Que agenda para a nossa música hoje?

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Desde os primórdios do nacionalismo africano que as artes estiveram sempre ao serviço da libertação e emancipação dos povos.

Que agenda para a nossa música hoje?
Elias dya Kimuezo

Se é legítimo afirmar que a literatura em Agostinho Neto, António Jacinto e Mendes de Carvalho, só para estes, foi uma arma contra a alienação da consciência nacional, não será perdoável negar um lugar de destaque à música angolana no processo de afirmação da consciência nacional.
O engajamento da música na construção do ideal de nação foi de tal modo militante que a história dos primeiros agrupamentos musicais confunde-se com a própria história do processo de libertação nacional, onde a militância e a resistência passam a enformar o cancioneiro nacional que se inventa na dialética da luta, como está patente nos diversos arquivos fonográficos e literatura disponível.
O papel despenhado pelos diversos agrupamentos, tais como os “Ngola Ritmo” ou “Kimbamba do Ritmo” no despertar da consciência dos angolanos foi crucial. Não se tratou de uma simples resistência ao colonialismo. Aqueles homens demonstraram inteligência ao recorrem folclore, ao musicarem os discursos e poemas de protesto mais contundentes da época sem, no entanto, dispensarem a sátira e a simplicidade. Havia um pacto social entre a sociedade e os músicos. E eles tinham consciência disso. Por este facto não poupavam esforços na recolha de elementos do nosso folclore, como fez Liceu Viera Dias, por exemplo, para construir o corpus próprio e estilizar a nossa música conferindo-a um sincretismo único capaz de abarcar o campo e a cidade, divertir e protestar. A nossa música tinha a uma agenda: a libertação e emancipação dos angolanos.
Hoje, porém, há uma certa música “pós-nacionalista” que navega na despropositura caracterizada, essencialmente, por uma desenfreada fuga aos novos mercados. A tão propalada internacionalização da nossa música está, em certa medida, a desvirtuar-se porquanto assiste-se mais a chagada de novos géneros do que propriamente a elevação dos nossos cartazes além-fronteiras. O nosso mercado musical tem-se revelado bastante permeável às invasões externas o que se agrava, quando confundimos a internacionalização de um músico angolano com a internacionalização da música angolana, sobretudo, quando este músico se apresenta lá fora com géneros e em línguas alheias ao nosso sistema cultural.
Parece-nos haver demasiadas distracções no nosso sistema musical ainda frágil, donde abundam interferências de toda ordem. Talvez devêssemos ir com um pouco de mais calma, repensarmos uma nova agenda para a nossa música. Não seria talvez mais sensato fazer-se um melhor trabalho interno, que envolva uma ampla recolha e sistematização do espólio musical já existente? Discuti-lo, classificá-lo e harmonizá-lo? Para depois nos apresentarmos ao mundo uma música que nos serve a nós? As propostas, alternativas e contributos que nos chegam através da música actual são diversas mas, precisam ser organizadas dentro do nosso sistema de valores. Parece-nos haver um enfraquecimento do compromisso social da música, ou no mínimo, esta última tem uma agenda diferente da agenda da nação. É importante referir que fazer “remix” de musicas antigas ou simples acto de revisitar os clássicos da nossa música cantando-os, esvazia-se de todo o seu sentido “preservacionista” e vanguardista se não existir capacidade de reinventar a alma da nossa música, acrescentando-lhe mais sensibilidade, fazendo-a mais solidária com os desafios do presente, tornando-a militante, cidadã, fazendo-a nacional e engajada.

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