José Carlos de Almeida: "Deveria haver um dia nacional consagrado ao semba"

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Para os mais sortudos que andam aí desbravando caminhos pela Maianga da Panela de Barro, a baixa da Lello, Caxinde, Escolar Editora, Mensagem e outras relíquias que o gosto de leitor idolatra, pode, num bom dia sol, dar-se ao encontro inesperado com uma figura de cultura como o José Carlos de Almeida.

E como a sorte apaixona-se pelos audazes, a que dar espaço e passear pela cidade, a que saber oferecer-se à oportunidade com certo rigor de militância, ingredientes que antecedem um "milagre" de natureza terrena como este.

Pois, este amigo da cultura está sempre com uma resposta bem construída na ponta da língua, uma cordialidade bem exercitada, e sempre à sua maneira: ao dispor das nossas perguntas, como nesta permuta de ideias que se estendeu da língua portuguesa à valorização do semba.

Cultura- Qual é o estado atual do casamento entre a escola e a língua portuguesa?
José Carlos de Almeida - Deveria haver um casamento feliz entre a escola e a língua portuguesa. A língua portuguesa é muito importante porque é através dela que os alunos conseguem interpretar outros documentos. Se as pessoas tiverem dificuldades no domínio da língua, obviamente terão dificuldades em interpretar, e isso acarreta muitas dificuldades.
O português deve ser bem estudado para que a mensagem seja bem recebida, ele é a base de toda compreensão científica ou religiosa. Infelizmente muitas pessoas não dominam as palavras e não manifestam a curiosidade em saber os significados delas. Há, consideravelmente, grande nível de pobreza de vocabulário entre nós.
Acho que o estatuto da língua portuguesa está a melhorar. Já alguns pais começam a ganhar consciência em comparar livros e oferece-los às crianças de casa. Num passado muito recente não tínhamos as feiras dos livros que temos agora, havia muito poucas livrarias. Hoje, embora já fosse tempo de haver mais, o cenário demonstra sinais de que alguma coisa está a melhorar.

C - Na música, acha que há harmonia entre cantores e compositores?
J.C.A- De facto, deve haver. E é urgente que haja uma harmonia entre cantores e compositores. A música é muito importante porque ela é consumida diariamente e os membros menores das famílias acabam ouvindo sempre que há festa ou alguma manifestação cultural. E quem ouve a música interioriza determinadas expressões e mensagens. Acho que na música deve haver sempre uma grande preocupação no que toca à língua, mas respeitando também algumas palavras que sejam nossas, como exemplo do kilapy ou do kumbu, mas sem desrespeitar as regras gramaticais da frase. Agora, usar mal estas palavras não tem nada a ver com a criatividade e só causa confusão àqueles que, eventualmente, venham consumir aquela música. Acho que todos podemos fazer alguma coisa para inverter este quadro que tem infectado cada vez mais as camadas mais baixas da franja social. Sobretudo a rádio e a televisão não devem permitir que emitam nos seus programas esse tipo de música, porque se assim procederem os produtores e os músicos saberão que se não forem convidados à rádio ou à televisão as suas músicas não irão passar. É natural que haja uma tendência criadora e subversiva de certa forma para que, do ponto de vista linguístico, possamos deixar a nossa marca, mas não construir propositadamente errada e fundamentar com argumentos de que toda a gente fala assim. Na música, a rádio e a televisão têm grande força, e depois ficaremos sem moral para criticarmos aqueles que falam muito mal porque nós todos estamos a contribuir com isso quando consumimos e aceitamos.

C- Que ideias tem para a valorização do semba?"
J.C.A- Eu acho que o semba e o kilapanga são as nossas grandes bandeiras musicais. E tal como é promovido o Kuduro (e está a ser bem promovido, respeitando as diversidades de gosto), deveríamos promover o semba. Deveria haver um dia e um concurso nacional consagrado ao semba. Porque há bastante diferença entre os cantores que cantam semba e os de kuduro. Se houver um dia do semba, tenho a certeza que se vai discutir muito a cerca deste tipo de música, e isto poderá suscitar a realização de muito mais espetáculos de semba. E é muito importante que haja um espaço oficializado onde as pessoas possam ouvir canções de diferentes executores e gerações do semba.

C- Que empecilhos?
J.C.A - É preciso haver incentivos direcionados à preservação deste estilo musical que mais nos identifica, se for institucionalizado um dia em homenagem ao semba será muito vantajoso para a nossa cultura. Tudo depende da política dos agentes culturais. Porque se for nosso objetivo preservar o semba, então devemos também passar testemunho e reforçar a utilização de instrumentos musicais tradicionais. É preciso também que nos espetáculos musicais haja exibições individuais de executores dos instrumentos musicais nacionais, isso poderá influenciar com que as pessoas usem.

C - Que reações?
J.C.A - Fico muito triste quando até em músicas do carnaval entram esses ditos instrumentos modernos que não têm nada a ver com essência do próprio carnaval. Acho que a Direcção da Cultura deveria criar critérios que impedissem, ao menos nas músicas do carnaval, o uso de instrumentos eletrónicos. E o Estado pode intervir porque deve ser o principal interessado na preservação dos instrumentos musicais nacionais.

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