Minhas três edulcorantes sensações

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No decurso de toda a minha vida, poucas vezes medeparei comsituações que me catapultaram para o estado de apoteose ou de vibrantesfascinações.Das que me lembro,apenas três têm lugar cativo na frescura da minha mente. Por exemplo, como se vai ver infra, houve partidas sem regresso e chegadas sem sucesso, ao longo detal extenuadaodisseia. O melro de Coimbra, que se punha no peitoril da minha janela, no prelúdio de cada amanhecer,para me instar a voar do leito, quando estive por lá a cursarDelírio e Fantasia, na Faculdade de Vidência & Faz-de-conta.

No decurso de toda a minha vida, poucas vezes medeparei comsituações que me catapultaram para o estado de apoteose ou de vibrantesfascinações.Das que me lembro,apenas três têm lugar cativo na frescura da minha mente. Por exemplo, como se vai ver infra, houve partidas sem regresso e chegadas sem sucesso, ao longo detal extenuadaodisseia. O melro de Coimbra, que se punha no peitoril da minha janela, no prelúdio de cada amanhecer,para me instar a voar do leito, quando estive por lá a cursarDelírio e Fantasia, na Faculdade de Vidência & Faz-de-conta. Depois, a francelha do remanso, assomando afoitamente o cutelo da minha infância, em cima de um penhasco, que sobrepujava a então faustosaherdade, onde a nossa casa de família tinha assento.Ela mirava ansiosamente o batelão de cor trigueira, atracado no cais da antiga capitania, na cidade de Maria e de Vitória, que fazia o transbordo para um navio fundeado ao largo,à espera do apito para zarpar, com destino a Luanda, em terras de luzenteDona Ginga.
E umagalinha-mulher feia, arebuscadafeiticeira que, num golpe-de-asa,se transmutava emidealista, para passar a perna de perfídia ao esganado meu avô.O melro de Coimbra acabaria por ser meu compadre, na Colina de Candeia. Eu havia acasalado com fetiche de fulgurante incandescer e na sequênciaroguei ao nédioprotector da cercania para me servirdetestemunha. Eram tempos de penúria e de visível sacrifício. Um tipo, por mais que fosse marrão, chumbava amenamente à mesma. Para o meu maior assombramento, o talismãde bico doirado e de alucinanteadoraçãonão só aceitarapatrocinar a minha presença no cálido dosítio, com todo o seu cilício, como também me garantira que seria meu devoto companheiro durante a fatigante sabatina. «Para ti, só para ti, sou doravante um ponteiro de virente reluzirno limite dohorizonte, no despontarde cada aurora rósea. Ou, se quiseres, sou exatoBig Ben de Guilherme, no alto da Torrede Londres. Aceita o amuleto, adventício?», quis ele assegurar a minha anuência. Ao que reagi mais rápido que um flash «como não, se sou um peregrino de vontade e passo sofregamente mal neste rincão? Meu amo, eu nunca tive preceptorde caminhada e é a primeira vez que me emerge um anjo de cativante bom humor, para me passar o seu cobalto».
Ele arfou as suas asitas e sossegou-me «não tenhas receio do meu exíguo parecer. Eu não preciso de vistosos aparatose de anáguas-espartilho para te nimbar de lenitivo». Encarei o meu tutor e sussurrei «jamaisme impressionei com a quantidade dos aportes de ninguém. O que me importa é que faças algo por mim, querido líder». Então, ele elevou-senos pernis, impou a quilha, afiou o bico e aduziu «se tiveres que incumprir com os teus deveres, nunca será por ausência do meu canto melodioso às cinco da matina,em ponto». Depois deassumir a tarefa de me despertar, com toda a bonomia, resolveu confessarum seu intentoaté aí desconhecido «é o meu ardente desejo colocar-me nas vestes de afeiçoadomaioral, para te pôr a fita na lapela, nodia da tua benquistaformatura». Aceiteio bálsamo com folgado regozijo. Em decorrência,meu dador-de-mote abençoou-me, com a sua puritana sensibilidade, em todas as doridas alvoradas da minha estada na cidade de Minerva.
A francelha, acabando de dara série de boas novas no penedo da minha aldeia, empreendeu um voo descendente para dentro do quintal, caiu nos braços da minha mãe e abdicou «estou entregue nas tuas mãos. Podesdepenar-me e cozinhar. Já não tenho gás na lâmpada, nem valia digna de nome nesta míngua de vida. O prazo para as minhas adivinhaçõese efabulações terminou. Sinto um nó na tripa, mas, enfim. Tem coragem e sacrifica-me, agora mesmo. Senão vou andar por aí atarantada,a inventar patranhas e a ver figuras obtusas, não acertando em uma, tal que faria uma decrépita Sibila, contribuindo para o meu auto-desprestígio, com o único intuito de sobreviver a todo o custo e de defraudar os meus patrícios, justo um relógio avariado a dar palpites sobre vaticíniosimpossíveisde ocorrer». Minha mãe tremulou bastante, ficou hesitante, mas o passaretede bons prenúncios encolheu a pluma e tranquilizou-a «podes afogar-me,torcer-me o pescoço e fazer de mim um delicioso aperitivo. Ou julgas que não sou de grandemonta para o regalo dos teus filhos? Juro-te que sou de uma degustação fora de comum».
Assim, ela própria colocou o pescoço entre os dedos da minhamamanae implorou«afoga-me, afoga-me, Esmeralda! Do que estás à espera?». Porém, antecipando a decisão da minha mãe, ela trinchou a última bosta que tinha no esguio de intestino e prescreveu «guarda bem esta relíquia, que poderá ser de muito bom fado para os teus meninos. Sempre que um deles adoece, põe uma pitada da minha intimidade numa chávena de chá e dá-lhe de beber. Vais ver como recupera a mística num zás». Minha mãe ordenou-me a abrir a mala e a retirar dali um lençol em estado virgem. Ato contínuo, mandou-me cortar um naco de pano. Guardou a deixa da nossa testadora dentro dele e instruiu-me no sentido de apôr a secar no muro do quintal. Entretanto, a francelha se insurgiu«não, não é preciso. O meu legado não tem nada de humidade, porque nunca bebi água. Eu só sorvi ao longo da minha vida o elixir de éter-magnésio e o soro de malva seca». Posto isto, expirou aos cuidados da minha mãe. A carne dela era de facto uma ambrósia de deidade. Antes de acabarmos de a consumir, ela reergueu-se em viés de apenas alma e incitou-nos «deixem um pequeno filé de mim pendurado na cumeeira de cozinha e vão ver o que acontece». Minha mãe, depois de uma renhida disputa com a nossa cupidez de devorar todo o petisco, lá conseguiu reservar a trincha de iguaria destinada ao fumador.
O barco mergulhou a foice na água e bazoucom a única hurido nosso clã,para nunca mais voltar. Aliás, não foi a primeira vez que as ninfas do estuário do Dande e da bendita água do Bengo nos tinham pregadosemelhante partida na família. Meu tio, Sebastião de mítica saudade, escapulira-seà sorrelfa para a mesma excelsa seara, quando miúdo, a partir da Ribeira das Naus da minha suculenta ilha de berço. Mandou inúmeras cartas e fotografias, tecendo rasgados elogios à terra e às gentes que o acolheram. Tanto se deu bem à nova estância que por lá ficou, para toda a perenidade. Isto apesar de acalorada clemência do meu avô, no sentido do seu regresso. Em verdade, meu tio Sebastião cortara os laços que o ligavam às raízes do seu gentílico lugar. Bem, já sabemos que «quem bebe água do Bengo», como se diz na folclorina voz da Banda, fica logo adocicado. Das poucas missivas que recebia, meu avô, primeiro, colocava a vista na fotografia, passavadepois à mulher e só no rescaldo desse tranche de deleite é que se lembrava de ler a epístola.
Numa delas, meu tio começa assim a suaentusiastaalocução «meu pai, gosto tanto disto, tanto, tanto. Temo ir e não me deixarem retornar.Este recanto é um escândalo de bênção, o lugar de queda favorita de todos os deuses e prodígios juntos. Meu ledo pai, extensíssimas achadas, elevações que serpenteiam em torno de obelisco, desde o fundo do mar até o cume da Leba, como cintos anelares à volta do saturno;montanhasvertiginosas e verdes o ano todo, com águas a brotar de íngremes rochedos, das entranhas da diletante mamãe-África, em grandes catadupas,a decantara toda bridaem riose lagos, largos do tamanho dos oceanos. Campos enormes que se perdem na lonjura de deifica visão. Um país descomunal e próspero, sem fim, porque dispõede um acervo incomensurávelde fazendas e jazidas e de uma imensa biodiversidade. É duma dimensão doutra galáxia, amigo pai».
A galinha trambiqueira de Mato-lém, que nunca morria nem dava seus ovos a ninguém, era a mais inebriante feiticeira da localidade, como já disse. Sempre no pico de cutelo a indagar tudo o que se passavaà volta da comuna e a cacarejar incessantemente. Certo dia, meu avô brandiu a caçadeira, apontou na direção do seu pescoço e pumba. Quando nos aproximamos, era um cadáver de mulher que ali estava. Mal o tocamos, o corpo transformou-se em borboleta e desapareceu. Ao entrar em casa, estava elade piqueteno quintal. Ajoelhou-se junto do meu avô e suplicou «deixa-me voltar a viver e prometo que não te vais arrepender. Eu ainda não fui assaltada por nenhum homem». Meu avô que era um compulsivo mulherengo, ficou radiante com a ideia e perguntou«que tenho que fazer para te pôr a gloterar e a dar pinotes no cutelo novamente?».
A galinhola enredou o meu avô numa cilada, através destealiciante lamiré «faz uma cruz no cocuruto da minha tola e vais ver que rebenta uma fabulosa metamorfose. Durante o dia, sou galinha e tenho crista no alto da marmita. É a minha antena de captar irradiação e novidade. À noite, sou mulher, coma iscasaborida na fundura, como qualquer outra. Acredita que é merenda da mais fina e requintada categoria. Não te iludas com o tosco do meu rosto, aposta e faz aquiloque te instigo», reforçou. Meu avôficou garboso esequer nos consultou a respeito. Pois,pela pepita demulher até a alma ele vendia. Por isso, caiu cocote num grande logro. Ele tocou a cabeça da galinha e aquilo irrompeuem tenebroso intenso fogo, que o queimou a si e a todo o redor da nossa casa.De seguida, a bruxa esfumou-se num ataúde de névoa.Até hoje. E o meu avô todo torriscado, a estrebuchar, como um gato na braseira. Nota: francelha é uma catita e mui bonita ave pequena, que gosta de planar os ares, pairando sobre espaço, obsequiando a vizinhança com a dançabué porreira.
*No couro de Donato de Advento

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