Kawana vezes kawana

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Um dia friccionei dois paus e sem esforço eles geraram uma chama, a da amizade.

Kawana vezes kawana
Kissama Fotografia: Jornal Cultura

Mas era preciso consolidá-la. Então cada um dos meus amigos acrescentou uma brasa. Agora o fogo estava vivo e bem aceso. Mas era preciso transportá-lo e ergue-lo, o mais alto possível, em favor da Paz, da solidariedade, do amor ao próximo, e da nossa amizade. A partir daí não mais paramos, caminhamos e levantando a nossa Tocha.
De t-shirts cor da Paz, naquela manhã de Novembro, encontramo-nos às quatro horas e trinta da manhã, já a Sul da Cidade de Luanda, e rolamos pela estrada estreita que nos leva ao Sul de Angola. Sentindo os aromas da atmosfera que só aquela hora são perceptíveis.
Era a brisa do mar que balanceava o aroma do peixe fresco de ontem, era o Sol que embora ainda não tivesse nascido cheirava a calor. Era o enevoado matinal do princípio da Estação quente, que permitiu respirar fresco sentindo os aromas que não assentaram na calmia da noite. Eram os flamingos (Phoenicopterus ) que mal se vêemno quilómetro 30, embora as Camboas estejam com água e peixe suficiente para osalimentar. Era a praia das Palmeirinhas, que ainda limpava a ramela da noite mal dormida, pelo bater das ondas nas suas areias finas e brancas. Era o Miradouro da Lua, adormecido que ainda estava, cheirava a cores várias de suas terras soltas e ravinosas.
A Ponte do Kwanza, acordou-nos, comos seus vinte e dois saltinhos, entre lombas e bandas sonoras, quebra molas, antes, durante e depois do tabuleiro, a darem-nos no lombo e nos amortecedoresdosautomóveis, que mesmo novos, não impediram que os nossos traseiros pulassem. O que em parte foi bom, pois para além de nos permitirem usufruir, observando com calma o imponente Rio Poderoso, como lhe chamaram os portugueses quando aqui chegaram em 1482 ou 1483,preparou-nos os músculos para as horas que nos esperavam de massagens ao trepidar do barulhento UNIMOG, que nos ia transportar no Safari do Parque Nacional.
Depois de termos lutado com as moedas, digamos por falta de hábito de as usar, paraos trocos da portagem da Ponte da Barra do Kwanza, e de a transpormos, viramos logo ali àesquerda, parao nosso destino primeiro naquele dia que se adivinhava deslumbrante.

Kissama
A Barra do Kwanzaque ficou nas nossas costas. Pertence ao corredor do Kwanza, do qual fazem parte a Fortaleza de Massangano, da Muxima e a de Kambambe. A Kissama, não é só um Parque para Safaris, como se faz querer, tem também um perímetro agrícola e uma povoação. Fez parte do ­perímetro da Província de Luanda, era Município e a sua sede era a Vila da Muxima. Depois passou a pertencer à Província do Bengo, e agora outra vez à Província de Luanda.
Foi aqui nesta Barra do Rio Majestoso, Poderoso, Ngola, o nosso Kwanza, que o navegador português, Diogo Cão, no Século XV, viu umas Canoas transportando mercadorias e pessoas e decidiu aguar os seus Barcos, e provar a água, confirmando a sua doçura tal como a terra que por ele é banhado.
Cerca de oitenta anos depois nesta mesma Barra, desembarcou o Navegador Português, Paulo Dias Novais, em 3 de Maio de 1560, como embaixador do Rei de Portugal junto ao Rei NgolaKiluangiKya Samba.
Mais tarde vai Paulo Dias Novais a Portugal e dá a conhecer ao Rei as potencialidades das terras de Ngola, e daí o Rei Português decide a 19 de Setembro de 1571, dar-lhe uma carta de doação como Capitão – Mor Donatário do futuro Reino de Sebaste na Etiópia inferior.
É nesta carta de doação, que era um Estatuto Administrativo, Politico, Económico, Social e Judicial, que o Rio Kwanza passou a ser divisão do Território, em que os limites geográficos da Doação, eram, do Rio Dande até ao Rio Kwanza, era uma doação vitalícia, e do Rio Kwanza para sul era uma doação Perpétua, podendo ser herdada por seus descendentes, à excepção da Minas de Prata caso estas fossem encontradas. Foi estipulado, na parte que correspondia à perpetuidade, que seriam 35 léguas de terra, que começaria a contar da Foz do Kwanza, pela costa do Atlântico, e que entraria por terra até quanto pudessem entrar. Ora este é o território da Kissama.
O Parque Nacional da Kissama localiza-se na Província de Luanda, a 75 quilómetros a Sul da Cidade Capital de Angola. Tem uma extensão de 9.960 Km2, e como Limites Geográficos: a Norte pelo Rio Kwanza desde a sua Foz Até à Povoação da Muxima, a Sul pelo Rio Longa, a Leste pela estrada que parte da Muxima até ao encontro com o Rio Longa, a Oeste pelo Oceano Atlântico, da Foz do Rio Kwanza até à Foz do Rio Longa.
Deparamo-nos com a visível entrada do Parque, antecipada de uma bela, robusta e frondosa, peça de arte em metal prateado, com o busto do Presidente José Eduardo dos Santos, que tal como outras tantas no nosso País, não tem placa do Artista que a concebeu.

Como se escreve Kissama?
Enquanto eu esperava para cumprir o procedimento na entrada do Parque começaram as surgir as perguntas do grupo de amigos:
- Como se escreve Kissama? O nome aparece escrito em vários livros, dicionários de formas diferentes.
Embora eu não seja linguística, nem essa seja a minha área de estudo, apraz-me explicar-vos o pouco que sei.
Este espaço que foi estabelecido como Reserva de Caça pelas autoridades coloniais portuguesas em 16 de Abril de 1938, era pertença de um Departamento e depois Ministério da Agricultura. Com a criação do Ministério do Ambiente passou a ser por este tutelado. onde podemos fazer Safaris e ver indivíduos diferentes de nós, e que tem escrito na sua imponente fachada, na Porta 1 Bravo 2 em baixo da figura doBúfalo, seu símbolo, o nome Quiçama.
O nosso grupo, de turistas, era heterogéneo, entre Luandinos do Bairro Operário, Cabindas, Gente do Planalto Central, do Huambo, e outros, constituíamos assim uma grandiosa família, não propriamente pelo número, de pessoas, mas pela coesão, amizade, e idoneidade que mais de meio seculo que cada um tem de idade, nos dá um enduranceprópriade kotas.
Por sermos todos, cinquentões, sessentões, esetentões, não fomos comtemplados com o benefício pensado para as famílias,de não pagar a Taxa de entrada, que só é dado a pessoas menores e a centenários.
O nosso talão de pagamento da taxa de entrada, para além de espelhar a existência do benefício, tinha o símbolo do Parque com o escrito Quiçama e em baixo a negrito escrito Parque Nacional da Kissama.
Feitas as diligências da entrada, percorremos cerca de 39 Km, dentro do Parque, onde nos deparamos com mais um portão com um segurança, abeirado de uma Placa de Bronze alusiva àInauguração, pelo nosso Presidente da Republica, no ano de 2000, do Parque Nacional da Quissama.
Se me permitem um à parte, o discurso do Presidente escrito na Placa dizia e passo a citar: “…Hoje, com a progressiva consolidação do processo de Paz, abrem-seperspetivas que visem a recuperação e o repovoamento dos diversos Parques Nacionais…” . Portanto reinauguração.
Entretanto o Sol deu o ar da sua graça, dando-nos os bons dias, ao chegarmos ao Miradouro, onde pela nossa lógicaestávamos no terceiro Parque.
Senão vejamos:
No Parque Nacional da Quiçama, segundo o símbolo que esta na fachada. No Parque Nacional da Kissama, segundo a Fundação que dele adquiriu o nome e que o geriu vários anos. No Parque Nacional da Quissama, segundo a placa de Reinauguração.
Até aqui tínhamos encontrado o mesmo nome escrito de formas diferentes ou estaríamos em locais distintos.
Quando foi da Independência de Angola em 1975, o Estado Angolano, decidiu e bem, deixar de usar as letras C, Q, e U, do alfabeto português, substituindo as duas primeiras pelo K, e o U pelo W, do alfabeto Kimbundo. A troca era válida para os nomes Nacionais.
Há alguns anos a esta parte, o mesmo Estado Angolano, através dos Ministérios competentes decidiu voltar a uso do C, do Q e do U, coloniais, por Despacho Ministerial, permanecendo para alguns nomes o uso do K, e do W. Como por exemplo Kwanza.
Esmiuçando mais o assunto, o alfabeto Kimbundo, língua sónica, que os portugueses encontraram, de entre as vogais substitui o U pelo W, o I pelo Y, e nas consoantes, o K pelo C e pelo Q. Também há autoresque substituemas consoantes C e o Q pelo K , mantendo o uso normal das vogais I, e U.
O acordo Ortográfico, assinadopor vários Países de Língua Oficial Portuguesa, em 2015, ao qual Angola não Ratificou, foram acrescentadas ao alfabeto português, as três letras, respectivamente K, W, e Y, que não fazem parte do alfabeto Português - angolano. Guilherme de Almeida, no seu Léxico Prático Kymbwndw – Portuguêsutiliza estas três letras, como sendo do alfabeto Kimbundo.
Passando a partir daí, o alfabeto dos países que ratificaram o acordo a possuir vinte e seis (26) letras. E pelo que percebo, Angola tem um alfabeto herdado do Colonialismo, a que eu chamo Português – angolano, de vinte e três (23) letras, em que o K, W, e Y, não são parte integrante.
Do pouco que consegui investigar, o Etnógrafo, Folclorista e Escritor Óscar Ribas no seu Dicionário de Regionalismos escreve o nome com Q de quanto mas com dois SS, o que perfaz Quissama.
No Dicionário de Kimbundu – Português, do Linguístico, Botânico, Histórico e Coreográfico, A. de Assis Júnior, edição da Livraria Argente, Santos & C.ª, L, da, Luanda, a letra C não faz parte do alfabeto Kimbundo, tal como o Q de quanto. Sendo estas substituídas pela letra K. E Assis Júnior escreve com apenas um S e usa o K, no nome em questão.
Nos escritos coloniais oficiais e não só, assim como português de Portugal a palavra é escrita da seguinte forma - Quiçama.
Como a informação das substituições da forma de escrever os nomes, que possuem estas letras, mal chegou ao pacato cidadão, cada um escreve conforme lhe convém, mesmo oficialmente. Leva-me a cogitar sobre o ser premente obrigar a escrita da mesma forma, sob pena de as gerações futuras ficarem com mais duvidas que hoje nós temos e errarem ortograficamente sem o saberem.
Pelo facto de eu estar de acordo com as línguas autóctones e ser um pouco gentia, e nativa, escrevo a palavra desta forma, Kissama.

Qualquer coisa, batem no vidro
À nossa espera estava um carro de Guerra, pintado de cor da Paz, e dirigimo-nos a ele e não percebendo como se subia, até que vimos a escada do próprio meio de transporte.
Problema grave, como alcançar o primeiro degrau cuja altura era superior a 50 centímetros, o espaço entre os vários degraus era superior a 30centímetros e os próprios eram de tubo arredondado.Os mais resistentes fisicamente fizeram de primeiro degrau e de apoio aos mais débeis, que ainda por cima eram mais pesados. E os primeiros a subir puxavam os seguintes. Autêntico exercício de acrobacia. Nenhum de nós era deficiente felizmente, mas ninguém tinha vinte anos.
Precisávamos da aplicação da Lei das Acessibilidades, que dá o direito aos cidadãos portadores de deficiência, ou debilidade, que não era o nosso caso, de se movimentarem e terem acesso a todos os locais em igualdade de circunstâncias dos outros, para todos poderem visitar o Parque Nacional da Kissama.
Todos sentados, entra para o banco da frente um segurança com uma AK-M, e uma caixa térmica que colocou a jeito para poder abrir com facilidade caso necessitasse. Interrogamo-nos sobre o conteúdo da caixa térmica, e o Camilex, apressadamente respondeu:
- Isso são munições, a qualquer momento podem ser necessárias. Não viram como ela estava pesada e vai de maneira a ser aberta facilmente?
Entretanto o segurança vira-se para nós e diz:
- Qualquer coisa, batem no vidro e eu actuo.
- Tudo bem. – Respondemos.
Os Kissamas, que era o caso do segurança, pertencem ao um grupo étnico Kimbundo, e foram um povo guerreiro e muito sacrificado nas ditas guerras Kuata –kuata, por estarem perto do Litoral e por isso ter sido mais fácil ao Colonizador apanhá-los, e leva-los para as roças de São Tomé e Brasil. Lembrem-se que os navios Portugueses aguavam na Barra do Kwanza.
Fomos rodando, e eis que nos surgem à nossa frente, no nosso trilho, Galinhas Capota ou Galinha de Angola, como lhe queiram chamar, que nos iam indicando o caminho a percorrer, até que as pintas brancas do corpo negro e cabeça azulada se decidiram entrar no mato.
De seguida decide indicar-nos o caminho um Sengue, aí começou a animosidade da malta, depois o jacaré pequeno, o que levou uma integrante a imaginar em voz alta a sensação de um destes repteis a subir pelas únicas pernas nuas e gostosas de uma das nossas amigas, só que ela de repteis só gosta de Sardões e de cabeça vermelha.
Quem não riu, chorou de rir.
A manada de Gnusou Boi Cavalo (connochaetesTaurinus),típicos indivíduos de Savana Africana, alimentam-se de gramíneos, o que significa que das nossas carnes, ainda por cima velhas nada quereriam, passaram a ser os nossos guias, seguindo o trilho à nossa frente, permitindo que todas as maquinas disparassem, para conseguir a melhor foto. Muito nos empurramos, por isso quem criar nodoas negras com facilidade, não se junte a esta família.
De seguida os Golungos ( tragelaptusSriptus ), herbívoros, antílope cujos machos têm uns longos chifres, em forma de espiral, por isso temidos pelos outros indivíduos, que nem das suas fêmeas se aproximam.
Os ânimos aumentaram com o surgimento dosOlongos(tragelaptusStrepsiceros), depois a variedade de primatas saltitando enquanto as Avestruzes (Struthiocamelus ) circulavam por terra, as Águias, aves de rapina, rabos de junco e outras aves esvoaçavam permitindo espectaculares fotos.
E como estávamos na maré de indivíduos tom deAcácia rubra, surgem as nossasmelhores modelos, com vestes alaranjadas, de contornos brancos formando hexágonos, corpo esbelto pescoço empinado, olhos brandos, cornos pequenos, comendo folhas de acácias. Chegaram, pararam, juntaram-se bamboleando-se, e desfilaram para tudo o que é fotografo, até nós saímos na foto com as Girafas(GirafaCamelopardalis ), enriquecendo a nossa página do facebook.
As girafas são boa companhia, não só para os humanos, mas também para os outros indivíduos, devido aos seus seis metros de altura, elas conseguem observar primeiro os outros indivíduos, e avisamdo perigo, daí viverem sob sua tutela, os Gnus, as Zebras e Antílopes.
Onde a Savana era mais seca o Unimog parou, o segurança desceu com a sua caixa térmica, arma a tiracolo, e nós assustados. De caixa no chão, o homem abre-a e começa a distribuir suminhos e bolachinhas, agua, afinal eram monições contra a fome.
A gargalhada geral, abafou o barulho do Unimog.
O que não foi agradável foi a lesão contraída pela MalenaNovaes, na cara, com os ramos, mal podadas, que entravam sem pedir licença pelo Unimog, a dentro, das palmeiras matebeiras. Não fosse ela de raça Cabinda, podia ter sido grave.
Depois de algumas horas de Safari regressamos ao Miradouro para tomarmos o Café da manha, servido pelo Marco Gilson, uma peça imprescindível no nosso xadrez, poiso matabichodeCola e Gengibre já tinha sido às 4 horas da manhã.
Aqui como bons cidadãos que somos, dividimos sem nossa autorização o nosso pequeno-almoço com o grupo de macaquinhos, que na sua incomum desenvoltura, sem guinchar para não serem ouvidos, foram habilidosamente aos sacos abertos e destramente tiraram o que lhes veio à mão. Afastando-se um pouco, abriram as embalagens na nossa presença para melhor gozarem. Os loengos, frutos do Lohengueiro, avermelhado roxeado, do saboroso Doce da Mané, depoischeirados os caroços foram chupados com, bolacha, pão, tudo o que foi possível roubar pelos Mabecos.

Aí Mouraria
Enquanto apreciávamos do alto, os mangais do Kwanza, que serpenteavam a Planície até à Foz do Rio, com vegetação diversa entre matas secas e galerias florestais, até à embocadura do Atlântico, o casal mais jovem, a Zulmira e o José Manuel Carneiro, apanhando-nos distraídos decidiram namorar pensando que ninguém os estava a observar, mas a câmara da nossa repórter fotográfica captou tudo, sem que eles reparassem.
Depois de tirada a fotografia de família, enquanto arrumamos as bicuatas, nos sacos, o cantar doce, ritmado da maestra Ana Catarina Camoesas, chamou-nos para em conjunto entoarmos entre outras, o fado “Aí Mouraria” imortalizado pela Amália Rodrigues.
Dos elefantes rodamos sobre as suas bostas, das Zebras ficou-nos a imagem do beijo da Zulmira e do José Manuel Carneiro, e mais um sem número de indivíduos que não sentimos e nem observamos, mas havemos de voltar.
Saímos do Parque Nacional da Kissama, e fomos piquenicar entre o Rio e o Mar, na Foz do Kwanza, à sombra das Palmeiras matebeiras.
O Centro nevrálgico da Kissama é a Localidade Kawa, nome este associado à fuga dos homens em quadruple, para que fossem confundidos com animais e assim escapassem à caça ao homem, nas Guerras Kuata –kuata de que já vos falei.
Kawa é a abreviatura de Kawana que significa em Kimbundo quatro, ser quadruple, ser animal, ter quatro patas.
Nós, não éramos quatro, mas sim quatro vezes quatro,Kawana vezes kawana, e felizmente já não precisamos de fugir do Colono, e por isso erguemos mais alto a chama da nossa Tocha isto é, o significado de Kissama.
SANDRA POULSON

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