Ordem Rastafari: uma (sub)cultura de paz e amor

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Quem nunca terá visto um homem rasta? São fáceis de serem reconhecidos pelas suas características próprias.

Seus longos e trançados cabelos quando cobertos com coloridos gorros, despertam a atenção dos não rastas que despejam, alguns, olhares preconceituosos e discriminatórios.

Os rastafari são deveras diferentes. Serão uma (sub)cultura a temer? Devem causar-nos pânico pela sua maneira diferente de serem e estarem no mundo?

Para Richard T. Schaefer (2006), cultura é a totalidade dos costumes, conhecimentos, objetos materiais e comportamentos aprendidos e transmitidos socialmente o que inclui ideias, valores de grupos de pessoas ou de uma sociedade.

A subcultura será então um segmento da sociedade que difere do padrão da sociedade maior, é na verdade uma cultura dentro da cultura dominante.

Na subcultura como forma de variação cultural, certos segmentos da população desenvolvem padrões culturais próprios, desenvolvem-se de diferentes maneiras frequentemente porque um segmento da sociedade tem problemas ou privilégios únicos quanto à sua posição.

Mais do que querer definir o conceito, que seguramente impõe alguma dificuldade por não se encontrar já as suas características dominantes com clareza pois, devido à acelerada fragmentação das sociedades atuais é difícil identificar claramente a cultura dominante, logo vamos falar de alguns aspetos da cultura rastafariana dentro da cultura angolana, africana, bantu.

A Ordem Rastafari é um movimento fraternal, cultural, educacional e espiritual com mais de trinta anos de presença em Angola, constituída em associação como AMORA - Associação do Movimento da Ordem Rastafariana de Angola.

Na visão do patriarca Mateus Sebastião (Jah Issac) que transitou em Junho de 2002, o primeiro líder do movimento rasta em Angola, o Movimento tem a sua origem "a partir do próprio divino, o supremo arquiteto do nosso universo, Jah RastafarI". Jah disse, façamos o homem à nossa semelhança... Eis o rastaman.

A ordem reverencia Haillé I Selassié I, ex-imperador da Etiópia, como Rei dos Reis, Senhor dos senhores e Leão de Judá. O nome Rastafari vem do aramaico, idioma oficial da Etiópia, que significa; Ras, "cabeça, príncipe", Tafari, "paz", ou seja, "Príncipe da Paz". O movimento desenvolve-se na Jamaica entre a classe camponesa e industrial em meados de 1930, resultante de uma interpretação da profecia bíblica em Salmo 87, 4-6, e do discurso feito pelo profeta Marcus Mosiah Garvey.

Marcus Garvey após viajar pela América e pela Europa notou que a situação do negro, em toda a parte do mundo, era precária devido ao seu passado na escravidão e acreditava que a própria África não se desenvolvia por que sua mais forte e principal mão-de-obra havia sido retirada à força de seu continente, e assim pregava a volta do negro para a África. Ele disse num dos seus discursos em 1929, "olhe para a África, onde um rei negro será coroado, ele deve ser o seu Redentor." Esta declaração se tornou a base do movimento Rastafari.

Para se ser um verdadeiro rasta, é portanto necessário reconhecer e aceitar a identidade etíopeisraelita, conservar a plenitude da identidade histórico-cultural africana, é ainda fundamental conhecer os fundamentos da divindade de Sua Majestade Imperial Haillé Selassié I, cuja descendência vem da casa de Israel na linhagem Salomónica.

O homem rasta, na sua filosofia de vida, pauta-se por uma vida de consagração ao Criador, aceitando estritamente a moral e as leis divinas do Jah (forma poética do nome de Deus, Jeová). É dizer que o rasta angolano, sendo ele bantu, não pode viver indiferente à existência da divindade.

Tem uma experiência religiosa que mergulha no místico da realidade divina sem a qual a sua vitalidade constitutiva não teria origem nem teria sentido, conforme escreve Pe. Raul Altuna (2006).

O homem rasta ama e respeita a irmandade da humanidade pelo que desaprova o ódio, o ciúme, o racismo. Rastaman só quer paz e amor, é seu dever ajudar qualquer humano, animal e planta.

Ser rasta não é apenas vestir-se coloridamente de África, não é ser um antissocial e viver à margem da sociedade, das suas leis e da sua realidade.

Nas cerimónias espirituais e ritualísticas da comunidade rasta, o nyabinghi, o rasta, busca intensamente o encontro com Deus. Jah RastafarI consola e fortalece o guerreiro para enfrentar os dias difíceis e suportar a perseguição babilónica que controla o mundo.

Assim, o rasta resiste ao mal das bebidas alcoólicas, da alimentação prejudicial, de qualquer atividade criminal e, como verdadeiro filho de Jah RastafarI, foge da prostituição, adultério, fornicação e todas as licenciosidades dominantes no mundo moribundo.

Como diz a Bíblia, eles foram e serão odiados pelos homens, acusados falsamente, objetos de escândalos e perseguidos por serem RastafarI.

Não há necessidade de temer o homem rasta, como vimos, o rastaman só quer paz e amor. Permita-se conhecê-los e entendê-los para lidar com o choque cultural, sim, devido à não familiaridade.

Nós achamos que as práticas culturais da nossa sociedade são as adequadas e representam a norma, e isto resulta em o irmão se surpreender e se perturbar por perceber que o homem rasta tem filosofia de vida diferente.

Os costumes rasta podem parecer estranhos mas concorrem apenas para a busca intensa do Criador Jeová, Jah RastafarI.

Assim sendo, aprenda a viver na diversidade cultural e busque olhar a vida de um modo mais tolerante e com amor ao próximo respeitando sua cultura.

Aos irmãos na comunidade, Feliz Ano Novo, reflitam seriamente nesse novo ano teocrático nas palavras de Sua Majestade Imperial, sobre um novo modo de vida:
"O que buscamos é um novo e diferente modo de vida.

Procuramos um caminho no qual todos os homens serão tratados como seres humanos responsáveis... um modo de vida onde a ignorância e miséria, se não forem abolidas, sejam ao menos excluídas e também ativamente combatidas; um modo de vida onde as bênçãos e benefícios do mundo moderno possam ser desfrutados por todos sem o total sacrifício de tudo que fosse bom e beneficente na antiga Etiópia.

Nós viemos e somos do povo, e nossos desejos derivam dele e são dele.”
Que JAH abençoe a todos os viventes da terra.

Mulemba waxa Ngola, aos 07 de Setembro de 2012, 04h52

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