Quo Vadis/ Cultura tradicional angolana?

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Casos da nossa vida social
I. Quo Vadis Cultura Tradicional Angolana?
Ilustrações de GUIZEF

Quo Vadis/ Cultura tradicional angolana?

A comemoração dos 40 anos da independência nacional constitui uma ocasião sublime para a reflexão sobre a idiossincrasia da nossa população, particularmente da citadina.
O passado legou-nos uma sociedade organizada, com princípios morais e valores familiares bem vincados, verificáveis ainda em famílias conservadoras; tradições e hábitos culturais, como a música, visceralmente enraizada no nosso povo; a gastronomia e o artesanato peculiares, dentre incontáveis elementos endémicos.
No presente, pelos sopros da globalização, pelo longo período de conflito pós-independência que impôs sofrimento às populações, como é disso exemplo o desmembramento das famílias, vivemos numa sociedade em fase de amadurecimento da sua identidade.
Diária e inopinadamente, testemunhamos situações da vida citadina tradutoras do modus vivendi da nossa população. È nesse contexto que se inserem os laivos de angolanidade dedutíves dos multifacetados casos da vida real doravante relatados:

12 Mar13

Ao chegar ao prédio onde residimos deparámo-nos com um enorme écran à entrada do edifício: está a decorrer o jogo de futebol entre o Barcelona e o AC Milan referente à 2ª eliminatória da Liga dos Campeões Europeus. Uma vintena de espectadores acompanha as peripécias da contenda, sentada no pátio de acesso ao edifício; outros fazem-no do lado de fora do muro, alguns agarrados à armação do mesmo, motivados, talvez, pelo nervosismo provocado pelas incidências da partida. Uns envergam a camisola do Barcelona; muitos torcem pelo clube catalão.
A cantineira, azafamada, assa frangos e pinchos e distribui bebidas, na sua maioria cerveja. Mesas e cadeiras de plástico, espalhadas, transformam a entrada do prédio numa improvisada e concorrida esplanada.
Já em casa, vamos escutando a ensurdecedora gritaria dos simpatizantes ao celebrarem cada um dos três golos com que o Barcelona elimina o AC Milan, depois de, no primeiro jogo, ter perdido em S. Siro por 0 – 2.

27Abr13

Estamos a almoçar num apartamento situado junto ao Cine São Paulo. Espevitados por uma algazarra proveniente da avenida, assomamos à janela. Nos passeios, os vendedores de rua e clientes, no frenesim comercial, parecem formigas!
Vislumbramos, a contornarem a rotunda, adeptos vindos do Bairro Palanca para apoiar o Kabuscorp no jogo com o Recreativo do Libolo, relativo a uma das jornadas do Girabola. Fazem-se transportar em duas carrinhas, uma de caixa fechada. Nesta, os jovens penduram-se nas janelas e sobressaem da escancarada porta de trás, agitando cachecóis e bandeiras; gesticulando; dançando de pé, agarrados uns aos outros; bebendo cerveja em lata e entoando cantos peculiares desta popular e rugidora falange clubista.

01Abr14

Frequentemente, moças, sozinhas ou aos pares, simploriamente ataviadas, batem à porta dos apartamentos a oferecer os seus préstimos: «Bom dia, tio. Nós tamos procurá trabalho: assim lavá, ingumá…» Invariavelmente, respondemos: «Não, moças, não precisamos. Já temos a Cândida.» Mas elas insistem: «O pai grande num sabe quem precisa?» Olhando compassivamente para as suas fisionomias expectantes, rematamos: «Perguntem aos vizinhos ou nas duas cantinas existentes no rés-do-chão.»
No fim da tarde do dia seguinte, somos alertados por batedelas vindas da rua. Celeremente, corremos para a marquise, abrimos uma das janelas e observámos duas senhoras, de panos, a passar em frente à Lavandaria Sessenta, com imbambas na cabeça, batendo, com colheres de sopa: a jovem, numa lata de leite Nido vazia e gasta; e a mais-velha, atrás, na base duma panela virada ao contrário. Caminhavam mudas.
O caso, inesperado e caricato, fez-nos recuar 40 anos e relembrar os costumeiros e apregoados desaparecimentos de crianças, no Golf da nossa infância: «Estariam à procura de alguma?»
Sábado, de manhã, fomos sobressaltados pelo chamamento estridente da mana:
- Depressa, vem ver!
Atónitos, corremos para a varanda traseira da habitação.
Vindo do sentido do Serviço de Identificação, aproxima-se um cortejo de imensas motorizadas.
Simultaneamente, outras tantas motas concentram-se na zona dos semáforos da Av. Hoji Ya Henda, à esquina do prédio, enquanto um polícia vai orientando a circulação de veículos, procurando minimizar a inconveniência do aparato motorizado.
À medida que o desfile se aproxima, vamos descobrindo a razão do mesmo: a última mota traz, atrelado, um… caixão!
Provocado pelo pavimento escorregadio, pela copiosa chuva que caíra na véspera, pela quantidade de buracos existentes na via, ou devido à condução descuidada do motociclista, a urna cai para o chão lamacento!
Rapidamente, alguns jovens abandonam as motas para auxiliar o condutor a recolocá-la no improvisado reboque.
O cortejo fúnebre junta-se aos motociclistas sitiados, e, seguidamente, partem roncando em direcção ao cemitério de Santana!
Enquanto recolhíamos aos aposentos, procurámos contextualizar a ocorrência que acabáramos de testemunhar: «Moda ou episódio insólito?»
Na segunda-feira, caminhávamos para a Lusíada pela Rua Capêlo e Ivens. Duas moçasem frente de nós, uma trajando uma blusa alaranjada e calças de ganga; a outra, um vestido de chita com minúsculas flores espalhadas pelo mesmo. À determinada altura, a primeira tira da mala um pequeno saco de plástico e deste um pedaço de pano, e, curvando-se para frente, vai limpando as sandálias, igualmente alaranjadas.
Assim curvada, enquanto vai limpando o calçado, aprimorando o cromado das fivelas, com a mão esquerda segura a presilha central das calças, puxando-a para cima, ao encontro da bainha da blusa, num gesto intencional para impedir, aos demais transeuntes, a visão do cós das cuecas.
Esta acção constitui um hábito pudico levado a efeito por muitas moças angolanas, quando estão sentadas em bancos, sobem escadarias e, principalmente, em cerimónias religiosas, como a eucaristia.
Contrariamente, muitos rapazes caminham colocando a t-shirt por cima do cós das cuecas, boxers ou calções, cintando as calças ao meio das nádegas, a fim de mostrarem a metade cimeira desta peça de vestuário!
Esta recente cópia masculina do modo de vestir juvenil, e já vulgar, em alguns países estrangeiros, vem estando aliada à outra, igualmente recente, de inúmeros jovens passearem, na via pública, fazendo-se acompanhar de cães – sem açaime – dos tipos pit bull e pastor-alemão.
Ora, estes dois procedimentos afiguram-se perniciosos por três razões: no primeiro caso, além da impudicícia na amostragem da lingerie masculina, os jovens, que assim vestem as calças, tendem a caminhar com as pernas arqueadas, como se fossem cambaios, para evitar que as mesmas caiam, o que lhes pode entortar as pernas, numa idade em que a sua estrutura óssea ainda está em desenvolvimento. O procedimento canídeo é um claro atentado à integridade física dos demais transeuntes.
Ao cimo da via, junto ao semáforo, um número considerável de jovens, exibindo as saquetas de plástico, interpelam, diariamente, os passantes para a venda de impressos e selos fiscais – cujo preço varia em função da capacidade argumentativa do comprador – para os vários tipos de documentos relacionados com automóvel, a serem tratados na contígua Direcção Nacional de Viação e Trânsito.
No fim do dia, observámos a manobra perigosa de um motoqueiro que, desrespeitando a linha divisória das faixas de rodagem, apenas imaginária, pois já inexistente, embate contra um carro ligeiro: moto e condutor estatelam-se no chão! O polícia de trânsito, habitual naquele cruzamento, toma conta da ocorrência. Depressa um magote de transeuntes circunda os envolvidos, explicando a causa, ditando sentenças sobre o aparatoso acidente. Uma das testemunhas oculares coloca o sinistrado no carro embatido, acompanha o dono do mesmo no transporte do acidentado para o hospital, enquanto outros ajudam o agente a retirar a moto para cima do passeio, em frente à Lavandaria Sessenta. Entretanto, uma senhora passa, transportando, à cabeça, uma botija de gás assente numa rodilha.

22Nov14

Atrás do prédio onde residimos, um rapaz, com cerca de 15 anos, lava a roupa em dois dos três tanques de pedra existentes no pátio, (semelhantes àqueles onde a saudosa lavadeira Ana, nas décadas de sessenta e setenta, lavava a roupa da família, nos bairros do Prenda e do Golf), atirando as peças lavadas para outro, para as repassar por água limpa extraída da cisterna aí existente.
Mas não está só. Além da criançada que brinca no espaço comum, outros rapazes retiram o precioso líquido para encher os bidões amarelos, de 20 litros – originalmente utilizados para óleo vegetal ou de palma – para venda, em alguns dos apartamentos do prédio ou no seu exterior.

28Ago15

Atendendo ao facto de a Universidade Lusíada ficar localizada na baixa da cidade, aproveitámos a disponibilidade diária para, por vezes, entrar nas igrejas aqui situadas, para alguns momentos de introspecção.
Cultivamos este hábito desde tenra idade, quando entrávamos para esses templos levados pela mão da piedosa mãe. Nessa era, “respirava-se” um clima extático, em que as orações em grupo, como o rosário, eram recitadas numa voz candidamente harmoniosa; o silêncio e a obscuridade imperavam, convidando à contemplação e à meditação.
Actualmente, um crente raramente encontra, no interior das igrejas, o ambiente ideal para o procurado recolhimento. De tal modo que, em diferentes períodos do dia: de manhã, à hora do almoço ou à tarde, grupos de senhoras, envergando lenços, camisolas e panos com motivos religiosos, postadas nos bancos dianteiros, rezam o terço, e outros tipos de orações, num tom de voz demasiadamente alteado, dificultando, aos restantes e singulares fiéis, a imprescindível concentração para a desejada “conversa” com Deus e/ou Nossa Senhora.
Outra moda que tem tido a adesão de mulheres dos diferentes estratos sociais é a do tipo de tratamento que dispensam ao cabelo, preferindo adereços ao cabelo natural.
Fazem-no por o terem encarapinhado, ou para extensão do liso que possuem, ou, ainda, para alterarem o visual: encobrem o cabelo natural com tranças postiças, grossas ou finas, viradas, “sanguita”, “escamas”, “Bobs” “cocks” ou “Leila”; falhas loiras, com cabelo brasileiro, cacheado ou liso; tissagens, aplicadas fio por fio ou por costura, feitas com cabelo de fibra ou… humano! Fazem-no, simplesmente por estilo, sem razões de queda ou inexistência de cabelo natural.
A preocupação em não expor a carapinha é de tal modo aflitiva que muitas empregadas domésticas, por exemplo, socorrem-se de chapéus para a esconderem durante o curto período da mudança de peruca ou de penteado; sacrificando muitos dos parcos kwanzas que auferem, nesse tipo de vaidade capilar!
Se o alindamento artificialprocurado é duvidoso, certos são os seus inconvenientes: a frequente comichão na cabeça e a quebra do cabelo original. Acrescente-se outro dano colateral: os cabelos de baixo custo não raras vezes são comercializados com piolhos!
O cidadão mais distraído poderia ser levado a cogitar que, a esta moda, aderem apenas as moças e mulheres jovens; puro engano, pois idosas há que usam este tipo de ornamento capilar! A moda já vai abrangendo algumas bessanganas que, debaixo do tradicional lenço, deixam à mostra a franja, ou pontas, da intervenção efectuada no cabelo!
Quanto às estudantes, vimos constatando que algumas passam as aulas mais preocupadas em ajeitar a peruca, ou a alisar a tissagem, do que a tirar apontamentos sobre a matéria que está a ser explanada!
Este fenómeno social tem-nos levado a cogitar: «Será que a globalização trouxe para África o costume dos cabelos lisos das negras norte-americanas?»; «Será que, num futuro próximo, deixarão de existir senhoras com lenços na cabeça, na sociedade angolana?»
Então, damos connosco a lembrar de que esta tendência já estava profetizada na velha canção popular, em voga na nossa infância: «Negra de carapinha dura não estraga o teu cabelo, me jura! Você não vai estragar o que vovó deixou pra você!»
De resto, «tranças corridinhas» usam-nas as adolescentes e, «com missangas a cair», as menininhas. Que encantadoras elas ficam, com as batas brancas a caminho da escola, ou com vestes cuidadas para a missa dominical!
Quo vadis cultura tradicional
angolana?

CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO
  MÁRIO ARAÚJO

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