Literatura Oral na Tradição Angolana

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Literatura oral é a arte da verbalização dos eventos, quer sejam reais ou fictícios, observando imagens e sons cujo principal objetivo é o de educar, corrigir, incutir conceitos e valores morais, apelando sempre à observância da matriz cultural de um povo.

São as comunidades rurais os principais produtores deste género. Apesar de desempenhar um papel preponderante, não é vista numa perspetiva artística e seus executores não são tidos como profissionais, embora entre os contadores de estórias haja o reconhecimento de alguns serem exímios narradores.

A literatura oral nas localidades referidas é considerada como um elemento de recreação, animação, passatempo, por isso encontra grande espaço para ser contado no período noturno, precisamente em noites de luar.

Cada sessão dura um tempo indeterminado e recebe o nome de kusuinguila (pernoitar) e reúne um grupo de interessados numa residência ou fora dela, sem obedecer qualquer tipo de critério ritual.

Os contadores perfilam espontaneamente em ordem natural, sendo o aborrecimento por parte dos ouvintes e o entardecer causas justificativas de deserção gradual das pessoas, o que leva ao encerramento do ato.

Em regra, as estórias são contadas por mais velhos, revestidas de grande sentido de lições de moral e de heroísmo. Mas não são apenas as narrativas orais que predominam a noite, são intercaladas por outros subgéneros como o missoso, sabo, isto é, enigmas e provérbios.

Contudo, há nos contos orais angolanos géneros que se revelam simultaneamente enquanto o narrador expõe energeticamente o texto oral aos olhos atentos dos seus espectadores. Por exemplo, a música, a dança, os gestos, as advinhas, as parábolas, a interação com os interlocutores e o senso forte de humor são elementos típicos do conto oral angolano.

Numa perspetiva angolana, ou mesmo universal, este género permaneceu até aos nossos dias por ser um produto que se transmite de geração em geração e que se guardou nos memoriais.

Constitui um legado popular, por isso mesmo não regista autores e ninguém ousa em assumir autoria. Assim, o mesmo reserva o seu fim meramente recreativo, animador e se constitui como património imaterial.

Há um protagonismo em cada contador em função da relevância do conto e da apreciação da audiência. Existem particularidades que o contador assume, como o poder criativo e de improviso na hora da narrativa.

Estamos perante o adágio que reza o seguinte:" quem conta um conto aumenta um ponto", e este princípio atinge até literaturas universais.

Certo investigador da cidade de Harvard, Albert Bates Lord, apresentou uma analogia de transcrições de narrativas orais de Bordos da Jugoslávia, reunidos por Milman Parry, no longínquo ano de 1930 e outros notáveis textos épicos de odisseias e de Beowulf.

Lorde chegou à conclusão de que a maioria das estórias dos textos requeria uma tarefa improvisadora ao longo do processo de narração. Por isso, ele descobriu duas tipificações no vocabulário narrativo: a fórmula e o tema.

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