Poesia e Religião

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É nosso objetivo tentar aproximar uma possível relação entre poesia e religião. Certamente não é novidade, pois remonta aos tempos clássicos em que poesia e religião se confundiam. Com Homero, Virgílio e outros foi que a religião greco-romana sobreviveu ao seu fim como sistema de crença explicando o mundo. Como a religião afeta o discurso poético?

Nesta questão sobressai o problema da conciliação do espírito crítico que absorve e domina o poeta e as imposições do espírito religioso.

Sendo a religião um elemento cultural universal, tem um papel básico na sociedade, esta mesma sociedade reino do poeta, fonte das suas inspirações. O poeta vive intensamente os acontecimentos da sua sociedade e isto modifica grandemente a linguagem poética.

Nós, africanos bantu, encontramo-nos submersos no fenómeno religioso, em toda a nossa vida, do nascimento à morte, encontramos implícito o fenómeno religioso, somos profundamente religiosos. Não será de estranhar encontrarmos poetas religiosos, com alguma raridade, o que não é o caso para religiosos poetas e, nas palavras de Drumond, "proliferam e dão mostra quase sempre de estreiteza de vistas". Terão os poetas vergonha de confessar a sua fé?

O poeta, nas suas reflexões, interroga-se sobre a amplitude e os motivos do caos do mundo e da vida, nessa hora ele se defronta com alguns dos problemas fundamentais do destino humano: o mal e o pecado; o sentido da existência; a atitude de Deus em relação ao mundo. A esse exercício reflexivo seguem-se as crenças e mitos pré-concebidos que moldarão o seu discurso e deixarão implícita a sua religiosidade.

Trajanno Nankhova Trajanno é um poeta angolano que muito aprecio ler. Na sua linguagem poética encontramos explícito e implícito o sagrado, o religioso. É também na sua maneira característica de se apresentar visualmente que podemos sentir a sua carga religiosa, vemo-lo normalmente vestido de branco, uma forma de "exteriorizar suas emoções a favor da vida e da paz". Trajanno a firma sentir a influência da religião na sua atividade.

Questionado por Aguinaldo Cristóvão sobre o tema, ele responde:
 "Encontramos no pensamento primitivo do Cristo, através da filosofia espírita, uma abordagem que nos parece descompromissada, desapaixonada e raciocinada na procura da verdade entre a ciência e a crença, o esclarecimento da vida, que nos satisfaz.

Nossa atividade, felizmente, aceita múltiplas influências... Em tudo o que nos rodeia, encontramos razão para influenciar nosso comportamento dentro da poesia e fora dela.

Às coisas que ajuizamos como exemplos positivos de seguir, impregnamos a nossa energia vibratória e adotamo-la para nós, como parte de nós mesmos e somos gratos à Divindade. Perante as que consideramos nocivas, pedimos auxílio ao Senhor, enquanto damos o tratamento material e moral adequados”.

" Alguns versos em `Caminhos da Mente' confirmam o que acima referimos: "Tens no olhar o revérbero dos anjos e o gesto e a lembrança/ da infância// tens o ósculo divino/ no horto das mãos em cada porto de meu caminhar..."
"...no novo horário em que revela Deus canções às aves// não imprimir este sonho é adultério ao cálice da rosa/ púrpura"
"confesso:/ nada mais me ofereço ao despertar para além da prece.../ a suavidade da canção da chuva/ vitaliza o morto em horto imaginário de fruta/ também imaginária de dor real e devota/ na canção da álgebra do caminho pela volta de Cristo!"

Trajanno, na sua crença, enfatiza a volta do Cristo, a sua segunda volta é para ele tema de grande fascínio e espera vivamente esse acontecimento majestoso e cosmicamente glorioso.

Outro poeta que convoco para esta reflexão é Martinho Bangula, benguelense filiado em várias agremiações culturais e sociais. Escreveu "Sexorcismo Poesia para purificação", em 2008, e, em sequência, "Sexonância - o momento pós-catarse", apresentado ao público luandense na UEA. Esperamos para completar a trilogia poética, "Sexonetos ­ a plenitude do ser".

O homem torna-se o centro da sua reflexão, desde a sua purificação até ao alcance da perfeição. Só com Deus ele pode atingir essa glória, apesar de que "por mil anos alma e espírito/ permaneceram cativas/ na penumbra dos deuses..." Ainda assim "... os deuses se levantam do sono profundo/ rumo ao longo cortejo de cinzas/ onde perfilam corpos esquartejados/ em busca do insaciável profano." Ante o engano dos homens que fecham a manjedoura, o poeta vem religiosamente definir o destino destes "... as gentes que partem dessas galileias/ rumam desorientadas como ateus/ no rosto têm os traços dessas epopeias/ que lhes custará um lugar nos céus// enfim... que se rebele na terra a criação/ para os céus já subiu triunfante e esquartejado/ aquele que se desfez trindade injuriado/ para o júbilo da morte e certeza da coroação"

Para fechar, perguntaram-me se no livro "Mátria" podíamos encontrar in influências religiosas. Sim, a Mulher Mãe da Vida bebe de Deus para sobreviver e o invoca nas suas lamentações "... Derramarei lágrimas no regaço do SENHOR/ para que Ele calce teus pés com versos/ de sabedoria e reflitas nas dores que/ abraçaram meu ser mulher no dia em que/ beijaste o sol da Vida". O sujeito lírico, na pretensão de ser poeta, a firma para a sua mãe que " ... o poeta oh minha mãe/ é um ser divino pactuando com o Eterno/ na criação do belo"

Numa abordagem do ponto de vista da teoria do conflito, a religião exerce um controle social grande e até mesmo promíscuo. Marx viu nela os efeitos alucinogénios, ela seria o `ópio do povo'. Daí que em "Mátria" denunciamos o controle mental de certos grupos religiosos e escrevemos "pétalas humanas amarfanhadas/... calcadas na tenra idade/... com grilhões de preconceitos e método/ e tédio anseiam estrofes de liberdade// o cárcere mental/ é uma eterna muralha/ que encobre a luz que amarra o olhar/ crítico da essência das coisas// ...conhecerão a poesia e a poesia as libertará". Notamos o intertexto com as palavras de Cristo em João 8:32, "conhecerão a verdade e a verdade os libertará".

Diremos então que o poeta, ora vem servir-se do discurso religioso para o explicar, ora vem para o denunciar, eis a missão curativa e libertadora da poesia.

Mulemba waxa Ngola, ao 06 de Outubro de 2011

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