O que cantaria Luís de Camões à Bernice Burgos?

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O que cantaria Luís de Camões à Bernice Burgos?
Bernice Burgos Fotografia: Jornal Cultura

(Chamam-te ilustre, chamam-te subida,/Sendo dina de infames vitupérios;/ Chamam-te Fama e Glória soberana, /Nomes com quem se o povo néscio engana!)
Estes versos tão antigos quanto novos de Os Lusíadas, e prestimosos nestes dias de excessos e tribulações causados pela FAMA, assentam como uma luva no caso da Bernice e de outras que entram na vida das pessoas pelos mesmos motivos e condições: o simples facto de ser famosa. Se a ossatura ainda lhe permitir, é claro, Camões pode estar a dar gargalhadas lá no túmulo onde calmamente esperava descansar, conforme morreu a saber, caso a FAMA (divindade romana. Contava tudo que ouvia: primeiro, a uns poucos e em segredo, depois, cada vez mais alto, comunicava-o ao céu e à terra) não lhe esteja a deixar ao corrente dos assuntos do dia-a-dia nestes mais de trezentos anos desde a sua morte. Bem, se levará Bernice a pensar ou não um pouco mais na sua profissão ou se estes versos afectam os seus nervos, pouco poderemos saber. Mas será que Bernice, esta jovem mulher na flor da idade mas já tão bem sucedida na sua carreira, poderia ligar à mínima ao canto de um poeta? Certamente que não. Bernice é resultado da deusa FAMA, e agora está protegida por ela, mesmo que o motivo a considerar seja apenas a sua “distinta constituição física”, como se justifica.
A equação perfeita está no contraste entre a finura da cintura e a largueza do quadril. A mulher que nasce assim, a seguir o raciocínio que justifica a afirmação da modelo Bernice, que em nenhum momento é dada como plus size, podemos concluir que possui uma vantagem.
Esperemos pelo menos que tenha consciência desta leitura errónea, principalmente quando estiver sozinha, no mais profundo exercício de solidão, de “espelho meu, espelho meu, quem é mais bonita do que eu”, e lhe ocorra, por uma súbita mas brevíssima decência e sensatez, que aquela parte de carne salienta que é a sua nádega não é assim tão descomunal, e que assim acontece com todas as mulheres do mundo mas que por sorte sua caiu nas graças da FAMA, tanto que podemos perguntar: o que afinal atrai, é o facto de ser boazuda ou é o facto de ser famosa por ser boazuda?
Se quisermos ter um pouco de História, é incontornável não associarmos esta discussão à “Vénus Negra”, porque as razões que a faziam ser levada para o círculo e ser vista por todos aqueles brancos preconceituosos e retrógrados também estão incluídas as de fórum sexual, dado que a comparação à vénus greco-romana era inevitável. Tinham então encontrado (porque ninguém nos descobriu, como se diz aí em pretensos livros de História que não vale a pena ler) um padrão da beleza e sensualidade negra. Nos dias que correm as mulheres negras mais cobiçadas, principalmente pela juventude, também são de nádegas avantajadas, muito bem recebidas e incentivadas pelos modelos da máquina pop americana, sendo o palco primordial a arte musical nas vertentes de Hip Hop e R&B. Estabeleceu-se assim a mulher cheia de curva, que Beyoncé tem sido até agora o exemplo superior, partilhando o pódio com Nick Minaj (a dona do movimento anaconda) e Kim Kardashian. As três são exemplos claros de sex simbol dos tempos actuais, interpretados como gostos da cultura negra, tanto que a expressão “corpo de viola” caiu em desusa e foi substituída por “corpo de Beyoncé”.
O raper Dji Tafinha também forjou, vertendo a sua querida inteligência em defesa da beldade, o seu talento vocal para criar a música em que narra o episódio da negação do visto à modelo americana. Se pelo assunto Bernice ou pela qualidade, certamente a primeira razão deve ser apontada como a que motivou o sucesso da música, fazendo furor nos meios sociais onde os admiradores da musa convivem. A mesmíssima acusação se pode atribuir ao espaço que estas linhas ocupam nesta página, dado que o assunto continua a ser a Bernice, motivo de clicks no Face, Istagram, e outros meios de fama.
Em termos de exposição física, quase não há diferença entre Bernice e Nick Minaj. Bem, Nick canta e encanta. Fez-se cantora de rap e R&B. Bernice não: só encanta. Move jeitosamente o seu corpo e mais nada, com um pouquinho de olhar imobilizador de gueixa, e é esta a receita da sua profissão milionária. O mundo de hoje está assim, e até ousou em dar-lhe um nome profissionalizante: modelo. Mas ninguém se admira que daqui a dias apareça a cantar, e a ter sucesso, porque o reboque aos músicos e conquista mediática a favorecem, visto que Bernice chega à boca do mundo através das suas aparições em clips americanos e pela notícia de ter vivido um romance com Drake, estrela pop americana de grande propensão mediática.
Aline Frazão, numa sua crónica no REDEANGOLA, espaço onde ela e Luísa Rogério expressam vários assuntos atinentes à nossa sociedade e catapultam atitudes positivas com sabor feminista, mostrou todo o seu repúdio. Já bem contrário, antes Tafinha questionara na música em causa: “Porquê não deram o visto à Bernice”, referindo-se à polémica do fracasso da primeira tentativa de entrada da Bernice, que gerou uma onda de protesto por parte da sociedade e em especial da opinião das mamãs de organizações femininas, sempre em prol da decência e dos bons costumes. Nas redes sociais, outras mulheres diziam que a brevíssima estadia da Bernice não podia ser possível porque abalava as certezas dos lares de muitas mulheres luandenses, que viam os seus homens a cobiçarem a latino-americana de um modo tão inconsciente e indiscreto como nunca antes tinham cobiçado as mulheres com as quais repartem a vida diariamente, com as quais se fizeram homens. Tafinha certamente deu voz aos homens que viram lesado o seu direito de macho-hétero. A fotografia é esta: muitos homens desgastam-se a trabalhar para conseguir grandes somas de dinheiros que lhes permita ter acesso a modelos como a Bernice, certamente o limiar do seu sonho hétero. As mulheres como a Bernice, enquanto jovens, podem viver folgadamente sem o mínimo de esforço, porque a sua eloquência física é uma verdadeira galinha que dá ovos de ouro. As ditas mulheres de casa lutam para que os maridos se mantenham aí, para não cederem aos excessos do fortíssimo e badalado sonho hétero. As feministas surgem em defesa delas, contras as atitudes dos héteros e tentam chamar à razão modelos como a Bernice. A verdade é que os homens não defendem a Bernice, mesmo que assim pareça, defendem um sonho assimilado do sonho americano, absorvido através de clips e imagens onde mulheres deste calibre se dispõe para o sujeito protagonista. Estar ao lado da Bernice é estar próximo desta imagem vista nos clips, onde os dólares estão espalhados no chão, carros de preços de uma vida, vinhos e charutos e beldades que à vista deixam boquiaberto, com música, luxo e despidos de qualquer preocupação terrena. Esses personagens criam mundos muito distantes da normal realidade da maioria dos mortais, mas muito apetecíveis, a traduzir a terra como um mito passível de ser equivalente ao jardim do éden. Bernice é modelo destes clipes e festas com grande audiência, que estorvam e separam os mortais, e é assim que chega a Angola, para participar numa festa realizada no dia 1 de Dezembro, aqui na nossa bela Mussolo. Somente estar ali e partilhar o ar com os comuns mortais, enquanto estes vislumbram nela o objecto de desenfreio de um sonho alimentado por via dos meios de comunicação. São estes clipes que instituíram figuras como a Bernice, pessoas somente figurativas mas que acabam ganhando a atenção do mundo, e as produtoras lucram com elas.
A tudo isso, Bernice parece insensível, sem dar a mínima ao pedido de moderação das feministas ou preocupar-se com a exacerbada luta dos simples homens pelo sonho hétero. E tudo indica que é bem possível de ser verdade que no seu exercício de solidão, de “espelho meu, espelho meu, diz-me quem é mais bonita do que eu”, enquanto soma homens e o seu dinheiro, rir com escárnio e desdém tanto destes homens dominados pelo sonho hétero como das feministas que apelam por via da consciência um problema tão melindroso como o desejo sexual, e ali o problema se apresenta ainda mais profundo e complicado, sugerindo que se desenterre Freud para nos fazer entender com a lógica dos apegos, desapegos e traumas como equacionar a questão deste líbido já algo preocupante.
Muitas pessoas criticam o direito de alguns artistas modernos de abdicarem da fama, de se prestarem apenas a um círculo muito restrito, e chamam-lhes cínicos e outros sinónimos piores. Mas a verdade é que hoje a fama assume proporções incontroláveis, e pode ser meio seguro de abusar da incapacidade avaliativa das pessoas ou de tomar por completo as suas vidas, quando muito mal exercida ou mal interpretada. Se são esses os tempos e consequências da era das tecnologias de comunicação, que é bem a nossa, da dita aldeia global, não restam dúvidas que todos nós, consciente ou inconscientemente, somos devotos da deusa FAMA, por mais incrédulo que este reparo possa parecer. Que o caso Bernice nos sirva de verdade. Mas, para puro consolo, vamos ler os poetas, porque afinal a poesia não é assim tão subjectiva, tão alheia ao mundo e suas banalidades. Digam o que digam deles, os poetas, da forma épica, silenciosa, subtil ou trágica como passam pela vida, mas é na escrita que nenhum detalhe da vida lhes escapa. A fama, de onde sempre nascem as bernices, não escapou aos olhos de Camões, lá nos longínquos anos de mil quinhentos e tal…
Por outro lado, descansem mulheres mulheres (esposas), que é natureza principal da deusa da fama o dom da efemeridade. Daqui a meses ou anos podem nascer outras novas bernices, mas esta que agora atormenta é ponto certo que só lhe restará memórias e um pouco de dinheiro ou talvez mesmo nada, porque poucas são espertas e económicas. Ainda mesmo nesta vida, cairão no silêncio físico. Porque a velhice é isto: silêncio físico, quando o corpo nada mais diz e se concretiza num silêncio inevitável. E talvez aí seja novamente sensato um bocado de canto de Camões, para fazer lembrar bem os excessos advindos aquando da tão ambicionada fama: ("Ó glória de mandar! Ó vã cobiça/ Desta vaidade, a quem chamamos Fama!).

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