O imbondeiro bonsai na mesa do meu quintal, o meu tratado da árvore

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«Cultiva, rega a jovem planta antes que ela morra: Um dia, deliciar-te-ás com os seus frutos... A cultura molda as plantas, a educação molda os homens.» Robert Dumas

Da semente dispersa, a árvore se celebra, arrojada, no milagre da folhagem austera. No seu eixo vertical, a árvore sugere um dinamismo ascensional que a liberta das condições terrestres e aponta um caminho para as alturas, para o céu, para a luz, uma rota privilegiada para a criatividade.

Neste dia, estava o meu amigo em posição de lótus, na relva do seu quintal, observando o embondeiro bonsai que, há anos, está na mesa do seu quintal, ornando a sua casa no meio de outras plantas.

Ele é o seu criador, o seu regador, porque amante do verde vicejante das plantas, que dão uma sombra tão fresca! O imbondeiro bonsai, este acima referenciado é o último que sobrou do seu plantio laboratorial.

Outros viajaram para outras paradas e moram, agora, em casa de muitos amigos seus ­ ou seja ­ dos amigos do meu querido amigo, que os receberam como prenda das mãos do meu amigo.

Já foram alguns imbondeiros bonsais, criados no seu laboratório/viveiro, que agora só há um, amado, admirado por muitos observadores que por ali passam e imediatamente ficam encantados a ponto de questionarem - isto é um imbondeiro?! Ele não vai rebentar o vaso? A proporção das partes com o todo do imbondeiro se ressalta metaforicamente, a beleza moral se parece com o corpo de uma mulher e toda a sua formosura ­ Você não acha? Num dia, em que estavam os colegas de escola da filha do meu querido amigo ­ uma delas perguntou ­ e as múcuas dela são tão pequeninas?! Mesmo nessa sua miniatura, ressaltava-se o gigantismo latente e imponente dos imbondeiros.

Daí a sua beleza. É de destacar no imbondeiro «o nosso rei e a nossa rainha»; a demonstração mais bela neste meu tratado: é na materialidade maravilhosa da sua constituição que brota o seu poder simbólico.

A estrutura espacial do embondeiro, enquanto árvore, não deve esquecer a sua estrutura temporal. Nele o exemplo está patente. Ao poder sugestivo da forma, associa-se a persistência de uma folhagem que parece escapar ao devir.

Sendo assim, no caso particular do embondeiro, a dimensão temporal inscreve-se no ciclo repetitivo dos períodos (seco ou húmido) que se reproduz exemplarmente, nas suas flores, suas frutas e suas sementes.

O imbondeiro enquanto árvore simboliza, no imaginário de quem a observa e interroga, o jogo universal da vida e da morte. Sacralizar as árvores. Em especial, sacralizar o imbondeiro.

Da germinação à floração, da frutificação à queda das folhas, a sua metamorfose organiza, à vista dos homens, a passagem do tempo, como se fosse uma espécie de maravilhoso relógio cósmico.

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