Mediatização de alguns actos públicos de solidariedade

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Num mundo globalizado, onde imperam as TIC’s e se agravam as desigualdades na qualidade de vida das populações, o conhecimento tornou-se em um factor poderoso de produção e de mediatização.

Mediatização de alguns actos públicos de solidariedade
A réplica do jogador Daniel Álves a um acto de racismo no desporto

 Daí que haja um conjunto de necessidades educativas e de formação, para toda a população e não apenas para as camadas mais jovens, como tradicionalmente vinha sendo considerado. No Relatório da Comissão Independente População e Qualidade de Vida, de 1998, afirma-se que “a educação deve ser entendida e tratada como um direito que pertence não a um grupo etário específico (restrito à infância e à juventude) mas um direito para toda a vida e cuja realização pode assumir formas muito diversas”.
Poderemos, segundo o sociólogo Hermano Carmo, englobar esta realidade em uma única expressão: Educação para o Desenvolvimento e para
a Solidariedade. Assim sendo, logo à partida, educar para o desenvolvimento integra duas componentes indissociáveis:
- Educar o homem para tirar proveito da forma mais correcta do meio ambiente e do que tem; para evitar mortes desnecessárias, para prolongar a
sua vida com qualidade, para escolher, de forma crítica e com um estatuto de efectiva cidadania económica, onde e como quer viver e trabalhar;
para pôr a render as suas potencialidades como pessoa (Educação para o Desenvolvimento); - Educar para a sobrevivência da Humanidade, evitando-se assim convulsões sociais, onde se gastam enormes recursos e energias para solucionar problemas evitáveis (Educação para a Solidariedade).
Nos dias de hoje, pouco ou nada se tem falado de solidariedade como finalidade educativa e como um dos mais relevantes valores humanos indispensável ao desenvolvimento e ao bem-estar social. Muitas vezes me questiono se, no actual contexto da planetização da economia – onde o
trabalho (enquanto única actividade, pública ou privada, socialmente organizada e útil, já que gera riqueza) vai continuar a perder o mérito que lhe é
devido e aconfundir-se com o maior ou menor expediente especulativo (enquanto forma de aquisição rápida de “endinheiramento”), enfeitado com algumas acções de carácter social de ocasião (?!).
Aparentemente, alguns conhecidos actos públicos de solidariedade social, por mais importantes que se revistam, trazem sempre uma forte componente mediática atrás, para que os cidadãos se tornem sensíveis ou no mínimo notados face à opinião pública.
Mais do que apoiar ou, até mesmo, repudiar, há, por vezes, um excesso de protagonismo à mistura.
Em pleno século XXI, o racismo, um dos aspectos deploráveis de comportamento social desviado, continua a manifestar-se, quer de forma aberta, quer de modo camuflado. Há uns tempos tempo atrás, como forma de descriminação racial, há espectadores que atiram bananas para o relvado, na direcção de algum jogador negro ou mestiço que pretendem melindrar. O acto é, evidentemente, reprovável e terá de continuar a ser combatido pela FIFA e pelos agentes da ordem pública.
Também, a solidariedade para como os jogadores negros ou mestiços amesquinhados e moralmente agredidos terá de ser denunciada. Contudo,
para condenarmos este tipo de práticas de comportamento social desviante, teremos mesmo de passar a tirar fotos a comer bananas, publicá-las nas redes sociais e afirmarmos orgulhosamente “somos todos macacos” (?!).
Tenho também o maior respeito e espírito de solidariedade pela esclerose lateral amiotrófica (ALS na sigla inglesa, também conhecida como doença de Lou Gehrig) e apoio todos os que contribuem monetariamente para a ALS Association, que já angariou mais de 3 milhões de euros. Todavia, pergunto-me se a campanha do Ice Bucket (ou seja, despejar, em público, um balde de água gelada pela cabeça abaixo), acção levada a cabo por várias figuras públicas, que desafiam outras a fazer o mesmo, se tornará necessária para mostrarmos que somos solidários com os doentes da esclorose lateral amiotrófica ou qualquer outra doença grave?
Para além de ridícula a campanha, parece-me mais voltada para a autopromoçãode pessoas do que para o verdadeiro sentido solidariedade para como as más atitudes ou as graves doenças, mesmo que depois passem (ou se calhar não) a contribuir monetariamente para qualquer uma das causas. Estranho que ainda não haja banhos de agua gelada, ou coisa parecida, contra a fome a extrema pobreza, que atingem mais de metade da Humanidade.
Talvez para este caso, o banho esteja ainda morno e não gere ainda nem gritinhos,nem arrepios de indignação.

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