Rio, Tambula Muxima II

Envie este artigo por email

Devo a um pequeno livro de poemas infanto-juvenis, "Debaixo do arco-íris não passa ninguém" - e a quem quis bem a esse livro - o ter sido um dia recebido por você, oh Cidade Maravilhosa! E devo aos cuidados da Amada, que tanto ama você e tão bem lhe conhece "a alma das ruas", este amor quase louco (e descaradamente poligâmico), que nos temos.

Rabisquei poemas em seu louvor. E os poemas falharam: saíram pouco menos que banais. Mas é à Rua de Paissandú, às suas palmeiras desvairadas de tocar os céus em brisas de semba e de samba, de chorinho e de rebita, que eu devo os poemas d' "A Galinha-de-Angola que punha os ovos no telhado", outro infanto-juvenil.

E foi no Flamengo, em casa da Amada (onde escrevo agora esta crónica), que nasceu e cresceu e se materializou, ideia e escrita, "A vassoura do ar encantado" - essa estória das duas bruxas que varrem o vento e limpam as nuvens de suas desnecessárias gorduras, para nunca chover, nem mais nem menos uma gota do que aquilo que a Terra precisa, e nela, as mulheres, os homens e as crianças; os animais domésticos e os selvagens; as árvores, os rios e as lavras; as flores e os frutos.

Aos seus poetas e cronistas, mesmo quando não são cariocas da gema, estarei sempre devendo uma imensa soma de instantes de felicidade extrema, pela leitura deles e pelo decifrar de seus dizeres inaugurais.

Porque você sabe, Rio, como um bom livro nos faz crescer venturosos, em direção ao mais íntimo segredo de nós; nos torna criaturas mais humanamente lúcidas e felizes; mais justas e mais livres; mais exigentes e mais dadivosas; mais belas e mais leves sobre a terra que nos guia os passos, e nos ensina, enfim, como sonhar e viver materializando a poesia de nossos sonhos é aquela liberdade para que nascemos, e da qual tantas e tantas vezes nos olvidamos, ou querem que dela abdiquemos em nome de tudo quanto não cabe na crónica nem no Poema.

A paixão de ler é a doença crónica (incurável, porque sem tratamento) mais saudável que eu conheço. A única, entre todas as doenças, que se deve desejar e nutrir, como se deseja e se alimenta a um ser amado a quem tudo se quer de bem.

Rio, me deixe lhe dizer: eu nunca ouvi tanta, tanta cigarra cegar o ar, trinchar o ar, e reverberar a dança antiga das árvores, ao peso do seu canto, como em Santa Teresa, pelo final de um certo dia de Novembro de 2006. Ou na Urca, às três horas da tarde de um outro Verão, cumprida que foi a Pista Cláudio Coutinho ­ pedestre e suada, e uma água de coco bebida na volta ­, contornando, da Praia da Ponta Vermelha, pelo sopé, o Morro do Pão de Açúcar.

E pelo canto violento e sábio das cigarras, com você eu aprendi como toda a sensualidade é selvagem, porque em puro estado inaugural dos seres e das coisas. E que nenhum corpo é imune ou impune à sua memória ­ essa outra paixão de ler.

E eis este cheiro das mangas debicadas pelos pássaros, soltas de seus pedúnculos altos, na brisa lenta das calçadas. Ou à sombra dos quintais, sob os nossos devagarosos passos amantes, de atentíssimas leituras encantadas.

O sabor alentado deste fruto embebeda o ar, modulando a brisa pelo seu cheiro. Esta manga, que trago do chão à boca, limpando suas areias, poeiras ­ é a infância: uma pátria inteira sobre o poema que se não materializou ainda.

Aconteceu no Largo das Letras (que é um Largo dentro de outro Largo, o do Guimarães), em Santa Teresa, onde acabei por tomar um suco de graviola e comprar um livro de Ungulani Ba Ka Khosa, moçambicano escritor de ficção.

Ao Largo das Letras voltei um destes dias. Estão ainda verdes e sem odor, as mangas. Apenas os micos, com seus leques brancos de pelos em torno das orelhas e seu focinho mínimo, de vivíssimos olhos perscrutantes, esbanjavam simpatia em troca de algum pedacinho de banana das mãos de alguém.

Género esdrúxulo da criação literária ­ me seja permitido repeti-lo aqui -, a crónica está para a prosa de ficção como a fulminante fulguração dos relâmpagos estará para a intemporalidade do poema, na Poesia.

Elaborada com propósito e função previamente estabelecidos, a crónica será - dentro da prática do jornalismo e do seu tempo quotidiano, trasbordante de urgência e de vida - uma arte maior de narração contida e, ao mesmo tempo, de narrativa abrindo-se em leque para a múltipla leitura dessa tão humana obsessão, que dá pelo nome de eternidade.

Ndá pandula, ó cidade maravilhosa de São Sebastião do Rio de Janeiro, ndá pandula, iáia: tambula Muxima! ­ que significa: Obrigado, ó cidade maravilhosa de São Sebastião do Rio de Janeiro, muito obrigado: toma o coração!



Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos