Não quero outra noite agitada, com esta pedra no sapato, a incomodar-me o sono- Lello, Luanda

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Quem é que é afinal o dono do edifício da livrariaLello, que fechou três anos atrás – alguém sabe? Muito se curibota, e isto agora funciona como telegrama, e-mail, recado, o que for, a quem de direito.

Quem é que é afinal o dono do edifício da livrariaLello, que fechou três anos atrás – alguém sabe? Muito se curibota, e isto agora funciona como telegrama, e-mail, recado, o que for, a quem de direito.
A razão é simples, a célebre livraria está toda nua, e muito me apetece vesti-la com obras de arte, como a última daporta, só por isso – tenho a coisa pensada. A imagem é feia, sobre o rácio artistas plásticos, versus espaços de exposição, mais uma variável, na equação, por tanta coisa vazia, e abandonada, na cidade – ninguém fica bem.
Eu cresci com os livros na Lello, desde criança. Depois veio a fase em que as livrarias na cidade não tinham livros – lembram-se? – e as montras, e prateleiras vazias. Chegava-se ao balcão, e a funcionária dizia não há – já se sabia. Até chegar a altura, muito depois, que passando em frente desses mesmos lugares, na antiga livraria ABC, Lello, Mensagem, e quase me surpreendia – no sentido, que me emocionou inicialmente – olhar por acidente, e ver os meus próprios livros, que eu editei, nas vitrinas das livrarias da baixa da cidade.
Em breve ali serão só escombros, entre as dezenas de edifícios abandonados na baixa da capital. Mais um, ou este talvez quiçá seja até promovido em algo forrado a zinco azul, com aquele ar de que nada se passa, a não ser um outro abrigo, com porta dos fundos, dos novos, dos antigos e dos futuros, infantes de rua - como é da praxe.
Quero fazer uma mostra individual nesse espaço, encher aquelas paredes com a minha arte, ainda este ano, antes que isso aconteça – não iria dormir se não dissese isso. Agradeço qualquer indicação que me possa levar a conseguir a autorização do respectivo dono-responsável do lugar, o mais rápido possível.
Alerta extensivo aos amigos que aqui lerem esta mensagem, e que frequentam os lugares de decisão, e os donos das coisas & loiças todas aqui na terra – sópode ser assim, e até nos ficava bem a todos, sem makas nenhumas para ninguém.
Fico à espera, na melhor expectativa, e com uma contraproposta interessante para oferecer de volta. Passei por ali hoje, e já um vidro pequeno está partido da porta lateral na entrada, olhei melhor,a coisa está a descambar à sério, e pensei, é agora ou nunca – maisum lugar que deixou de existir no clássico da cidade, mas acho que lhe cabe um último abraço, merecido.
Queria ser kudurista por uns minutos, e cantar "Lha Vança” da Noite & Dia, ao menos isso. Mas não dá, não tenho esse talento, mas trago aqui uma ideia, e que pede parcerias. Oexercício daarte é o patamar civilizacional mais amplo, mais pacífico, mais democrático, mas precisa nutrição, para que contribua para a sociedade como lhe cabe, de volta.
Penso que seria certo homenagear o simbolismo do espaço, na sua memória. Tenho pensado nisso faz tempo, e também muito conforme as coisas me têm corrido aqui no atelier – pareceque concorda em pleno. O tempo e a(s) vontade(s) vão falar mais uma vez, como o fazem em constância.
"Luanda Merece Sempre Mais" digo eu amiúde. Acho uma aberração a cidade sem livrarias, nem galerias de arte, e porque vejo o enguiço do "panorama da coisa toda" logo por aí, bem na cauda, naquilo que se come em demasia, e naquilo que se deixa de lado.
Começa a ser doloroso ver tantos braços cruzados para aspectos que de facto são importantes para podermos dizer que alguma vez existimos em sociedade – se é que existimos como tal, ou se francamente nos recusamos, com os olhos fechados a fazer o devido. Rejeitando aquilo que é o prescrito por todas sociedades humildes, conscientes da sua pequenez humana, e investindo na circulação de literatura de qualidade – nãoé uma aposta, é um investimento inteligente. A promoção e sustentabilidade das artes e dos artistas nacionais deve acontecer como valor primário no alcance da elevação dos níveis educacionais entre os cidadãos, marcados pelos estilhaços da guerra, e das ausências que esse tanto nos trouxe, até às nossas veias, e na marcadas solas por onde passamos.
Juntem-se a mim, para que possa fazerentão a exposição de arte na antiga Lello em Luanda, e esta conversa vai continuar por lá, e talvez se junte ao muito mais que existe por aí, pelo valor do conceito cidade funcional – sociedade operativa. Diferente, no que entendo, como agora as primeiras autárquicas ameaçam cimentar esse desprender total do cidadão idóneo, mas promovem a (permanência) do militante do partido,como reitor do espaço público – onde o património, as artes e a cultura continuaram a fazer apenas parte do acompanhamento dos beberetes e de desfiles de vestimentas, brilhantes por norma. Liberdade então para todos, que seja, de participar; nem deveria ser um problema querer o bem da cidade.
Quem aqui nasceu, cresceu, viveu, brincou, trabalhou, quem foi aos cinemas que já não existem, quem namorou nos parques que secaram, os que gostam de praia, por sinal sem informação da sujidade marítima; quem aqui andou na escola – quando existiam escolas no centro, poderia organizar-se, fazer conhecer suas aspirações, para além do refilar habitual, de direito, mas que levanta mais poeira do que centeio, digo, em jeito de provérbio, mas acho crucial. A cidade merece que se faça mais o bem.
Mas acho que ainda dá, ou talvez agora seja o momento mais certo, para fazer coisas interessantes nesta cidade, com as pessoas e as artes, enquanto nos resta tempo e alguma pulungunza. Venham daí, agora é a Lello, e depois vai ser mais do mesmo, como se sabe, e muito pouco mais por partilhar vai restar, da semente onde todos comemos vida/cultura.
Pronto, agora durmo mesmo. Há quem conte ovelhas, mas nessa nunca entrei, porque me parece viciante– quero é dormir, não quero imaginar ovelhas. Verdade, não podia dormir sem falar da ideia da Lello, o espaço vazio, e eu cheio de obras frescas, era bom, era – mas se fosse para já, é que era bom – e em prol de muita coisa certa para todos.

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