O Ebó e a bomba

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Um pequeno estalo ecoou da caixa e a abandonada moça.

O Ebó e a bomba
Ebó de Exu

Todo ebó é uma bomba, mas nem toda bomba é um ebó ! Só para explicar em bom baianês, ebó é um procedimento litúrgico negro que é feito para se alcançar alguma graça, para cumprir com alguma obrigação sagrada ou os dois juntos. Vago eu sei, pois ebó pode ser tanta coisa e ao mesmo tempo não pode ser qualquer coisa. Na Bahia há quem morra de medo de ebó, há quem respeite e há quem finja sentir indiferença. O ebó provoca vários sentimentos
Acho um absurdo que culpem o heróico soldado do esquadrão antibombas da polícia baiana por não retirar aquela caixa do fundo do ônibus. Tudo culminou no Largo do Tanque, uma das entradas da Cidade, local que se pode avistar a estatueta de Luiz Gama, poeta negro do século XIX da melhor qualidade. Disseram que um homem aparentando estar embebedado saiu do Bairro Guarani e subiu no ônibus que desceria a ladeira de São Cristóvão.
Em tempos de grandes desconfianças, aquele quarentão negro entrou com uma caixa de papelão a exalar um perfume de comidas de azeite de dendê. Sabe-se lá o que tinha dentro. Contas no pescoço, roupas brancas, representações de Exu, Ogum e Xangô e lá vai o cara todo cheio de si sentar-se logo ao lado de uma branca com nariz de negro a se fazer de importante por ali. O ônibus não estava cheio. Com olhar desconfiado o homem revira os olhos à sua esquerda e a branca baiana parecia pensar que seu decote da blusa estava mais insinuante do que deveria estar. Os seios eram rijos, aconchegantes e sexualmente maternais, Odoiá !
O riso de satisfação por ser cortejada logo deu espaço para uma falsa cara fechada, era preciso disfarçar os desejos em uma falsa polidez do século XXI. Quando o ônibus chegou ao Largo Tanque e o homem da caixa de papelão avistou a estátua de Luiz Gama, levantou-se, deixou a caixa ao lado da moça e rapidamente desceu do ônibus, pronunciou algumas palavras balbuciando. Um pequeno estalo ecoou da caixa e a abandonada moça gritou jurando ter uma bomba que explodiria em alguns minutos, foi o que ouvi do negão, disse ressentida, fazendo gestos e cara feia de mulher traída. Muitas energias circulavam por ali desde a entrada da caixa de papelão.
Em tempos de terrorismo manifesto, o esquadrão antibombas chegou rapidamente, toda a turma armada com capacete, fardas e a imprensa na cola. Esqueceram parte dos equipamentos e pela demora da explosão a bomba não detonaria tão cedo, intuíram de forma oracular. Todos já haviam descido do ônibus. Ninguém estava liberado. Detidos a dar informações para retratos falados, comparavam o rosto do homem negro, portador da bomba ou da caixa de papelão, aos policiais. Todos de rostos fortes, corpos fortes, homens negros, mas se todo homem é igual, todos nós somos diferentes, reclamava o desenhista da polícia já irritado com o possível racismo dos informantes. Parece que não sabem olhar os detalhes dos pretos, o desenhista exclamava em voz alta.
Chegaram os equipamentos que faltavam e o mais destemido dos policiais com uma conta de Ogum à vista cruzada de um ombro à cintura por cima da farda, quebrando todo o protoloco militar, partiu para a missão impossível. Quando tinham esses problemas de atmosfera inexplicavelmente era sempre ele que ia à frente, o policial filho de Ogum. O entupimento do nariz não o permitira sentir o cheiro antes. Com o espirro, que assustou a todos, e a dilatação das narinas percebeu o aroma de dendê. Preparado e com a delicadeza peculiar aos desarmadores de bombas, abriu a caixa, cuidadosamente. A expressão da face mudou, de uma grave preocupação para um riso de alegria.
- Laroiê Exu, Agô ! Exu Ba Mi ô !
Exclamou o policial que foi seguido em coro por outros: Axé. Já alguns evangélicos gritavam: está amarrado. A mulher dos seios fartos ouviu o grito do policial e disse: eles são cúmplices, gente da mesma laia, foi essa frase que o terrorista falou ao se levantar. Alguns crentes até tentaram subir ao ônibus e com a bíblia destruir a caixa. Exu deu-lhes um empurrão que causou fraturas. Os outros, respeitosos, disseram: viu, não mexam com as coisas de Exu. A caixa ficou lá, intacta, ninguém é besta de mexer em ebó, principalmente de Exu.
A branca baiana arranjou namorado. No empurra-empurra para afastar os curiosos do ônibus, a branca baiana esbarrou-se com o policial que imprimia forma limitada aos insistentes com seu cassetete seguro nas extremidades por ambas as mãos, colocando-o em posição horizontal para complementar um cordão de isolamento. A moça de seios belos, inadvertidamente, envolveu-se na pequena confusão e teve o corpo parado com o cassetete do policial levemente pressionando seus seios, suspirou. Em poucos instantes estavam a combinar carícias após o horário de trabalho com recitais de grandes poesias aos ouvidos de um e de outro. Sou Janaina, sou João, apresentaram-se graciosamente. Janaina lembrou do sonho da noite anterior. Um homem com um porrete fálico nas mãos lhe garantia felicidade amorosa. Era Exu, Janaina mal percebia. O clima era de intensidades.
O policial, filho de Ogum, foi promovido pela coragem e o dono do ebó alcançou sua graça, pois largou a caixa de papelão como se fosse uma bomba, no ônibus, ao lado de uma mulher de belos e grandes seios como Iemanjá, ao avistar a estátua de Luiz Gama, assim orientou Exu. A lógica disso tudo é o amor. Como se diz na Bahia em uma das possibilidades da palavra bomba e suas derivações: o Ebó bombou ! De quebra, estouraram felicidades e Exu continua bombando na boca do povo.

GILDECI DE OLIVEIRA LEITE

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