Refletindo no espaço sideral com o professor Jorge Macedo

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Vejo-o sair do edifício do Mincult, esboça um sorriso reflexivo, ponderado.

O kota, malanginho intelectual, poeta, prosador, ensaísta, filósofo, etnomusicólogo, estende-me a mão. A melodia suave do vento ecoa entre as folhas das árvores. O kota despeja-me um olhar reluzente e da sua boca saem palavras: "reflita filho, pensa filho. Pensa a África, pensa Angola".

E as palavras das nossas bocas, e as meditações dos nossos corações sobem aos céus. Nós também subimos com asas de poderosas águias. Achamos no espaço sideral um cantinho de luz e acomodamo-nos em criativas cadeiras de bambu, ele saboreando quissangua com cola e gengibre, e eu sumo fresco de casca de ananás.

Continuamos no exercício indagador e reflexivo. A cabeça do kota é um livro aberto onde leio que "o pensamento é o instrumento modelador da cultura, que lhe confere traços identitários, filosofia de valores materiais e imateriais que as comunidades abraçam como seus".

"Professor, de que se deve ocupar o pensamento africano?" "Filho, o pensamento africano tem de se ocupar das grandes questões atinentes à conquista da dignidade dos seus povos, seus cidadãos, perdida durante séculos de escravização". Ele é inspirador. Reacende meu amor por África.

Não é que no livro o kota vem com lampejos de luz que iluminam outras leituras, minhas leituras! O kota faz uma retrospetiva dos atos reflexivos de vários africanos na diáspora, que desde as primeiras décadas do século XX levantaram a bandeira pan-africana.

Du Bois, um deles, Marcus Garvey, outro. Eis a renascença africana nos anos 30, a ideologia, o regresso à Mãe África dos africanos levados para o continente vermelho, as agruras da escravatura. Muitos "brothers" regressam, uns na Libéria outros na Etiópia, em Sashamane.

Aborda o pan-africanismo confinado no continente cujos líderes são Léopold Sédar Senghor, Birago Diop, Kwame Nkrumah. Deu makas.Inspirou a luta anticolonial. A frente cultural africana de luta é fruto do pensamento africano de libertação política que interessa conhecer em sua profundidade e latitude, diz o kota.

Um trovão rasgou o céu, e em seguida silêncio total. De novo o sorriso do kota. Tranquilizei-me. Declamei os versos de ternuras de olhos verbais, ele emocionou-se. Mais pausa, mais reflexão, mais silêncio, que foi quebrado com uma enxurrada de indagações reflexivas sobre o pan-africanismo.

Será que o pensamento pan-africanista terá sido divulgado ampla e esclarecidamente a todo pan-cidadão, em profundidade e latitude nas etno comunidades? Será que todos os afro-continentais ouviram falar de pan-africanismo? O que é? Qual o seu objetivo? Quem são os seus filósofos fundadores, continuadores, detratores? Que fatores obstaculizadores estarão na origem de significativos fracassos da magna revolução africana? Diferenças culturais? Étnicas? Guerras civis? Lutas pelo poder?

Falta de atmosferas democráticas do exercício político entre governantes e governados? Infiltração do neocolonialismo através de africanos vendilhões da pátria? Quem a vende? Quem não a vende? Que papel desempenhou ou não o sistema educacional africano na animação do patriotismo pan-africano?

Profundo silêncio. Na minha cabeça vem o facto de que o projeto de descolonizar a África do Cairo ao Cabo se efetivou, porém ainda é utopia a unidade de todos os "etíopes". O ideal de unidade foi tragicamente traído, e surgiram daí guerras civis que resultaram em derramamento de sangue, a ceifa de vidas humanas preciosas aos olhos de JAH o Criador.

"Filho, líderes e beligerantes africanos assimilaram mal o pensamento africano pan-africanista, ou simplesmente terão colocado os seus interesses pelo poder e suas mordomias em detrimento da felicidade dos povos, seus irmãos consanguíneos e de tronco cultural comum, de cepa linhageira.

Meu filho rastaman, pode considerar-se que o ideal patriótico-continental é desconhecido por noventa por cento das populações". Meneio a cabeça e penso: "eis a missão do africano consciente, ajudar os "brothers" que mentalmente ainda colonizados fomentam intrigas entre irmãos, coisa detestável aos olhos de Jah Rastafari.

Angolanos, liderai nessa caminhada da unidade africana, somos fortes e corajosos. É hora de erguermos as nossas mãos e andar. O kota fala da reconquista da inteligência angolana, que carece de ações dinâmicas, e de solidificar cada vez mais a reconciliação nacional, fortalecer o patriotismo, o nacionalismo, assentes na unidade da diversidade, cultura da diferença.

Fomos desafricanizados. É mister o resgate do pensamento afro-angolano, a cultura espiritual angolana. Devemos ainda conhecer a nossa história, a nossa literatura, artes e antropologia cultural. O kota denuncia que o neocolonialismo vem se instalando década após década nas mentes estrangeiradas dos ex-colonizados distraídos e, por isso, adiando a conquista da independência mental.

Nessa hora, o kota Macedo acena para mim e vai desaparecendo no espaço, e eu entôo "chants" encorajadores da ordem nyabinghi, vislumbrando já um paraíso africano onde a paz e o amor reinem:

"... I-tiopia caminha numa recta direcção I-tiopia caminha numa recta direcção Recta direcção é trabalhar e rezar Jah Rastafari não quer mentalidade colonial mentalidade colonial tem que ficar detrás
 ...
Levanta Rasta, levanta. Levanta I-tiopia, levanta em tudo que fizer..."

Que JAH abençoe eternamente toda a humanidade e que a paz e o amor cubram todas as águas.

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