O valor da família e a consequência da violência doméstica na saúde mental das crianças

Envie este artigo por email

ILUSTRAÇÕES DE PAULO KUSSY
A família como instituição, quando funciona correctamente, é o melhor meio de protecção das crianças.

 

O valor da família e a consequência da violência doméstica na saúde mental das crianças

Ninguém é capaz de amar e cuidar das crianças melhor que um bom pai e uma boa mãe. Infelizmente, nem todos os pais e mães são como deveriam ser. Por exemplo, quando um pai pratica a violência contra a sua esposa ou companheira, tal facto acarreta consequências trágicas para as crianças.
Uma criança (filho ou filha) pode sentir-se frustrada, indignada, desorientada, revoltada e transgredida na sua integridade e dignidade, ao ver a sua
mãe ser injuriada, ultrajada, vituperada, violentada e massacrada, sem poder defender-se ou ser defendida pelo filho ou pela filha presentes. Esta frustração e revolta tornam-se enormes quando é o marido ou o próprio pai da criança ou o tão chamado chefe da família que pratica um tal acto hediondo, ilegal, moralmente reprovável e condenável, quando ele deveria ser o protector máximo da família.
Efeitos perniciosos e danosos da violência doméstica são os traumas nas crianças e os efeitos destrutivos que produzem; ou seja, traumatismos ou lesões corporais, perturbações na alma e no espírito, que podempersistir e perturbar durante toda a sua vida. Em relação aos filhos, um pai ou uma mãe podem causar traumas nos filhos, por exemplo, através do abandono constante e falta de cuidado e atenção às necessidades dos filhos, da violência física e sexual e do castigo excessivo, e também através de pressão psíquica como repetidamente chama-los de nomes feios e fazer troça deles.
Os membros de uma família podem ser vítimas de “abusos de todos os tipos e humilhações que, podem até não trazer muitas marcas físicas, mas sim psicológicas e emocionais”. (1)
Como afirma Sigmund Freud, as experiências negativas das crianças e dos jovens menores podem marcar negativa e decisivamente a saúde, o bem-estar, a qualidade de vida, a felicidade e o destino de uma pessoa, em todas as fases do seu desenvolvimento ontogenético (individual). Sendo a família a base ou o fundamento da sociedade, a violência doméstica é o maior inimigo da sociedade e da humanidade. É,pelas razões que se seguem, pior que o inimigo externo, já que é mais difícil de ser identificado e combatido.

Trauma à luz de três causas principais da violência doméstica

O que é um trauma? Há várias definições deste conceito, consoante as perspectivas teórico-científicas adoptadas. No campo da psiquiatria ou dos
cuidados da saúde mental, entende-se por trauma um choque psicológico ou sofrimento severo como consequência de um indivíduo ter experimentado um incidente, episódio ou acontecimento desastroso fora do alcance da experiência habitual.
Exemplo de experiências não habituais ou extraordinárias são a violência física e/ou sexual e a experiência de guerra. Hoje, na Europa Ocidental, há
muitas crianças que experimentam a violência sexual, umas exercidas pelos próprios pais e outras por parentes próximos ou estranhos como os pedófilos. Neste artigo restrinjo-me à transgressão física e/ou sexual como parte integrante da violência doméstica. Uma causa ou motivo principal da violência doméstica exercida por um elemento da família contra um outro membro (alguns ou todos) é o alcoolismo que parece ser um fenómeno global. Aqui falta-me investigação científica para comparar o que acontece na nossa terra com o que acontece no resto do mundo. Por isso, abstenho-me de fazer este tipo de comparação.
Outra causa da violência doméstica é a narcomania. Em muitas partes do mundo há até filhos narcóticos implicados em violências domésticas. Tem
acontecido na Noruega, por exemplo, que filhos têm assassinado os pais para obter dinheiro para a compra de estupefacientes. Uma terceira velha dissimulada causa da violência doméstica é o ciúme. Este sentimento destrutivo, primitivo e velho como a própria humanidade, pode motivar um marido a injuriar, agredir, torturar ou até matar a sua esposa, mesmo na presença dos filhos, o que pode constituir um acto muito traumatizante para os mesmos.

Alguns sintomas de traumas

Pessoas que sofrem de traumas podem manifestar sintomas associados com várias doenças mentais como o autismo, a anorexia e o transtorno dissociativo de identidade (ou trastorno de personalidades múltiplas ou dupla personalidade). Este último tipo de trauma “[…]é uma condição mental em que um único indivíduo demonstra características de duas ou mais personalidades ou identidades distintas, cada uma com sua maneira de perceber e interagir com o meio. O pressuposto é que ao menos duas personalidades podem rotineiramente tomar o controlo do comportamento do indivíduo. O critério de diagnóstico também leva em consideração perdas de memória associadas, geralmente descritas como tempo perdido ou uma amnésia dissociativaaguda”.(2)
Quem sofre de anorexia e personalidades múltiplas perde,por vezes, o sentido da realidade e a capacidade de avaliar os seus pensamentos, comportamentos e atitudes, de acordo com o padrão de valores que, na sua sociedade, é considerado normal e aceitável. Por exemplo, uma pessoa pode causar ferimentos no seu próprio corpo (ou até tentar suicidar-se). Porém, quem assim procede, esta a utilizar um mecanismo de compensação ou uma estratégia de sobrevivência. O auto-sacrifício é, para o seu autor, uma reacção a uma situação ou experiência anormal. Quando uma pessoa adopta esta estratégia macabra e autodestrutiva, ela raciocina do seguinte modo: sofro de tanta dor existencial (psíquica e/ou espiritual) que é insuportável, inexplicável e pode conduzir-me ao desespero. Se eu ferir uma parte do meu corpo, então a dor existencial fica localizada e compreendida e, portanto, suportável. A outra estratégia alternativa é suicidar-se que, em termos concretos, é eliminar a própria vida como condição necessária à existência ou ocorrência e experiência do sofrimento. Por conseguinte, devemos ser cautelosos perante um caso de suicídio. Pois, pode ser que a pessoa que se suicidou estivesse a sofrer de um traumatismo experimentado na infância ou juventude, que lhe causava sofrimento insuportável, cuja causa e cujo diagnóstico era desconhecido tanto pela própria pessoa, como pelos profissionais de saúde que tentaram cuidar da mesma.

A violência doméstica pode ser muito traumatizante para as crianças

A violência doméstica, como principal causa de trauma nas crianças, é  frequentemente exercida pelo marido sobre a esposa e/ou filhos. É mais fácil uma criança experimentar um trauma do que um adulto, pelas seguintes razões:
“Ao contrário do que possa parecer, uma criança é extremamente exposta a traumas. Os adultos com suas experiências de vida vão endurecendo o couro, são capazes de suportar exigências grandes, xingamentos e punições sem serem traumatizadas. As crianças são como a terra fofa ou molhada, qualquer trauma é como se fosse um buraco profundo e fácil de fazer. Esses buracos, às vezes, ficam para o resto da vida, causando mau humor, tristeza e doenças. Infelizmente as janelas da mente estão escancaradas aos acontecimentos sensíveis como tramas, ameaças psíquicas e outras. Quando tratamos as crianças traumatizadas no começo da vida, fazemos com que esse buraco seja tampado, criando um adulto normal e feliz”. (3)

Reacções mais frequentes de crianças traumatizadas

Por falta de espaço, limitar-me-ei a nomear algumas reacções das crianças traumatizadas, reacções que os bons pais, educadores, vizinhos e amigos das famílias devem tomar ad notam, se realmente quiserem tratar da saúde dessas crianças. É bom prestar atenção às seguintes reacções das crianças traumatizadas: “Terem pesadelos ou sonhos ruins ou assustadores; conversarem ou gritarem durante o sono; acordarem durante a noite e ficarem agitadas; urinarem na cama; terem dificuldade em dormir (chegando, por vezes, a expressarem medo de dormir); sentirem-se culpadas pela situação do trauma; sentirem-se culpadas por tudo que acontece; terem bom comportamento em excesso; terem medo de ficar sozinhas; quererem atenção o tempo todo; agiremcomo bebés; terem choros constantes; terem medo; terem pesadelos e acordaremaos gritos; terem, na idade juvenil, inclinação para o suicídio; terem marcas de violência no corpo; terem conhecimento precoce sobre sexo; terem ataques de nervosismo;terem a sensação que vão morrer; praticarem o silêncio e o fechamento excessivo; terem baixo rendimento escolar; terem sentimentos de inferioridade …” (4)

Algo acerca do tratamento clínico de pessoas traumatizadas

O tratamento do trauma tem sido difícil por causa da complexidade desta doença mental. Muito resumidamente quero sublinhar, que um tratamento adequado a pessoas traumatizadas pressupõe o seguinte quadro de conhecimentos: - Complexidade do trauma, suas causas e sintomatologia; - Como o cérebro se desenvolve (ou deixa de ocorrer) em crianças e jovens traumatizados e como funciona em adultos traumatizados; - Conhecimento de necessidades especiais e do comportamento de pessoas traumatizadas;
- O facto de que no tratamento do trauma o doente pode experimentar situações re-traumatizantes, que fazem o paciente recordar situações que o
traumatizaram na sua infância, juventude ou adolescência. Valiosos conhecimentos para o tratamento adequado do trauma podem ser adquiridas nos EUA, na Austrália e na Inglaterra, onde a pesquisa científica do trauma tem progredido vertiginosamente.

António Barbosa da Silva

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos