Para uma filosofia atlântica

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Atravessamos um período em que a famigerada globalização já não propicia um ecléctico homem unidimensional, como o perspectivavam, em confronto.

Atravessamos um período em que a famigerada globalização já não propicia um ecléctico homem unidimensional, como o perspectivavam, em confronto com o capitalismo e o poder desenfreados, idealistas como Marcuse, mas um títere formatado por uma sociedade consumista segundo os moldes prescritos por tiranos como Donald Trump, para quem Deus é o dinheiro e a religião, o negócio.
No momento, assiste-se a uma tentativa de resistência por parte da Europa ainda não totalmente dividida por algumas nações que, sem abdicar do poder do dinheiro e das suas variáveis do mercado e do consumo, almejam defender-se com muros ou barreiras invocando direitos de autodeterminação que alegadamente lhes são conferidos por exigência da sua identidade etnocultural – na qual incluem “direitos” à xenofobia e ao racismo, claramente expressos nas recusas ou obstruções aos migrantes que delas esperam apoio e compaixão.
Infelizmente, o etnicismo levado muitas vezes ao extremo também serviu e continua a servir a outras nações que, tendo sido dominadas pela Europa ainda dita ecléctica, situadas noutros continentes, designadamente em África e na América, tiveram de lutar com armas na mão contra a xenofobia e o racismo para alcançarem o direito à soberania e poderem declarar, como o grande poeta e lutador Agostinho Neto, NÓS SOMOS!
Mas se a dominação, então colonial, que também desenhou os contornos das nações da América, está hoje, no geral, resolvida, em África ainda se discutem fronteiras territoriais e as etnicidades continuam a marcar divisões intestinas, por ainda não estar adquirida a consciência de que só com um elevado sentimento unidimensionalmente humanista, - como o exprimiram Neto, em Angola, Senghor, no Senegal, ou Mandela, na África do Sul - se compreenderá que “não basta uma terra, um sangue, um dialecto, hábitos, costumes, um folclore, uma arte, numa palavra, uma cultura enraizadanum território e expressa por uma raça para formatarem uma Nação, que não é, como a Pátria, resultado de determinações naturais, portanto expressões de um meio, mas representa uma vontade de construção ou, melhor, de reconstrução. Ela é, objectivamente, uma reestruturação feita à imagem de um modelo exemplar, de um arquétipo.”
Enquanto não é atingido o modelo exemplar, as nações em fase de experimentação ou escolha procuram as sinergias mais consequentes com a sua história, como se prefiguram os países ex-colonizadores, esperando destes a consciência arrependida e a oportunidade de compensação, a par da real estima e troca de valores culturais que o passado gerou em ambas as partes. É este o desenho que pessoalmente fazemos da CPLP, em que porventura tanto ou mais do que a língua portuguesa foi o encontro ou a descoberta que os parceiros da Comunidade fizeram uns dos outros. O mesmo aconteceu com os parceiros de outras Comunidades, é certo. Mas, no respeitante à costa ocidental africana, e, no caso que nos move particularmente pensando em Angola, ao encontro seguiu-se um reencontro ao longo de um tempo quase inenarrável por mais violências do que catarses, que talvez uma nova filosofia, a par da história, avaliarápor uma “razão atlântica”, na expressão de um reputado académico, investigador e filósofo português, António Braz Teixeira, quando reflectimos que o Atlântico, com suas margens, condensou tradições, línguas e costumes numa filosofia única:libertação.
É um facto que, para muitos países da costa ocidental africana, designadamente para Angola, o Atlântico foi um manancial de emoções e sentimentos que separou e reuniu vidas e esperanças, constituindo palcos e cenários de resistência e lutas (lembremos os quilombos e as revoltas de Palmares e dos Malês) que se diriam obra de um todo poderoso Kalunga, ora deus, ora mistério… Se para o poeta Fernando Pessoa o mar Atlântico foi, gloriosamente, um Mar Português, para o poeta Agostinho Neto ele foi um mar de memórias sofridas, de separação e desencontro, que a escravatura balizou com dor e saudade. Mas sempre com uma Sagrada Esperançano horizonte, já que lhe pré-existia uma Renúncia Impossível.
A recente cimeira, em Cabo Verde, de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, sob o lema “Cultura, pessoas e oceanos”, deve ser considerada paradigmática. Num mundo em guerras de ódios, invejas e interesses, a CPLP será um exemplo do sucesso da vontade comum de povos geograficamente afastados, mas que um passado também comum uniu numa espécie de jangada (não de pedra como a de José Saramago) que não parou no Atlântico, antes continua a mover-se ao ritmo da vontade dos seus timoneiros face aos ventos e marés que vão ocorrendo. Com um dado adquirido: como já diziam conhecidos pensadores, navegar é preciso; o caminho faz-se caminhando.

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