Março mulher:A palavra aos homens (parte II)

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No ínterim entre a primeira e a segunda parte deste artigo, foi publicada uma entrevista da escritora e académica CamillePaglia, assumida transexual e considerada “a mais anti-feminista das feministas”, sob o título “Mulher deve ser maternal e parar de culpar o homem” (‘Folha de São Paulo’ – 24/04/2015), a que reagi com algum desconforto pelas seguintes razões:

Março mulher: A palavra aos homens (partes II)
Wole Soyinka

Porque não me parece que as questões que se colocam ‘as mulheres contemporâneas nos domínios do amor, afectividade, sexualidade e maternidade, face ‘à sua cada vez maior “terciarização” – palavrão que tomo de empréstimo ao “economes” para categorizar o progressivo afastamento da mulher do seu “sector primário” (função reprodutiva), para o “secundário” (função produtiva) e daí para o “terciário” (função criativa ou governativa) – se possam, ou devam, reduzir a um jogo de “mútua culpabilização” entre os sexos.
Neste artigo trato de “dar a palavra aos homens” – ou pelo menos a alguns deles cujos pontos de vista sobre o lugar da mulher na sociedade e os problemas que ela enfrenta no mundo contemporâneo me parecem de especial relevância e particular sensibilidade.
Portanto, sem querer e sem ter antecipado a entrevista de Paglia, o que fiz na primeira parte deste artigo foi explicar porque não concordo que a “solução” para tais problemas possa ser encontrada exclusivamente numa maior “devoção das mulheres à maternidade”, tão pouco numa contínua “culpabilização dos homens”.
Ela passa, quanto a mim, por isto: pelo diálogo entre os sexos, pela valorização e divulgação dos pontos de vista de homens atentos aos problemas que, afectando as mulheres, acabam por afectar os relacionamentos afectivos entre os sexos, portanto por afectar também os homens, as famílias e a sociedade como um todo. Se quiserem, esta é a minha ideia de ser “maternal” neste contexto: dar a palavra aos homens, sem fazer calar as mulheres.
Continuando, então, a dar a palavra aos homens…

WoleSoyinka, primeiro Afrikano galardoado com o Premio Nobel de Literatura, apesar de ter sido alvo de severas críticas por algumas feministas académicas que o consideram “insensível às questões de género”, tem sido de facto um grande advogado da paridade entre homens e mulheres, tanto nas suas obras como em discursos públicos. Num ensaio sobre a sua obra (“África, Questões de Género e a Construção do Poder Matrocêntrico de WoleSoyinka”) TundeAwosanmi, especialista em Soyinka e Professor de Dramaturgia na Universidade de Ibadan, desenvolve os seguintes argumentos:
“Na cosmogonia Yoruba, centrada na veneração da Deusa IyaNla (Grande Mãe) no culto artístico-performativoGelede, o coração e o corpo feminino, tal como o masculino, ébalançado ao ser depósito das forcas criativo-destrutivas da natureza – um paradigma cujo misticismo influenciou grandemente o matricentrismo e o patricentrismodramático de Soyinka.
(…)
Mas, aparte os seus caracteres ficcionais, Soyinka apresenta caracteres factuais da sua vida familiar e político-social para sublinhar a sua crença de que as mulheres sãotãointelectual e sócio-politicamente capazes e entusiásticasquanto os homens. A sua obra reflecte os espaçosimbuídos de liderançamatricêntrica em cujo código as mulheres funcionam integralmente como parceiras iguais e capazes no projecto de desenvolvimento social.”

Passando da literaturapara a música, HughMasekela fala-nos das suas experiências conjugais através de uma canção muito especial, “Mama”, que ele assim apresentou: “Eu escrevi esta canção em 1995 quando a minha esposa tinha-me assegurado que, apôs se ter recusado durante cinco anos a regressar à África do Sul para viver comigo, estava finalmente pronta para deixar Nova Iorque e regressar às suas origens onde eu a aguardava ansiosamente. No entanto, ela mudou de ideias quando nos encontramos em Paris em Julho daquele ano. A minha adição ao álcool e drogas estava a atingir o pico e, uma noite, depois de regressar de Paris, eu sentei-me tristonho, com pena de mim mesmo, ao piano e veio-me esta canção, que gravei no meu álbum “Notes ofLife”. Um ano depois, fui recuperar-me na Inglaterra e estou muito satisfeito por o ter feito, porque tenho-me mantido sóbrio depois de 44 anos de adição. Inútil dizer que a minha esposa nunca regressou e acabamos por nos separar definitivamente em finais de 1997. Esta cançãoé uma triste memória dos anos mais irresponsáveis e deprimentes da minha vida. Não desejo que isso aconteça a ninguém, especialmente a mim.”
A canção inclui estas linhas:
“Se eu tivesse que viver sem ti, Mama
Eu não quereria viver mais
Eu não quereria mais viver neste mundo, nem pensar
Eu não sei, não posso, viver sem ti, Mama
(…)
Eu sei que estou sempre fora todas as noites
tocando a minha música e jamming’ com os meus amigos
eles estão sempre a mandar-me embora
dizendo vai para casa para a tua ‘baby’
Eu nunca te levo a sair
(...)
Quando olho nos teus olhos
Eu vejo música no ar
E os sinos começam
A tocar...”

Finalmente, a palavra a um poeta Afro-Americano de NewOrleans, da geração dos BlackPanthers, KalamuyaSalaam, com quem me cruzei há' alguns anos na Blogosfera e no Twitter e cuja poesia e reflexões sobre 'Blackness' e especialmente sobre os relacionamentos entre Homens e Mulheres Negras me chamaram particularmente a atenção.

... E QUE SE ELEVE A BELEZA A UM OUTRO NÍVEL DE DOCURA

Tu és uma flor fresca
explodindo vigorosamente
para um duro mundo
com uma suavidade
forte como o aço
Buscando a luz do sol
elevas-te a ti própria
do fundo de baixo para cima
para fora da sujeira degradante
que a sociedade tão rotineiramente
atira sobre as mulheres,
tu transformaste
estrume, esterco e lama
em fertilizante
Primaverando auto-confiante
pelo tempo de inverno
tu trazes uma doce fragrância
de incenso e inspiração
a lugares mofados
rançosos e abafados
por misóginos sexistas
status quos
Tu desabrochas, tu floresces
tu expandes e cresces
elevando a beleza
a uma altitude estonteante
e a um mais salutar nível
de luz, vida e amor
Continua crescendo
Rosa Negra
Mulher Negra continua crescendo!

— KALAMU YA SALAAM

      Ana Koluki

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