Kuduro na teoria estética e na sociológica da arte

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I.    Teorias da arte

Teorias filosóficas: Sorriaux estabeleceu a estrutura funcional da arte: (i) linhas: desenho, caligrafia; (ii) cor: pintura; (iii) movimento: dança, teatro; (iv) volume: arquitetura, escultura, (v) sons articulados: poesia/declamar poesia, retórica; (vi) sons musicais: ópera; (vii) animação: cinema. Como podemos notar, são fenómenos que partem de práticas concretas na vida social. O objeto de cada modalidade é, fundamentalmente, a dimensão cognoscitiva que a obra leva, por um lado, e por outro a perceção estética (que é normativa) do resto. A moral que está casada com a etimologia da palavra arte, faz com que a última conquista social seja o BEM. Dai a assimilação, por parte dos sociólogos, da arte ao bom gosto.

Teorias sociológicas: (i) sociologia do gosto. Pierre Bordieu é de opinião que o processo da socialização traz com ele ingredientes que, inicialmente, são culturais. Aqui o "ser social" gosta de P, porque a estrutura cultural que o formatou permite-lhe gostar ou não-gostar deste com comportamento S; (ii) estética do gosto. Alexander Baumgarten explica como o "ser social" reage perante M (um fenómeno) consoante um comportamento O que o identifica coletivamente, porque assim foi iniciado; mas também ilustra como o "ser individual" (ou indivíduo) ­ pelo exercício intelectual ­ fabrica a sua subcultura a partir dos parâmetros do comportamento coletivo.

II. A Arte e os seus tempos de criação

Começo por relembrar que a arte é toda obra cuja forma e conteúdo em congruência com o tema é uma criação. A sua fórmula lógica é: = {(  /)   } , ou ainda: ={(  /)   }= .

É fundamental sublinhar os diferentes tempos pelos quais passa a criação de qualquer obra de arte. Compreender-se-á os seus contextos, que levam à valorização da obra ­ a partir dos tempos percorridos pelo seu autor ­ e o lugar onde a própria sociedade a coloca.

1) Tempo mecânico: trata-se da duração da execução, do seu início até à exposição pública. Requer uma prévia mestria na execução; enquadra-se nas realidades definicionais e históricas que orientam a execução. Pode ser longo para um trabalho minucioso que requer atenção, como pode também ser menos demorado por outras razões. Visto do ponto de vista da aprendizagem, o tempo mecânico tem duas partes: (i) tempo mecânico de aprendizagem; (ii) tempo mecânico de mestria. Esses dois subtempos mecânicos indicam a necessidade do executor da arte passar pela formação académica, e pela formação profissional (ser discípulo de alguém que o inicie no profissionalismo: deontologia, comportamento profissional, ética...). Mas do ponto de vista artístico (para quem já exerce a arte como profissão), esse tempo dura todo o tempo da transformação da ideia em arte como sache.

2) Tempo psicológico: geralmente a conceção de uma obra não é imediata, a não ser uma simples cópia. Esse tempo psicológico parte inicialmente da socialização do indivíduo na sociedade onde se integra. Ele ganha a sua idiossincrasia na fase de adolescência e influencia, de tal maneira, toda a sua conceção do mundo. Pois interpreta este mundo que cria, partindo da sua própria medida: (i) tempo psicológico sensorial, que parte da interpretação artística (que é moroso); (ii) tempo psicológico criador, que parte da "nova" conceção (que é instantâneo). Dentro desse tempo, há o "tempo psicossociológico" que, na verdade, começa logo depois do tempo sensorial: a própria sociedade ensina as expressões dos sentimentos. Ahka! Assim exclamam os Umbûndu. Aiwé, dizem os Ambûndu. A sua interpretação, também, depende desse "tempo psicossociológico" (interpretação dos símbolos: ver Todorov).

 3) Tempo filosófico: esse tempo, na criação de obra da arte, é apreciado em três prismas: (i) no tempo psicológico sensorial, o autor estabelece uma estrutura daquilo que interpreta, mas precisará de ferramentas racionais para expressá-lo. Essa etapa chama-se tempo filosófico basilar; (ii) arte é expressão da relação entre a ideia exposta (e a forma que é expressa) e a cosmovisão existente: quando renuncia aos paradigmas correntes, há o tempo epistemológico. Mas quando se horizontaliza com o tempo psicológico sensorial, desenha-se uma pausa racional que pode ser retomada pelo próprio observador; (iii) tempo filosófico real é quando a ideia torna-se corpo (Hegel; Danto). A obra fala por si só. A obra passa a ser “obra de arte”: a arte volta a si mesma (arte é \filoso\ia, antes de mais : Aristóteles; Kant; Hegel; Danto).

De ponto de vista estético, a leitura de uma obra de arte não só obedece previamente ao domínio de ferramentas metodológicas que implicam o tempo suficiente para compreender a linha de pensamento, mas também oferece aos especialistas “traços de personalidade” passíveis de serem traduzidos na interpretação do mundo (pelo artista).

Trata-se aqui de um conjunto de reflexões filosóficas. A sua aceitação exige-se universal, ou pelo menos deverá ter essa tendência na sua formulação. Para ser artista, deverá passar por três etapas: (1) pseudo-artista: aquele que dominar conhecimentos teóricos e técnicas/práticas de uma modalidade artística; (2) quase-artista: aquele que mostra – durante algum tempo – conformidade diacrónica na sua expressão artística e lidera uma postura social; (3) artista: aquele cuja arte já é teoria que justifique a sua funcionalidade em qualquer sociedade.

Do ponto de vista sociológico, a leitura de uma obra de arte implica – antes demais – considerar os parâmetros sociais que definem o comportamento sociocultural do conjunto onde o artista se integra. Um artista é, antes de mais, um ser “consagrado” sociocultural. Geralmente, são duas etapas fundamentais: (1) fazedor da arte: aquele que se serve da arte para conservar a sua cultura; (2) artista: aquele que expressa uma “cultura espontânea”, ganhando simpatia sociocultural. Aqui o fazer “arte/cultura” é uma questão de aceitação popular e não de know how teórico/técnico. A diferença da arte nas duas teorias é a seguinte: arte, esteticamente, requer conhecimentos teóricos/ práticos com uma certa retórica. Já sociologicamente, a popularidade exprime a aceitação da arte.

Será o Kuduro arte? Claro que é, mas a sua tipificação ainda parece problemática. Encontramos um pouco de música e um pouco de dança e, uma alta teatralização dos sentimentos. Trata-se de performance.

De outra forma, o kudurista Nagrelha é artista dentro dos parâmetros definicionais da cultura angolana. Assim o será, acho eu, Puto Português e tantos outros de modalidades diferentes. Primeiro, porque têm uma aceitação popular em Angola. Infelizmente, não dispomos de instituições promocionais/académicas para uma apreciação estética dos seus “feitos”.

Contudo, por mais que gostemos desses ‘músicos’, temos consciência de que do ponto de vista estético, ainda não são artistas: além de não terem mestria suficiente nas suas modalidades, o próprio país (Angola) ainda não dispõe de instituições para elevar os produtos kuduristas/sembas à mesma proporcionalidade que as outras propostas (internacionais).

Num mundo neo-capitalista, os países pobres (ou em vias de desenvolvimento) ainda encontram inúmeros problemas basilares e funcionais: a falta da indústria musical não só mantém a pobreza, como também não oxigena bastante o verdadeiro desenvolvimento da modalidade. O mesmo vale para o teatro, a dança, o cinema, etc.

De acordo com a teoria sociológica, Angola tem artistas em varias modalidades: os seus consumidores buscam um prazer explicado pela Cultura. Não diremos o mesmo de acordo coma teoria estética: as escolas médias da arte foram fechadas; as instituições promocionais apresentam enormes dificuldades na sua operacionalidade; os circuitos da arte a nível local (Trienal de Luanda por exemplo) ainda são tímidos e quase isolados. De modo geral, o consumidor angolano é esteticamente não treinado.

O que na verdade acontece é a larga ausência de instituições legitimadoras da arte, de ponto de vista estético/sociológico: (1) instituições académicas: Escolas  básicas, médias e superiores de Arte, quer na Prática quer na teoria: fonte de praticantes e de críticos da Arte profissionais.

Associações académicas de críticos e de praticantes engrandecerão a seriedade das modalidades artísticas; (2) instituições promocionais: UNAP, UNAC..., infelizmente, em alguns casos, tornam-se “empregos” e não “gestores de empregos para os seus associados”.

Em condições normais, devem promover bienais, festivais, colóquios, exposições/exibições e resolver os problemas dos artistas relacionados aos ateliês e lojas de materiais, criação de estúdios de gravação e industrialização da música, criação de espaços de representação, etc.; (3) instituições sociopolíticas e socioeconómicas: o Estado assume sempre o papel de criar leis e políticas para

Funcionalidades das instituições supracitadas (lei do mecenato, por exemplo) de maneira a permitir que as atividades socioeconómicas estejam em correlação com as atividades artísticas. Num mundo neo-capitalista é fundamental que se observe isso, sob risco de levar a classe artística ao servilismo financeiro (sem objetivo artístico, queremos dizer).

Como acabamos de ver, a apreciação da arte deve fundamentalmente obedecer a uma ou outra teoria para falar com propriedade. Em relação ao nosso país, ainda buscamos criar as condições para tomarmos posições corretivas, antes de impor o Kuduro (por exemplo) ao resto das culturas. Há essa urgência de resolver o analfabetismo artístico, quer no consumo, quer na teoria, quer na técnica. Essa é a minha humilde contribuição.

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