e poeta.

Sem desprimor para as gerações mais jovens, para cada uma dessas vocações que despontam no instante mesmo em que vos escrevo e são literalmente sugadas, quantas vezes de forma inesperada, para o mundo viciante da literatura. Escrever para crianças é certamente um inalienável compromisso, uma vez que visa não apenas o entretenimento de qualidade, mas também a edificação da personalidade dos mais novos, a criação de hábitos de leitura estimulando o prazer de ler; para além destes requisitos, cumpre invariavelmente uma função didática, relacionando a criança com o resto do mundo, através de uma linguagem ao alcance da sua compreensão e do seu vocabulário.

O livro infantil em Angola pós-Independência tem beneficiado do talento e da persistência de muitos dos nossos melhores autores: de Rui Monteiro a Ondjaki, passando por Pepetela, Dário de Melo, Octaviano Correia. Lembremos igualmente as contribuições valiosíssimas no feminino, das quais recordo apenas algumas: Maria Eugénia Neto, Gabriela Antunes, Rosalina Pombal, Maria Celestina Fernandes, Cremilde Lima, mantendo estas duas últimas autoras uma produção regular e assídua nos últimos tempos.

Periodicamente surgem novos talentos com propostas válidas para a literatura infanto-juvenil, porém, a volatilidade do mercado literário, a insuficiente valorização e o elevado custo de impressão e distribuição, são apontadas como algumas das razões que os levam a privilegiar outras carreiras, normalmente no ensino, onde mantêm um contacto próximo com o universo da criança e que supõem um mínimo de estabilidade.

Poucos são os que vivem da literatura, mas muitos serão os que se dedicam a ela por inteiro, sem reservas, vivendo para a literatura, cedendo a essa paixão pela Criança e à vocação indómita para comunicar.

Pessoalmente fascinam-me as obras híbridas que podem ser apreciadas igualmente por adultos e proporcionar leituras a vários níveis; nessa categoria incluiria As Aventuras de Ngunga, (que marcou definitivamente a minha infância), de Pepetela, o conto A fronteira do asfalto, de Luandino Vieira, tão belo quanto arrepiante, quase todos os clássicos de Andersen, Grimm e La Fontaine e, claramente, O Principezinho, de Saint-Exupéry, que quanto a mim se destina a crianças com mais de 20 anos .

São obras que tecem o convívio entre pais, filhos e netos, alunos e professores, que aproximam gerações e promovem a cumplicidade familiar em torno desse objecto insubstituível que é o livro, desse amigo que não nos larga nunca.
Obrigada, Olinda Beja, e a todos os que encaram a responsabilidade de escrever para crianças com um sorriso na alma.

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