Luanda cidade desclausurada

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Há gente, aparentemente, bem formada, que, por interesses inconfessos de conveniência individual (ou de grupo), se deixa facilmente arrastar pela maledicência e esquece-se de olhar para o seu próprio umbigo.

Luanda cidade desclausurada
Luanda cidade desclausurada

Gente, quase sempre de um mesmo país, assume o discurso do “Velho do Restelo” e solta o seu mau carácter através da inveja e do revanchismo, fruto de um preconceito fortemente enraizado: o da “euroupite aguda”, em relação ao desenvolvimento de Angola e dos angolanos. Já Einstein dizia: “(…) é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito”.
Só gente de baixa estirpe e mau carácter, possivelmente, a custo de alguns patacos, usam, conforme as circunstâncias, ou o discurso do “bota-abaixo” e da “profecia da desgraça” ou, então, cinicamente, o protectoral e paternalista discurso da “lusofonia”. Em português não nos entendemos e a prática demonstra-o. Relações, que deveriam ser de horizontalidade, estão ainda em plano inclinado.
O Sr. António Pinto Ribeiro (se calhar bem recebido, em algum momento, no nosso país) escreve no jornal Público que Luanda é “a cidade da clausura” e justifica esta sua afirmação com base em inócuas razões de circunstância, omitindo, claro, as de substância.
Desconhecerá, talvez, que já no início do século XVIII, o historiador brasileiro Elias Correia, afirmou: “a sociedade dominante em Luanda é licenciosa e atentatória à moral católica. A cidade era a mais suja do mundo, com as ruas cheias de lama e estrume, os animais vivendo nas ruas no meio do lixo atirado de todos os lados. Os habitantes sofriam de paludismo e desinteria, e todas as pestes provocadas pela atmosfera pútrida em que viviam. As casas estavam reduzidas a estado de pardieiros e os edifícios com imponentes fachadas mas ameaçando desabar estavam rodeados de cabanas sombrias e sem ventilação e casas em ruínas que serviam de despejo a toda a espécie de imundices. No entanto, para reforçar os contrastes, nesta cidade descuidada, infecta, mal cheirosa, que os grandes senhores se contentavam de disfarçar mandando queimar alfazema e açúcar no interior das habitações, havia a maior ostentação e luxo. Os senhores e as suas consortes vestiam caras sedas, veludos e brocados, como nas cortes europeias, sem temerem a sauna a que se condenavam, passeavam pedrarias, espadins e fivelas de ouro nos sapatos, para os mergulhar logo em seguida no esterco das ruas”.
Desconhecerá, talvez, que, a vida cultural, em Luanda, se resumia a algumas poucas representações teatrais nas igrejas. “Os habitantes mais desafogados passavam o tempo a engolir copiosos repastos que duravam horas, bem regados de aguardente brasileira e que terminavam invariavelmente por partidas de cartas com grossas apostas. As fortunas se faziam e se desfaziam numa noite”.
Desconhecerá talvez, ainda, que o censo de 1960 informa-nos que, do ponto de vista histórico, antropológico e político-ideológico, os grupos etno-linguísticos, com excepção dos Herero e dos não Bantu, representavam 95 por cento da população de Angola. Os chamados “assimilados” pela administração colonial (172 mil brancos, 53 mil mestiços e 30 mil negros assimilados daquela época) correspondiam, estes últimos, a menos de 1 por cento da população total, que, na sua grande maioria, não moravam na cidades, mas, sim, na periferia. Luanda crescia idealizada apenas para ser maioritariamente habitada pelos portugueses e seus descendentes. Os outros moravam no “museke”.
Depois da Independência, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), através do “Boletim Demográfico nº 9, da Mesa Redonda de Doadores”, realizada, em Bruxelas, em 1995, a população angolana, apesar da guerra, cresceu de 12.659 (em 1995) para 14.602 (em 2000). Essencialmente, por razões de instabilidade política e militar, houve províncias que passaram a receber população refugiada. No conjunto, as províncias de Luanda, Huambo, Bié, Uíge e Benguela representavam pouco mais de 16 por cento da área territorial do país e concentravam quase 56 por cento da sua população total.
Em 1990 e 2000, segundo o INE, só Luanda, ainda em período acentuado de guerra civil, passou de 1.526.900 pessoas; ou seja, 15,24 por cento da população total para 2.824.891 habitantes (19,35 por cento). A guerra só terminou em 2002 e ainda hoje, de acordo com o censo provisório de 2014, Luanda tem 6.542.944 residentes, 26,9 por cento de um total populacional estimado em 24.383.301 habitantes; i.e., cerca de um quarto da população do país reside na capital do país.
Luanda, de população fortemente discriminada e perseguida pela PIDE, lutou, desde 4 de Fevereiro de 1961, para deixar de ser cidade da clausura, apesar da forte repressão da PIDE, que culminou com prisões em massa e deportações para o Tarrafal, na sequência do chamado “Processo dos 50”. Em Luanda, a 11 de Novembro de 1975, o primeiro Presidente da República, Dr. Agostinho Neto, perante África e o Mundo, proclamou a nossa Independência, sob a ameaça, entre outras, das tropas mercenárias comandadas pelo coronel português Santos e Castro. A partir de Luanda, aos poucos, toda a Angola e uma boa parte da África Austral, se foram “desenclausurando” dos diferentes jugos coloniais e do apartheid.
Infelizmente continua a haver gente a assobiar para o lado e a cuspir para o ar. Nem nota que a sua própria saliva lhes caie no meio dos olhos e tapa-lhes a capacidade de visão e análise.

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