Lembranças do Maculusso: No tempo da comissão de bairro

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Teria eu 11 anos, numa época em que as crianças não tinham tempo de sê-lo e os adultos andavam ocupados a construir um país.

Como quase todas as memórias, também esta resulta da mescla em igual proporção de factos, emoções e cicatrizes tatuadas na alma, deste tempo em que não havia impossíveis para os homens e mulheres de boa vontade.

Que me perdoem por isso os puristas pela eventual falta de rigor histórico.

Éramos adultos de pequena estatura e os nossos pais orgulhavam-se da nossa autonomia e envolvimento social e político, sem que para isso fossemos especialmente estimulados, apenas deixavam que nos impregnássemos desse ambiente de transição e de esperança que nos nutria a todos.

Nessa época, existia uma unidade orgânica denominada comissão de bairro, que se mantinha essencialmente graças ao trabalho voluntário que lhe dedicavam alguns jovens idealistas e alguns mais velhos que emprestavam a sua experiência e sensatez aos aspectos mais burocráticos do trabalho.

Nós, os do Maculusso, atendíamos numa antiga vivenda cor-de-rosa e aí se tratavam de vários assuntos de âmbito administrativo e também social. Não tínhamos formação específica para aquele tipo de atendimento (quem a tinha?) mas improvisávamos o melhor que sabíamos e podíamos, conjugando essa atividade com as nossas ocupações principais, que eram basicamente os estudos e outras intervenções associativas e de carácter social.

Uma vez apanhámos um grande susto ao encontrar uma granada no quintal da vivenda, não sei o que foi feito dela mas depreendo que a missão tenha sido bem-sucedida uma vez que aqui estou a partilhar convosco estas notas ao cabo de quase quatro décadas! (Imagino que os nossos pais nunca tenham chegado a tomar conhecimento desse detalhe).

Para além do trabalho em horário do expediente, tínhamos regularmente reuniões noturnas nas quais se debatiam uma infinidade de assuntos que julgávamos ser do interesse dos moradores: problemas de alojamento de famílias numerosas, financiamento da própria comissão de bairro para promover e implementar atividades coletivas.

Nesse sentido, alguém propôs um dia que os moradores pagassem uma cota simbólica, e ao cabo de um produtivo debate de 5 horas (!), com muitas críticas, autocríticas e pontos de ordem, chegou-se finalmente a um valor que, segundo consenso geral, não lesava as famílias de baixos rendimentos (que seriam quase todas, naquela época em que o dinheiro perdera muito do seu significado) mas que permitiria contribuir significativamente para a instituição.

Não recordo já o motivo, mas sei que tal decisão nunca chegou a ser posta em prática... como muitas das ideias mais ou menos brilhantes que nos atravessavam naquelas noites insólitas.

Mas o que vos quero contar foi o arrepio que me percorreu (de tal forma que ainda hoje o sinto na pele), quando, ao iniciar uma dessas reuniões a horas tardias, o jovem adulto que presidia à mesa me dirigiu a palavra, com toda a solenidade exigida pelas circunstâncias, para anunciar que me cabia a mim fazer o ponto da situação político-militar do país!

Durante alguns eternos segundos de angústia, do alto dos meus 11 anos, tentei então reunir apressadamente tópicos, vocábulos e o timbre necessário e convincente para cumprir tão temível e importante missão e não desiludir os meus pares.

Acabei, naturalmente, por ser resgatada desse pesadelo por outro companheiro que se apiedou de mim e chamou a si essa responsabilidade, livrando-me da desonra!

14/10/12

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