Rio, tambula muxima I

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A gentil insistência do convite não me permitiu escusa: como angolano e poeta, escrever uma crónica sobre a cidade do Rio de Janeiro, e a paixão de ler.

Rio, você não sabe. Mas hoje, eu vou abrir muxima yangue com você. E começo por lhe dizer: muxima yangue é o modo mais natural e amplo − e o mais belo, porque no feminino−, que nós angolanos temos para dizer: o meu coração. O meu coração, e todos os amores, afectos e ternuras que nela, muxima yangue, se possam guardar e preservar para a felicidade − que se constrói, se afaga cariciosamente, e se alimenta a cada instante. Ou para o encantamento dessa arte maior que é estar vivo e cantar − de riso iluminado, e sem uma ruga sequer na voz.

“Muxima” − me permita ainda lhe lembrar, embora você o saiba desde há muito − é também o título de uma bela canção tradicional, que se transformou em nosso hino nacional angolense, dos afetos e da Ternura. Da dádiva, também – essa alegria límpida e soberana que nos lateja nas veias.

É ela, em seu bater cantado a vários ritmos, que eu oiço agora, enquanto escrevo. Primeiro, interpretada pelo nosso quase mítico N’Gola Ritmos, seguindo a batuta e a voz sábia de “Liceu” Vieira Dias; depois, na versão que dela fez Waldemar Bastos − nela incorporando os cento e muitos violinos da Orquestra Sinfónica de Londres −, e cuja voz e interpretação se tornam autênticas e poderosíssimas esculturas a insculpir-se na pele dos horizontes sensíveis do mundo, em perfeita religação do Ser como Cosmos.

E uma paz intensa, uma paz imensa, e boa, e muito doce, serenamente nos invade, se apossa de nós, e nos devolve o rosto − aquele rosto, que o espelho da manhã tantas vezes nos havia traído.

Me desculpe, meu querido Rio, este parêntese tão longo e assim arrevesado. Mas você, que tão bem conhece os labirintos da alma humana e seus líricos devaneios, sabe perfeitamente como são as emoções para gentes e Terras como nós. Você sabe.
mais re
Na verdade, foi num baile de carnaval da minha mota infância, numa pequena vila do Sul de Angola, então chamada Vila da Ponte e hoje Kuvango, que você entrou na minha vida.

Você me chegou, fatal e definitivo, pela voz (talvez desafinada e de sotaque imperfeito) do vocalista de Os Palancas − Donga do Amaral de seu nome −, entoando estes versos de uma marchinha de carnaval, cuja autoria nunca tive a coragem de averiguar, não obstante alguma vez lhe ter olvidado uma nota sequer da melodia:

Passar o Carnaval no Rio
Ouvir a tua voz
E depois morrer!

Aconteceu tudo isso, faz amanhã muito Sol e Poesia. E eu fui crescendo. E você comigo, se tatuando em mim no avesso da pele. Justo ali, onde o sangue circula íntimo e soberano, me alimentando de sonhos e de vida, de Poesia e braços abertos ao sempre imponderável espanto das coisas do mundo e das pessoas.

Você veio chegando sorrateiro e descarado – sedutor, de irresistível tentação.

Você vinha pelos sambas e chorinhos que passavam na rádio; vinha pela mão de brisa batida da Bossa Nova; mais tarde, pelas vozes liricamente transgressoras do Tropicalismo e da MPB; mas também me chegava pela música um pouco malaica − essa música a que você chama de brega, e da qual tem sempre tanta gente que gosta!

Você entrava em casa de meus pais pelas revistas “Manchete” e “Cruzeiro”, que eu folheava, guloso insaciável, mesmo antes de saber ler. Sim, que os livros vieram mais tarde − para me não abandonar deles, nunca mais!

E havia, também ou sobretudo, o futebol. Que era pela rádio que acontecia para nós, colónia que éramos ainda de Portugal, e sem televisão.

Não raro, algum clube brasileiro (aqui se diz: time) se deslocava a Angola para disputar algumas partidas com clubes locais. E para lhe ser muito sincero, não gostei mesmo nada que o Botafogo um dia goleasse o meu Mambroa, na cidade do Huambo, por três bolas a zero.

Rio, quero lhe dizer também, que em1970,mesmo quando a hora dos relatos era já tarde da noite, eu os ouvi a todos, e rezei a cada partida (como tantos angolanos, acredite) à Nossa Senhora da Muxima, “pedindo e rogando”, para que Ela fizesse “um feitiço bem forte e seguro”, de modo a que o Brasil, lá no México, vencesse a Copa do Mundo.

E venceu! E o mesmo sucedeu em1972, quando eu esperava com alguma ansiedade os resultados dos meus exames do 2.º ano de liceu, e decorria a Mini-Copa ou Taça da Independência, comemorativa dos 150 anos do Brasil como Nação. Taça, que o Brasil naturalmente venceu.

O que foi, para nós angolanos que o não éramos ainda como Pátria livre e soberana, motivo de imensíssima alegria e farra solidária e condizente, pois fora o antigo colonizador quem o Brasil derrotara no último jogo, com um petardo certeiro e fatal, da autoria de Jairzinho.

E há o Carnaval, razão primacial da minha paixão por você, agora felizmente já não platónica, mas que o foi durante tantos e tantos anos.

Rio, você sabe como agora o nosso amor é descaradamente poligâmico. E tão fiel, afinal. Tão (quase) feliz − fosse o mundo apenas paixão de ler, amor da crónica e da Poesia! Porque você, tatuagem que me respira e maravilha, é, como diz o poeta moçambicano Luís Carlos Patraquim, “um escândalo de beleza”! Não posso estar mais de acordo.E, como testemunha irredutível, assino a ambas as mãos por baixo.

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