Março Mulher: A Palavra aos Homens

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“Politicamente decisivo ou não, Março, desde que eu sei, é um mês difícil. (...)
Marcço é um mês de roturas: de exaltações e de impasses,
de desejos guardados e de fés fermentadas, de entregas rendidas,
de concertos consentidos e de ânsias guardadas, de projectos sustidos
 e de indecisões iludidas, de agravos amordaçados e de paixões contidas,
de reconciliações temidas, de adeuses definitivos.
Não é vontade, não, é que o tumor explodiu. (…)
Março não é invenção de poeta. É tempo em que o mundo purga.
E sem purga não tem mundo.”
– Ruy Duarte de Carvalho, in ‘Actas da Maianga’.

Março Mulher: A Palavra aos Homens

Quanto mais nao seja, porque as Nacções Unidas, enquanto inauguravam, a 25 de Março –Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Comércio Transatlântico de Escravos, um Memorial permanente a essa efeméride, em frente à sua sede em Nova Iorque, dedicavam-na este ano especialmente às Mulheres Vítimas da Escravatura. E quem são essas Mulheres?... São Mulheres Negras do Continente Africano e da sua Diáspora, que, mais de cinco séculos passados desde o início da ignomínia que foi o tráfico trans-Atlântico de escravos, continuam a ser vítimas, ou a vitimar-se, pelas suas sequelas…
Passadas que são as águas de Março, por essa ponte sob a qual se discutem e negoceiam questões de Género, de Mulheres e das chuvas de Abril a vir, tempo para dar a palavra aos Homens…
Não por qualquer “favor”: assim mesmo só porque nos devem uma palavra – uma que seja…
Estatísticas publicadas nos EUA dão-nos conta de que pelo menos 57% das Mulheres Negras naquele país são solteiras, enquanto que no Brasil proliferam títulos de artigos de imprensa e blogosfera, como “O Síndrome de Cirilo e a Solidão da Mulher Negra”, “Sobrevivendo apesar da falta de amor: Empoderamento afectivo da mulher negra”, “Nossa solidão tem o peso do Atlântico”, sustentados em estudos académicos e estatísticos revelando que mais de 50% das mulheres solteiras no Brasil são negras, sendo as mulheres negras as que menos se casam e são mais propensas ao “celibato definitivo”. Observações similares no Reino Unido e um pouco por toda a Europa, revelam a existência, sobretudo na Diáspora, mas também no Continente, de “águas subterraneas”, que não conseguem sequer passar por debaixo da ponte desse ‘Março Mulher’ a que tanta poesia e retórica é dedicada…
Dêmos então, sem mais delongas, a palavra aos Homens…
Comecando pelos do nosso país:

"(...) A mulher sempre foi o elo mais fraco da cadeia social. Por isso, há que reflectir hoje em dia sobre o que é próprio da dominação colonial e o que é próprio da essência predadora do próprio ser humano e procurar, através da análise de obras como esta, libertar e ajudar a libertar o homem angolano de certos estereótipos em relação à mulher. A Mulher Angolana, neste país independente, ainda é oprimida. Não já por uma força política dominadora, mas devido à própria mentalidade machista e amoral de muitos homens angolanos.
Há violações de mulheres nos quimbos, com a conivência de certos sobas. Há violações de meninas familiares de esposas nos lares de Luanda. Há violações de mulheres um pouco por toda a parte. Há táxis de vidros fumados que raptam e matam mulheres nos musseques. Viola-se até meninas de 3 anos de idade. E para conseguir emprego, certas mulheres são assediadas sexualmente, como todos sabemos.
Por isso, o título da minha comunicação destaca bem essa má sina que persegue a Mulher angolana e Africana em geral. A terceira e última conclusão é-nos inspirada pela História Comparada. Este livro serve de espelho da nossa própria consciência social agora independentes. A leitura da literatura anti-colonial à luz da realidade contemporânea e liberal, provoca no leitor um misto de emoção e perplexidade. A emoção resulta da revisitação da consciência libertária dos colonizados, mesmo sabendo que, no momento, estavam a lutar contra um inimigo todo-poderoso. A perplexidade advém de, na nossa qualidade de leitores desta obra de Barros Neto, podermos dialogar com o colonialismo e meditarmos sinceramente no que nos estamos a tornar hoje em dia. Será que nos tornamos naquela “gente do Dondo, que tudo valia porque muito tinha”? Onde está, depois de tanta luta, o novo homem angolano?" – Jose’ Luis Mendonca, “(…)”, in ‘Cultura’

“(…) Mas hoje há também mulheres “viúvas” de maridos vivos. São aquelas que viram os seus companheiros desaparecer, deixando-as com os filhos nos braços sem tecto, sem comida e sem meios de subsistência. Alguns desses país “fugitivos” têm meios, estatuto social e são respeitados nos seus círculos privados. Esta realidade aumenta ainda mais a dor dessas mulheres que têm de fazer das tripas coração para criar e educar os filhos. A violência sobre a mulher é uma tremenda injustiça que a sociedade tolera e raramente é condenada pelos tribunais. Só a OMA e outras organizações da sociedade civil remam contra essa maré que carrega em si a indignidade.
No fim dessa escala de sofrimento e agressão estão as mães solteiras e adolescentes. Aquelas que tiveram um sonho de constituir família, ter um companheiro, um lar, ainda que pobre. Mal a gravidez começa a notar-se eles desaparecem e os sonhos são atirados ao inferno dos pesadelos. Eles partem para outra e nem se preocupam com a mãe e o ser que elas estão a gerar, muitas vezes num clima de incompreensão da família.
Muitas mães solteiras e adolescentes procuram emprego e precisam apoio social para criar e educar os filhos. Mas não sabem como fazer. Têm de ser tratadas com respeito e humanidade. Essas mulheres que subiram aos píncaros do amor e lá do alto caíram na realidade de um quotidiano sem perspectivas, precisam que a sociedade lhes dê um pouco mais do que indiferença ou críticas fáceis.
Angola tem muitas mães solteiras e adolescentes. São aos milhares. E os apoios sociais a essas mulheres, as corajosas combatentes dos nossos dias, são praticamente nulos. Pior ainda: sofrem na pele a discriminação ou a indiferença. Não são respeitadas nas comunidades onde estão inseridas. Muitas procuram desesperadamente um companheiro, apenas para ganharem o respeito dos vizinhos do bairro, ou rendem-se à prostituição. Só elas sabem quanto sofrem por cuidarem sós dos seus filhos cujos pais desapareceram ou nem sequer deram o seu nome aos filhos.
O Dia Internacional da Mulher é de comemoração. Mas também nos deve conduzir a uma reflexão sobre a condição feminina na nossa sociedade. As mães solteiras e adolescentes estão de tal forma indefesas e vulneráveis que merecem uma atenção especial. Não com palavras, mas actos concretos. Os casais, as famílias estruturadas, têm muitas dificuldades para criar e educar os filhos. Imaginem quanto isso custa a uma mãe solteira, sem emprego, sem rendimentos próprios, muitas vezes com vários filhos e vivendo numa casa precária onde falta tudo.” Jose’ Ribeiro – ‘O drama das maes solteiras e adolescentes”, in ‘Jornal de Angola’ (20/03/2015)

Passando aos da Diáspora:

"Nós sabemos por experiência que as nações são bem sucedidas quando as suas mulheres têm sucesso. Quando as raparigas vão para a escola – este é um dos indicadores mais directos sobre se uma nação se vai desenvolver perfeitamente e de como trata as suas mulheres. (…) É como maridos, pais e irmãos que temos que contribuir porque a vida de todas as raparigas tem valor e todas as filhas merecem as mesmas chances que os filhos, assim como toda a mulher deveria ser capaz de fazer a sua vida, andar pela rua ou no autocarro e sentir-se segura e tratada com o respeito e dignidade que ela merece.”
“O simples facto de que vocês, mulheres, se estão graduando, já para não mencionar que cada vez mais mulheres do que homens se têm vindo a graduar, sé é possível porque anteriores gerações de mulheres – vossas avós, mães e tias – quebraram o mito de que vocês não poderiam estar onde estão hoje.”
“Se você é um homem forte, não se deveria sentir ameaçado por uma mulher forte.” -Barack Obama, citado pelo “The Economic Times”

No Reino Unido, num artigo provocatoriamente intitulado “Porque os Homens Negros devem tornar-se Feministas”, publicado no jornal dedicado à comunidade negra neste país, ‘The Voice’, o jornalista Symeon Brown, dá-nos a conhecer os pontos de vista de vários homens negros sobre questões de género, dos quais seleccionamos os de dois escritores: Benjamin Zephaniah e Wole Soyinka.
Benjamin Zephaniah, o poeta que se tornou famoso por ter declinado um título honorifico que lhe foi outorgado pela Rainha da Inglaterra, durante o Keats Poetry Festival, perante uma audiencia maioritariamente feminina, foi surpreendido pela pergunta: “porque você nunca fala do seu pai?” Ele perdeu subitamente a sua normal jovialidade e, em seguida, partilhou a sua experiência: de como foi introduzido no ‘rhythm & blues’ através dos murros do seu pai sobre a sua mãe. Em silêncio absoluto, a audiência ouviu como o seu segundo choque com a violência quando pegou numa faca para a defender. Mas, numa brutal reviravolta de ironia, confessou como ele próprio viria a reproduzir aquele comportamento violento contra as mulheres.
Zephaniah recordou honestamente: “Eu apercebi-me que tinha o mesmo ritmo que o meu pai até que um dia perguntei-me ‘o que estou eu a fazer’? Parei e tive que desaprender o que tinha aprendido.” A cura por que passou é clara pela sua sincera declaração de apoio às mulheres e o seu papel como campeão dos direitos das mulheres, tendo afirmado, “nenhuma nação é livre de homens chauvinistas e violentos e ninguém deveria ter necessidade de fugir deles. O ‘sistema’ deveria lidar com eles, e se o sistema nao pode, então deve ser mudado.”
Ana Koluki

(CONTINUA)

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