Onde escavar em Mbanz'a Kongo?

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Vou basear a minha opinião no mapa de Edward Matenga (2007). Discuti sobre o mapa com dois especialistas: Jan Vansina e John Thornton. Conheço cerca de 1097 fontes arquivísticas que vão servir de orientadoras nas minhas humildes aceções.

 

O trabalho dos arqueólogos começaria aqui pela familiarização do terreno. Ilídio de Amaral fez uma excelente apreciação sobre isso num artigo intitulado “Mbanza Kongo, cidade do Congo, ou São Salvador.

Contribuição para o conhecimento geográfico de uma aglomeração urbana africana ao sul do Equador, nos séculos XVI e XVII”, in: Garcia de Orta. Série de Geografia, 12, Lisboa, pp.2-40. Depois, reestruturar o mapa urbanístico da cidade que deverá corresponder às descrições mais féis que existem nos arquivos.

Em síntese, partindo desse pressuposto, conseguimos localizar os dois dos três Ngundu, local onde se enterravam os ancestrais e realizava-se o culto aos antepassados: o centro sagrado estaria no próprio local da Igreja Kulumbimbi. Aliás, não foi por acaso que se terá instalado a catedral no mesmo local (o caso de Jerusalém, poderá explicitar isso).

Esse Ngundu, de facto, começa um pouco além da tumba de “Ngwa Mpolo” e vai até ultrapassar a igreja Kulumbimbi. E, como podemos ver, a construção da pista do avião terá destruído várias coisas, mas não todas (Vansina).Onde se localiza a tumba de Ngwa Mpolo se chamava “Ngundu’a nza”ou ainda Mazinga.

A seguir, em direcção norte, começa “Ngundu’a Malemba”, onde deveria se encontrar a residência de Nsaku Ne Vunda, como aliás o testemunha a árvore Yala Nkuwu. Isto é, o local de Nsaku Ne Vundu (ou seu representante) continha todo o espaço ocupado pelas igrejas batistas e onde passou a ser a residência real na época pós-declínio.

Onde escavar? A primeira opção seria nos antigos “centros sagrados”, que a população chama de Ngundu. Porquê nos Ngundu? E, aonde especificamente?

Ngundu tem um sentido antropológico específico. Ele localiza “onde foram enterrados” no mínimo nove ou doze soberanos. Antigamente, os Kongo (que eram um conjunto de várias tribos) consideravam seu local depois de construir “lukobi lwa bakulu” que, na verdade era um cesto onde se encontravam restos mortais de nove/doze soberanos, restos minerais dos locais de onde eram oriundas as populações e, finalmente, plantava-se Nsanda (Yala Nkuwu).

Esta árvore era plantada entre os três Ngundu territoriais, em princípio. Só depois de passar nove/doze mbangala (cerca de quatro anos, no calendário romano) é que o local era chamado Ngundu, porque era a origem de todas populações (Kongo).

O Ngundu era, regra geral, um grande mercado: onde os vassalos iam não só pagar tributo mas aproveitar a audiência para resolver os pendentes. Daí, importa especificar que num Ngundu há quatro lugares importantes. O primeiro é o “cemitério” que às vezes passava a chamar-se Mazumbu (geralmente são nove/doze campas/ diyumbu).

O segundo chama-se Lumbu. Os Mazumbu não eram habitados, mas no meio deles estava erguido o Lumbu: local sagrado que, geralmente, albergava a corte real (os espíritos dos Mazumbu protegiam os habitantes). O terceiro chamava-se Binkangu’a nkita: local, também sagrado, onde os Bankita (santos, mortos bons) protegiam as sociedades (os vivos).

Em relação ao croquis que temos, este se encontra hoje onde está a fonte de água chamada “Santa”. O quarto lugar sagrado estaria onde hoje está erguido o edifício do Governo provincial. As informações locais atuais são um pouco confusas. Ao analisá-las, ficamos a saber que o local era chamado Kansanda (Nsanda), mas desconhecemos se seria antes da chegada dos portugueses.

Contudo, faria sentido uma vez que encontramos vários tipos de acácia (nsanda). Há outro topónimo antigo, Kinsimbu. A tradução ainda está viva: “Bisimbibisimbidi ntini zaKongo”. Supõe-se que este local terá sido a sede dos protectores das fronteiras, que tinham a bênção dos santos/mortos (Bisimbi). Curiosamente há um posto de polícia para quem vai à vala (à direita de quem sai do edifício do Governo provincial) Até agora, como podemos ver, os locais centrais onde se pode escavar já estão ocupados: Kulumbimbi, Yala Nkuwu, Ngwa Mpolo e Governo provincial.

Será que já não há hipótese de escavação noutros sítios em Mbanz’a Kongo?

Para começar a responder a essa questão, importa salientar que, por ser uma cidade com mais de um milénio da existência, é possível encontrar presença humana quase em toda parte. A segunda opção será, talvez, a de localizar os antigos centros populacionais em Mbanz’a Kongo e, sobretudo, os Mazumbu mais antigos.

As populações conhecem as suas histórias, os seus locais míticos e sagrados. Se voltarmos a dar mais atenção ao croquis, veremos a estacão de Mobile que os arqueólogos pensam ser a maior reserva arqueológica. Importa salientar que o local era chamado “Nkond’a Ntotila” e o termo ainda é lembrado por causa do imbondeiro que leva esse nome.

Confunde-se também um antigo “nganda” (corte real) nos arredores. Sabemos, das nossas longas análises, que lá se encontrava o mercado chamado “Bukonzo’a Ntotila”. Eis o que reza a tradição sobre isso: Nkond’a ntotila: “ku tôtila bântu, ku tôtila ba ñkîsi: fez sair, deu origem a toda a gente, e a todas as forças mágicas” (Troesch, 1953).

Se assim for, o croquis estaria certo por considerá-lo como reserva arqueológica. Pela mesma razão, o local é tido como um dos mais antigos territórios que albergou a capital.

Mas não nos parece suficiente e eis o porquê: (1) é importante não se precipitar os trabalhos naquela zona somente para reconhecimento/legalização de Mbanz’a Kongo como património da Humanidade/UNESCO.

É preciso que se criem condições de trabalhos arqueológicos: criar um centro de pesquisa in situ para o efeito, com ferramentas, com especialistas a trabalhar, com uma revista que publicará sumariamente as suas pesquisas, linhas de pesquisas e resultados, com toda a logística para o efeito; (2) parece um intervencionismo administrativo dum só ministério (ministério da Cultura) quando, na verdade, deveria ser uma questão interministerial: do Ensino Superior, Ciência e Tecnologia; do Ambiente, do Território, etc.

Não só os custos para esse trabalho desequilibrariam a normalidade orçamental dum só ministério (da Cultura, nesse caso), como também a sua competência laboral não teria margem corretiva.

A existência da Universidade 11 de Novembro nessa região pode ajudar a reestruturar as coisas. O MinCult não interromperá os seus trabalhos, pelo contrário. O que, de facto, queremos é ver criada uma máquina que proporcione suficiências às demandas relacionadas com Mbanz’a Kongo.

Não faria sentido reconhecer este sítio arqueológico como Património da Humanidade sem portanto criar as condições para a sua gestão a nível de academia e a sua manutenção.

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