O imbondeiro bonsai na mesa do meu quintal, o meu tratado da árvore

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«Cultiva, rega a jovem planta antes que ela morra: Um dia, deliciar-te-ás com os seus frutos... A cultura molda as plantas, a educação molda os homens.» Robert Dumas

Na sua materialidade arvórica e filosófica, ele está saturado de significados de que os artistas de uma maneira ampliada têm estado a tirar alumbradas ideias. A observação das metamorfoses da árvore, em função das estações, deu origem a inúmeras obras pictóricas, musicais, poéticas e filosóficas.

Na verdade a árvore simboliza o movimento cíclico do tempo: tudo se transforma, tudo passa, só a árvore permanece. E como bem escreveu R. Dumas no seu tratado da árvore e o meu amigo aqui cita: "a árvore tem o poder de dialectizar a temporalidade e a eternidade, a mobilidade e o estático, o velho e o novo, a morte e o nascimento".

Ao observarmos a diferença que existe entre uma semente minúscula, o gigantismo do tronco e a floração de um imbondeiro, será difícil não ficarmos maravilhados com esse fantástico processo de crescimento. O crescimento da árvore fascina porque parte das raízes e materializa-se em todas as dimensões: uma força subterrânea que expele pelo canhão do tronco o feixe das folhas para a luz das copas.

Na Bíblia, esse movimento lento e orientado rumo a um desabrochar irresistível é, não só, o símbolo do mistério da vida, mas, sobretudo, o símbolo do mistério da vida espiritual. A árvore atravessa o texto bíblico desde o Antigo até ao Novo Testamento.

Há uma esperança escatológica que se materializa no símbolo da árvore. A árvore da vida, plantada, tal como o imbondeiro bonsai, na mesa do quintal do meu amigo, «no meio do seu jardim», sempre à vista de todos, contém em si a promessa dos seus frutos até ao fim dos tempos.

E ainda, segundo Robert Dumas, no seu primeiro mito ecológico da funesta história de sacrilégio ­ como ele mesmo diz ­ é possível compreender uma verdade fundamental: "não se deve destruir as árvores, porque o seu desaparecimento provocaria o desaparecimento do reino animal e mais, em especial, da espécie humana, como se o crime se voltasse contra aquele que o comete.

O ato sacrílego de atentar contra a árvore passará a ser um acto repreensível e punível, como se o mito significasse a tomada de consciência ecológica que foi emergindo lentamente ao longo de todo século XIX."

Para informação dos caros leitores, saibam que o querido amigo do meu amigo é um cultivador de sementeiras, que dão árvores e ele mesmo é um plantador inveterado de árvores, em redor dos seus altares.

E ainda, para o querido amigo do meu amigo, pensar filosoficamente a árvore é evidenciar a sua excecional racionalidade. Nos lugares por onde ele passou, fez questão de plantar uma árvore. Na rua onde ele mora, quase todas as árvores ali existentes foram plantadas por ele e muitas das árvores das casas circunvizinhas saíram do seu viveiro e plantadas pelas mãos do meu amigo.

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